Zé Pedro para sempre e corações ao alto. Tributo a “rocker” consensual chega ao cinema

Recordar Zé Pedro dos Xutos com um documentário filmado com o coração nas mãos. Diogo Varela Silva, cineasta ligado ao fado, oferece- nos Zé Pedro Rock n’ Roll, tributo a um “rocker” consensual. Estreia esta Quinta-feira nos cinemas

Um documentário muito “lá de casa” sobre Zé Pedro, guitarrista e fundador dos Xutos. Zé Pedro Rock n’ Roll é feito com a correcção de um amigo e para os amigos do músico. O truque para a coisa resultar é ter essa percepção que todos em Portugal eram “amigos” dele. O retrato de Diogo Varela Silva, um sobrinho “adoptado” do músico, estreia esta semana nos cinemas, depois de ter sido o título mais mediatizado do DocLisboa de 2019.

São 110 minutos de tributo a Zé Pedro, puro e duro. Sem medos nem preconceitos disso mesmo: homenagear o homem e o músico. Trata-se de uma série de histórias em torno de uma figura fundamental no crescimento do rock português, um homem que viveu segundo os princípios da mais cordial conduta punk: a liberdade. Da infância à sua morte, este documentário examina o segredo de um ícone que nunca acreditou ser “cota” e cujo “amor era a coisa mais importante”.

Os depoimentos de colegas e amigos estão captados com uma ordem algo televisiva, mas nada que impeça Zé Pedro Rock n’ Roll de traçar o perfil de uma espécie de santo da música, o tal “gajo porreiro”, cujo carisma apaixonava tudo e todos.

Pela proximidade com Zé Pedro, Diogo Varela Silva, cineasta que ainda tem para estreiar Alfama em Si (longa-metragem cantada em fado), consegue uma tocante intimidade com o tema, convidando o espectador a participar na tertúlia e em todo um jogo de afectos numa informalidade das palavras dos entrevistados. O realizador arranca declarações com um poder emocional genuíno. A partilha da camaradagem com Miguel Quintão, Pedro Ramos, os colegas dos Xutos ou as confissões da viúva, Cristina Avides Moreira, têm um poder dramático bem trabalhado, deixando respirar as histórias e o peso das memórias. Afinal, a evocação em torno do músico é, sobretudo, um memorial evocativo para cristalizar o luto.

Para além disso, ficamos a sentir que com Zé Pedro tudo passava por questões de amor, sobretudo a sua filiação aos Rolling Stones, sublinhada através da sua participação num festival de storytelling. Helas, este ídolo apresenta-se como um “storyteller” nato, sobretudo quando o apanhamos nas suas entrevistas mais antigas, com destaque a um mítico momento televisivo com Ana Sousa Dias, na RTP. Nesse sentido, é importante realçar que todo o modo e os modos de narração propostos são exemplarmente recordados por um feliz tratamento das imagens de arquivo, capazes de, por vezes, se confundirem como um ajuste de contas de uma melancolia pela história de uma geração que mudou a atitude da música portuguesa pós- 25 de Abril.

Zé Pedro Rock n’ Roll não é cinema documental artístico nem nada que se pareça. Apenas quer ser um objecto para matarmos as saudades do tal “gajo porreiro” e essa é a maior dignidade de um documento feito com as emoções ao alto. E comove muito…

Diário de Notícias

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