Depois da energia a seguir pode ser o peixe

António Horácio é um jovem técnico médio que actua no sector administrativo da Odebrecht Engenharia e Construção (OEC), principalmente na logística alimentar. Tem como principal missão o acompanhamento do programa de piscicultura no entorno de Lauca. Seu sonho é “expandir o programa de piscicultura Angola fora” e responder à medida os apelos a diversificação da produção nacional

Fale-nos dos projectos de produção desenhados para agregar valor no entorno de Laúca, para além da geração da eletricidade?

A Odebrecht Engenharia e Construção (OEC), dentro do seu Programa de Responsabilidade Social, desenvolveu um projecto de geração de renda para as comunidades do entorno. Como a designação indica, o programa visou a promoção de actividades com o fim último de incrementar a renda das famílias que se encontravam maioritariamente em situação de vulnerabilidade económica e social. Foram, portanto, criados os subprogramas de agricultura familiar em que constam a produção agrícola de mandioca, milho, fuba e hortícolas; produção de sabão ecológico e produção de pão. Estes produtos têm como mercado principal para escoamento o Aproveitamento Hidroelétrico de Laúca. Por outro lado, e dentro do escopo do programa de reassentamento e compensação das comunidades de pescadores transumantes de Kissaquina Norte e do Baixo Muta, foi desenhado o programa de aquicultura que visa essencialmente dotar os pescadores de novas e melhores ferramentas para desenvolver as suas actividades.

Em que consiste o processo da produção de peixe, essencialmente a tilápia, conhecido entre nós como cacusso?

A produção da tilápia e de outras espécies prossegue fins económicos e o melhoramento da dieta alimentar e a geração de mais trabalho. No momento, toda a produção está a ser consumida no Aproveitamento Hidroelétrico de Laúca, pelos colaboradores da Odebrecht Engenharia e Construção e demais empresas/ colaboradores que frequentam o referido aproveitamento. Com esta linha de produção e distribuição, o valor arrecadado serve para se pagar os colaboradores da cooperativa.

Normalmente, os pescadores no entorno do rio Kuanza usam métodos tradicionais. Continuam com as mesmas técnicas ou lhes foi levada outra forma e conceitos inovadores de fazer a pesca?

O programa de aquicultura visa a formação dos pescadores na produção de peixe em cativeiro. Neste estão formados nove indivíduos entre os 25 pescadores inicialmente cadastrados. Portanto, e considerando a partilha de conhecimento, pode-se afirmar que os pescadores, embora guardem conhecimentos empíricos da pesca artesanal, hoje estão dotados de conhecimento teórico e prático da produção de peixe que não se pode considerar uma pesca per se.

Quais são os actuais números relativos à produção, pessoas envolvidas e investimentos?

Em termos de números devemos sempre considerar que um indivíduo exerce influência sob diversos aspectos à comunidade a que se insere para além da sua família. Por exemplo, ao considerarmos as pessoas envolvidas no desempenho de um funcionário público de escritório de meia-idade, podemos inferir que este depende para o seu bom desempenho de auxílio com os afazeres domésticos, educação dos filhos, tratamento da sua roupa, alimento e ainda dos funcionários dos transportes públicos que utiliza. Ora, fazendo um paralelismo com o projecto no que tange a pessoas envolvidas, podemos inferir desde já que toda a comunidade o esteja. Concomitantemente, temos os fornecedores de ração e de alevinos, os consumidores e a própria Odebrecht Engenharia e Construção (OEC).

O projecto foi desenhado para um período de curto, médio ou longo prazo?

O projecto foi desenhado para longo prazo, no sentido de formar os pescadores, dotá-los de conhecimento de toda a cadeia produtiva, incentiva- los para serem replicadores de conhecimento e, finalmente, transformar a linha do Kwanza numa forte fonte de produção e indústria de peixe, promovendo o crescimento da região e de seus parceiros.

Está confiante na sustentabilidade do projecto?

