Familiares de pacientes internados na Divina Providência clamam por testes após registo de mortes por Covid-19

São vários os familiares de pacientes que se encontram internados no Hospital Divina Providência, em Luanda, que clamam pelo teste de Covid-19 após surgirem os primeiros casos de morte pela doença ligados a esta unidade. Os doentes mostramse indignados por terem partilhado o mesmo quarto com vítimas e até hoje não terem sido testados

Já passaram vários dias desde que surgiram os primeiros relatos de mortes por Covid-19 no Hospital da Divina Providência, em Luanda, mas até ontem os familiares de pacientes que dividiram o mesmo quarto com os dois pacientes que morreram diziam não terem sido testados. O hospital já teve três casos suspeitos, dois confirmados e dois óbitos, uma situação que preocupa a equipa hospitalar.

Aflitos e com incerteza sobre o seu estado clínico, os utentes clamam por serem submetidos a exames, a fim de saberem se contraíram ou não o vírus, uma vez que tiveram contacto com os infectados.

Em entrevista a OPAÍS, Maria João, nome fictício, que tem o marido internado nessa unidade sanitária, conta que a preocupação surgiu logo após anunciarem o registo de casos de Covid- 19. Ela diz estar preocupada com o marido e com outra familiar, uma vez que tem contacto directo com o pessoal de casa.

“Eu tomo conta do meu marido aqui no hospital e há dias em que preciso de regressar à casa, com essa situação, aumenta o sofrimento de não saber se sou ou não portadora deste vírus”, disse.

Por outro, João Paulo, que também tem o pai internado, disse que esta situação preocupa a família toda, uma vez que ele faz parte do grupo de risco.

“Peço apenas às autoridades sanitárias que estão a fazer os testes que entrem em contacto com a direcção do Hospital Divina Providência para sermos testados ou, pelo menos, os nossos doentes internados”, clama.

No entanto, contou que depois de terem surgido casos de Covid- 19 nessa unidade, fez-se somente testes aos médicos que tiveram contacto com esses pacientes que morreram, deixando de parte os contactos directos dos malogrados, ou seja, aqueles que com os quais partilharam o mesmo quarto.

“Fico surpreso e consternado com os nossos dirigentes. E uma pergunta que não se quer calar: É facto de se dizer que nos hospitais, falo mesmo da Divina Providência, não há testes suficientes para as pessoas que dão entrada? E se tem, não é todas as unidades sanitárias. Isso me deixa perplexo”, lamenta o jovem.

“Não seria uma mais-valia testarem o pessoal aqui do que irem ao mercado?”

Por outro lado, Joana António, que também tem o marido nessa unidade, disse estar indignada pelo simples facto de nos mercados serem feitos testes e no hospital não.

“Não seria um mais-valia testarem o pessoal aqui do que irem ao mercado? É válido você deixar um local onde acorrem diariamente vários suspeitos e levar para o mercado?” Questionou indignada.

Ela espera ser testada junto com o marido, uma vez que estiveram expostos ao dividirem o mesmo quarto com um dos pacientes que morreu de Covid-19 no dia 3 do corrente mês e, alegadamente, foi anunciado apenas no dia 7.

Direcção do hospital preocupada com os familiares e colaboradores

A directora clínica do Hospital Divina Providência, Vanda Loa, disse que a preocupação dos familiares dos pacientes que ainda se encontram no hospital é também da unidade e dos colaboradores.

“Se dependesse da unidade, estaríamos de imediato dando resposta a esta testagem. Conhecemos qual é fluxo da testagem e isso não depende de nós, infelizmente”, frisou. Acrescentou de seguida: “continuo a debater a necessidade de se providenciar uma testagem rápida para nós. Deram uma garantia, vamos esperar”.

No entanto, Vanda Loa fez saber que são um hospital com foco para a tuberculose e todas as pneumonias com insuficiência respiratória recaem para este hospital.

A médica disse ainda que diante dessa situação nunca cruzaram os braços, no sentido de evitarem todos esses transtornos e a não ficarem de costas viradas com os utentes e os seus familiares. “Nunca foi o nosso foco. O nosso lema é ver o paciente como o nosso patrão e dar a ele o cuidado que lhe é devido. O diálogo nunca faltou”, frisou.

