Paihama: “Parte o combatente de todas as horas”

A morte de Kundy Paihama, aos 75 anos de idade, representa, para muitos, um golpe na história do país, pelo facto de o homem das guerrilhas ter ainda muito a contar e passar para as novas gerações. Mas foi-se, calou-se e partiu para outra dimensão o militante que já esteve igualmente na frente da governação das províncias de Luanda, Huambo, Huíla Benguela e Cunene

Complicações ligadas as diabetes forçaram a partida prematura de Kundy Paihama, aos 75 anos de idade. Não é um homem qualquer, consideram políticos e pessoas que conhecem a sua trajectória. Tratam-no por combatente da Pátria de todas as horas e uma figura a ter em conta na história recente de Angola.

Derrubou-lhe a diabates, cujo tratamento passou por Cuba e acabou com a sua vida na clínica Girassol, em Luanda. Mas Paihama não cedeu e nem baixou a guarda na defesa do país desde a luta de libertação nacional até à guerra interna que teve fim com a morte de Jonas Savimbi, líder da UNITA.

O grau de general, dizem os homens da sua geração, não foi em vão. Deve-se ao facto de o homem ter estado na frente de processos militares complexos que tinham como propósito único a libertação do país e a restituição da paz.

A sua partida representa, para muitos, um golpe na história do país, pelo facto de o homem das guerrilhas ter ainda muito a contar e passar às novas gerações. Mas foi-se, Calou-se e partiu para outra dimensão o militante que já esteve igualmente na frente da governação das províncias de Luanda, Huambo, Huíla, Benguela e Cunene.

“É combatente de todas as horas, nos momentos mais difíceis da história do país”, é assim que a vice-presidente do MPLA, Luísa Damião, reage à partida do militante do seu partido.

Para Luísa Damião, que falava em entrevista, ontem, à Rádio Nacional de Angola, Kundy Paihama foi um militante, um nacionalista e filho de Angola cujos exemplos devem servir de inspiração para as novas gerações.

Segundo Luísa Damião, Paihama contribuiu significativamente para que Angola hoje fosse um país de paz, onde todos os seus filhos vivem e podem sonhar com um futuro melhor, apesar das dificuldades. Assim sendo, a vice-presidente do MPLA defende que o legado deixado pelo malogrado seja seguido pela nova geração de políticos e de militantes que hoje, noutro contexto, saibam dar o seu máximo para que Angola continue a seguir os trilhos da liberdade e do desenvolvimento social e económico.

“Não é apenas o MPLA que perde. Perde o país um homem e um combatente que esteve presente nas várias fases da nossa história”, frisou.

Parte o homem sem receio

O seu colega de militáncia, Dino Matross, considera o também amigo de longa data como sendo um homem sem receio que sempre falou as coisas na frente, sem medo de sofrer represálias.

O também antigo secretário-geral do MPLA, disse que o sentido de Paihama foi sempre de trabalhar e mostrar as suas razões de defesa, independentemente de elas chocarem ou não.

“É uma tristeza, parte mais um homem que ainda tinha muito para partilhar. Mas foi-se, assim como foram os outros que por várias razões de doenças tiveram de nos deixar. É triste e só nos resta endereçar à familia os sentidos de pesar”, lamentou.

Eminente soldado

O amigo e governador do Moxico, Gonçalves Muandumba, disse que foi com profundo pesar que tomou conhecimento do passamento físico do General Kundi Payhama, a quem considera eminente soldado.

“Podemos dizer tratar-se de um soldado dos sete costados, combatente intrépido, general sem medo, como também o podemos chamar”, mencionou. Para Muandumba, “o general” foi um dos grandes do MPLA, “homem íntegro e de convicções, patriota, grande activista e político”.

Com a sua partida, Muandumba diz que Angola perde um grande combatente que se bateu pela paz e reconciliação dos angolanos e um grande homem.

“Sentidas condolências à família enlutada e à família MPLA”, refere Gonçalves Muandumba.

O problemático

Nos últimos anos, Kundy Paihama foi acusado de muitas irregularidades que mancharam o seu nome e honra. Acusações de agressões físicas e envolvimento em questões materiais marcaram a sua trajectória recente.

Uma delas foi no caso da família do falecido governador do Cunene, António Didalelwa, que acusou Kundy Paihama (seu sucessor na província) de ter recebido uma série de meios, inclusive a viatura de apoio à família do malogrado.

Situação que chocou os cidadãos da província que manifestaram repúdio à atitude de Paihama, que até manteve excelentes relações com o seu antecessor.

Fragilizado

Os últimos anos de Kundy Paihama foram marcados com a sua aparição em público fragilizado, denotando não estar a viver na normalidade. Imagens de um homem doente, magro, debilitado e voltado para crenças religiosas viralizaram nas redes sociais e mexeram com a sensibilidade de muitas pessoas que sempre tiveram o político e combatente como um homem forte e poderoso.

Em alguns círculos, chegou-se mesmo a cogitar que Kundy Paihama teria visto a sua condição de saúde debilitar-se depois de ter sido exonerado do cargo de governador do Cunene.

Fontes próximas ao político referiram que Paihama chegou, inclusive, a lamentar-se de um suposto abandono do seu partido. “É verdade que ele tinha tudo de material e financeiro. Mas em algum momento sentiu-se sozinho, porque todos os seus companheiros o desprezaram. Nem cá em casa vinham”, lamentou um sobrinho de Paihama. Porém, com todos os defeitos e qualidades, é um até já a Kundy Paihama, o combatente, o político e filho de Angola.

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