Como em todo o projecto em que se almeja continuidade, são requeridos os seguintes pilares: Vontade dos intervenientes que neste caso são claramente os próprios pescadores, formação, apoio institucional público e privado e inovação. Do que a OEC diz respeito, têm sido criadas as condições para a sustentabilidade do projecto. O projecto tem a sua finalidade específica e, portanto, seus apoios têm prazo de validade. Assim, esperamos que com as ferramentas cedidas, concretamente a formação e apoio, os pescadores estejam aptos para buscar outras por forma a garantir a sua sustentabilidade. Não colocamos aqui a questão do mercado porque estes estão disponíveis e, quando não, a inovação visa também criá-los.

Numa das nossas deslocações que fizemos à Barragem de Laúca conhecemos uma vila que acolhe pessoas afectadas pelas alterações que a construção da barragem provocou. Creio que se chama ‘Bairro dos Pescadores’. É um projecto que poderá fazer essas pessoas modestas felizes?

Na verdade, o nome é Vila dos Pescadores. A receita da felicidade é complexa, controversa e varia de pessoa para pessoa, de grupo para grupo. O nosso objectivo é contribuir para o alcance da dignidade das pessoas. Sabendo que cada ser humano é digno e valoroso e que todo o homem busca no fruto do seu trabalho o sustento da sua família, a sua dignidade, o crescimento e desenvolvimento de seus filhos e, em última instância, do seu país. É para isso que trabalhamos, é isso que nos move.

Laúca pode tornar-se num verdadeiro fornecedor de cacusso da região virado, por exemplo, para o grande centro de consumo que é Luanda?

O Aproveitamento Hidroelétrico de Laúca é um projecto de produção de energia, em nenhum momento nos desviamos deste foco. O Projecto de Aquicultura é um projecto para a comunidade com o apoio do AHL e implementado pela OEC. Como nos referimos numa das nossas respostas anteriores, o sonho é que o projecto cresça sim e que inspire outros análogos por forma a contribuir para o crescimento da região fornecendo peixe para diferentes regiões do país.

A maior parte dos produtores desta espécie queixa-se da falta de ração. Como é que esta componente foi salvaguardada?

Para além das parcerias com fornecedores de ração e a busca por novos fornecedores, o projecto visa o incentivo à produção local e artesanal de ração começando pela própria comunidade.

Deste modo, poderemos garantir a produção contínua.

Por gentileza de uma pessoa amiga provei a tilápia proveniente de Laúca, incluindo os filetes, e diga-se foi uma maravilha. Esta pode ser uma forma de agregar valor à produção e fazer com que os envolvidos obtenham maior rentabilidade?

Com certeza. Os pescadores formados no âmbito do projecto estão devidamente capacitados para este trabalho de filetagem do peixe. Deste modo, o peixe pode ser valorizado.

Quais são os moldes de venda e a que público destinatário esta a futura produção virada?

A ideia é que futuramente sejam produzidos em grande escala e alcance as grandes redes de supermercados e chegue à mesa da família angolana. Estamos a trabalhar para isso. Este projecto foi feito pensando na comunidade e que eles consigam perpetuar e criar novos horizontes de negócios. Podendo trazer o próprio sustento e benefício para a sua família e aproveitarem a grandeza do Rio Kwanza e sua riqueza.

O projecto possui 32 tanques redes, com uma produção em torno de 900 peixes em cada tanque, perfazendo uma média de produção/consumo de três toneladas por mês.

O processo de manuseio é realizado por uma equipa de nove produtores rurais do entorno do Aproveitamento. Os produtores receberam formação contínua sobre vários procedimentos, técnica de manuseio e ajuste alimentar do peixe, técnicas de nós e amarras, montagem de tanques redes, técnicas de preparo do peixe, biometria e cuidados de sanidade do peixe.

A implementação do projecto possibilitou a abertura de novas possibilidades às populações adjacentes, sendo uma das premissas o trabalho com as comunidades locais.

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