Hospital com baixa de funcionários em 40 por cento

Vanda Loa disse que o hospital se debate neste momento com carência em termos de recursos humanos, contando com uma percentagem de 40 a 50 por cento dos funcionários necessários, que são da função pública.

Mas nesses 40 por cento já está incluso um grupo que deve ir para reforma e outros que estão isentos da actividade. Acrescido a isso, têm colegas que estão em quarentena. “Então, o hospital assume limitações em algumas actividades.

É assim que há demanda, neste momento, de utentes, e a resposta do próprio hospital está reduzida, dadas essas situações”, contou.

No entanto, fez saber que alguns dos funcionários que não eram funcionários públicos foram admitidos no concurso público, para outras unidades, e vão sair do hospital. “Quer dizer que deste grupo nós já esperamos perder quatro médicos”, frisou.

De acordo com a nossa interlocutora, desde que o país entrou em estado de emergência e posteriormente de calamidade pública, há médicos a fazerem 48 horas seguidas de trabalho, por falta de pessoal para os substituir, uma vez que estão à espera dos resultados da Covid-19. “Nós estamos a ficar sem pessoal para trabalhar. Daqui a pouco vão ouvir que o hospital fechou por falta de pessoal”, disse a directora clínica.

Cerca de 400 pessoas acorrem diariamente ao hospital Divina Providência

Questionada sobre a quantidade de pessoas que acorrem diariamente a esta unidade, Vanda Loa explicou que além do hospital, tem uma rede periférica que presta os cuidados primários. Razão pela qual são transferidos para a Divina Providência todos os casos que transcendem a capacidade da rede periférica, o que perfaz um total de 400 pessoas que diariamente chegam ao hospital.

Por outro lado, Vanda Loa disse que com a validação, avaliação do risco da unidade, avaliação do risco e exposição dos colaboradores, tiveram a intervenção de uma equipa de resposta rápida que fez a testagem de 33 colaboradores da sua unidade, entre eles oito médicos e (na sua maioria) enfermeiros, bem como, auxiliares, pessoal dos serviços gerais e maqueiros.

“Uns fizeram o teste por colheita da zaragatoa e os demais testes rápidos. Estamos a aguardar os resultados. Recolhemos no dia 10 as amostras de sangue e, como não foi feita em placa pelo número e a hora que chegaram, levou-se ao laboratório. “Então, ainda estamos a aguardar pelos resultados, ressaltando que alguns dos testes foram feitos no dia 7”…

Entretanto, a directora clínica fez saber que os doentes dessa unidade são na maioria doentes com insuficiências respiratórias. “Eu já procurei saber, se nós fomos conotados como hospital sentinela, não seria uma mais-valia dispor os meios aqui, por ser um local que acolhe vários suspeitos?”, perguntou.

170 mil pessoas acorrem anualmente à Divina

Por sua vez, o administrador do Hospital, Daniel Gobo, disse que anualmente atendem em torno de 170 mil pacientes, apesar de terem uma capacidade de 147 camas.

Fez saber que a sua instituição tem três focos de atendimento, que são: tuberculose, VIH/SIDA e malnutrição. No entanto, são referência a nível nacional no tratamento destas três patologias, apesar da exiguidade das infra-estruturas. “Só em VIH tivemos 3.500 pacientes em tratamento. Estes, pelo menos para nós, são de categoria de vulneráveis e deveriam ser testados todos. Somos um dos poucos hospitais que conseguem entregar a estatística a tempo e horas e um dos poucos que defendem que o hospital não deve ser que financiado por classificação, mas por prestação de serviço”, disse.

Para sustentar a sua tese, exemplificou que se fizer 50 mil consultas e for pago por este serviço, então vai querer 10 milhões de kwanzas, por ser um hospital de referência. “Somos um hospital com 147 camas, mas continuamos a ser classificados como um hospital municipal. Nós somos a única entidade em Angola, de saúde, que tem uma parceria público-privada”, referiu.

Por outro lado, fez saber que têm 427 funcionários, sendo a maioria pagos pelo Estado e 50 com recursos provenientes do trabalho que realizam.

“Temos de começar a deixar de trabalhar como hospitais e começar a trabalhar como rede sanitária. Um hospital não pode fazer tudo. Pontos de referências existem, mas não são aplicados”, aconselhou.

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