“Jamais alinhei com a Administração que geriu danosamente o património do BANC” 

O general Kundi Paihama vez esta afirmação no dia 5 de Junho do corrente ano, 49 dias antes de morrer, ao ser ouvido por uma equipa de magistrados da 1ª Secção da Sala do Cível e Administrativo do Tribunal Provincial de Luanda, encarregue de julgar do processo de 2327/19-A, relacionado com a falência do Banco Angolano de Negócio e Crédito (BANC), segundo apurou OPAÍS em exclusivo 

O antigo governante e nacionalista, que faleceu na última Sexta-feira, vítima de doença, havia sido ouvido em sua residência, em Luanda, por uma equipa do tribunal, na qual fez parte o juiz da causa, Osvaldo Malanga, o procurador Iloutério Lourenço, na qualidade de representante do Ministério Público, como o requerente, e o advogado Sérgio Raimundo, seu mandatado judicial. 

Foi justamente o causídico, a mando do seu constituinte, que requereu ao tribunal um pedido de produção antecipada de prova. Na ocasião, Paihama garantiu que nunca recebeu um Kwanza dos lucros do banco e que, apesar de no primeiro exercício ter sido informado de que havia lucro pelos administradores, decidiu reinvestir para o alavancar e não distribuí-los pelos accionistas. 

O general disse que não sabia de nada sobre os critérios que o BANC utilizava para a concepção de créditos aos trabalhadores e clientes. Contou igualmente que todo o seu património ficou com os administradores e alegou, de acordo com a fonte deste jornal, que por conta disso enfrentava dificuldades em manter o sustento dos seus filhos menores e demais membros do seu agregado familiar. 

Kundi Paihama declarou que a administração do banco escondeu-lhe muita coisa e, no entanto, sem se aperceber, deram-lhe vários documentos a assinar, e o fez na base da relação de confiança que tinha com os mesmos. 

Daí, de acordo com o malogrado, resultaram as presumíveis dívidas estimadas entre seis a 20 milhões de dólares. O Conselho de Administração do BANC era presidido por José Aires Vaz Rosário, coadjuvado por Valdemar de Vasconcelos Augusto, César Joel Gonçalves Cardoso, Jerónimo Mateus Dias Francisco, Agostinho Manuel Durões Rocha “Rochinha”, António Luís da Graça Gameiro e Sabino Mauro das Neves e Silva. 

Além de administrador do banco, Agostinho da Rocha ‘Rochinha’ exercia a mesma função na empresa Plugrijogos, dona da marca Casinos de Angola, de que Kundi Paihama é accionista. O mesmo acontecia com o advogado português Henrique Doroteia, presidente da Comissão Executiva da empresa Plurijogos, que integrava igualmente o Conselho fiscal do BANC. 

O Kundi Paihama esclareceu que, apesar de ser sócio maioritário, o outro accionista da instituição bancária é a Caixa de Segurança Social das Forças Armadas Angolanas. Como tinha pouco tempo para acompanhar as actividades do banco, desempenhava apenas a função de presidente da mesa da Assembleia Geral. 

Canal de descaminho de dinheiro montado em Portugal 

Paihama contou ainda que o então presidente do Conselho de Administração do BANC, José Aires Vaz Rosário, manifestou-lhe a intenção de abrir uma representação em Portugal, ao que recusou. 

Porém, ele prosseguiu com os seus intentos, sem o consentimento da Assembleia Geral, e em Novembro de 2013 abriu escritórios em Portugal. A representação do BANC em terras de Camões passou a funcionar num imóvel, localizado na Avenida da Liberdade 252, 1º Andar, 1250-149, em Lisboa, com arrendamento sobrefacturado. A sua gestão foi atribuída à esposa de Luís Gameiro, um dos administradores do banco em Angola. 

O PAÍS constatou, no portal Bancos de Portugal Info, que a representação do BANC apresentava-se como uma entidade com a função de fornecer informações e apoio financeiro/bancário a quem pretendesse desenvolver a sua actividade económica em Angola. 

Se propunha, também, a prestar esclarecimentos e apoio aos seus clientes angolanos nas decisões de investimento em Portugal, Espanha e em outros países da Europa. O general declarou que só mais tarde veio a descobrir a existência da representação da Avenida da Liberdade, em Portugal, e que a mesma serviu de canal para o envio de dinheiro a partir do BANC. 

“Ouvi dizer que na representação de Portugal havia uma viatura Mercedes que foi adquirida pelo valor de mais ou menos 400 mil euros”, contou, segundo a fonte deste jornal. 

As acções desenvolvidas pelo Conselho de Administração do BANC, sem qualquer deliberação da Assembleia Geral, não ficaram por aí. O general viria mais tarde a tomar conhecimento, por intermédio de terceiros, que havia sido aberta uma representação no Brasil, alegadamente por pressão do administrador Luís Gameiro. De acordo com a fonte deste jornal, Paihama contou ao tribunal que, na época, ficou bastante furioso com esta situação e deslocou-se ao Brasil para se inteirar do processo e ordenar o seu encerramento. 

O general reformado contou em tribunal que, em data que já não se recordava, foi abordado por José Aires, num momento em que se encontrava na sua fazenda, localizada na Mupa, município de Cuvelai, província do Cunene. 

O PCA do seu banco manifestou, na ocasião, que não pretendia continuar a trabalhar no banco com Agostinho Rocha “Rochinha”, um dos administradores, sem, no entanto, avançar os motivos. 

O general banqueiro, por seu turno, convocou ‘Rochinha’ para explicar o que se estava a passar e foi por este informado que tudo se devia ao facto de ter chamado atenção ao José Aires porque estava a trabalhar mal. Entretanto, o gesto desagradou o PCA do BANC, pelo que acorreu ao sócio maioritário para solicitar o seu afastamento. “Passei a desconfiar de ambos que, depois destes factos, voltaram a se entender”, frisou. 

Alerta: BANC era um saco sem fundo

Kundi Paihama contou que certo dia, que já não se recordava, o homem forte do seu banco foi procurá-lo em sua casa e lamentou que o Banco Nacional de Angola (BNA) não aceitava vender divisas ao BANC.

“Perguntei qual era motivo e o José Aires respondeu tratar-se de inveja que tinham do general”, recordou na altura o malogrado.

Inconformado, o general foi, em companhia de José Aires, ao BNA para se inteirar do que se estava a passar. E acabaram por ser recebidos em audiência por José de Lima Massano.

Segundo a nossa fonte, ele recordou que o governador do banco central disse-lhe que o “seu banco era um saco sem fundo, porque não honrava os compromissos, não tinha liquidez, capital próprio e tinha crédito mal parado”.

Embora não soube precisar a data, Kundi Paihama referiu que isso aconteceu na época em que era governador provincial do Huambo.

Afirmou ao tribunal que tentou apurar o que se passava, mas ‘Rochinha’ não permitia. Impedia-o de manter contacto com terceiros que lhe podiam prestar informação.

Por outro lado, Paihama manifestou que desconhecia a parceria que o seu banco havia estabelecido com a empresa Poltec, proprietária dos condomínios Boavida, Infinity I e II, entre outros.

Contou que certo dia, em data que já não se recordava, foi abordado por um cidadão, cujo nome não precisou, sobre o preço de uma casa no seu condomínio. Ficou surpreso com a pergunta e respondeu que não tinha condomínio, mas a pessoa que falava consigo insistiu que o BANC possuía condomínios.

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