Anarritamia

Há uma doença que só dá no coração dos apaixonados: a Anarritamia. Não confundir com essa maladie do músculo cardíaco quando desgastado pela vida e pelo stresse, pelas correrias quotidianas, pela idade avançada nas primaveras, por marinheiros italianos em surtos mirtílicos, pelo colesterol descontrolado das alegrias doces e etílicas, por outros açúcares, esteres ou álcoois ou por simplesmente nervos desabridos e desassossegos a la carte.

A Anarritamia é uma patologia diferente. Escorregadia nos prontuários e arrediça dos atlas das anatomias humanas e mesmo em outras cartografias mais apócrifas e menos estudadas nas universidades clássicas de todos os continentes.

A Anarritamia não é uma doença, é uma condição. Não é um sintoma, é uma prece. Não é uma limitação, é um bálsamo. Não é um não, é um sim. Não é um eu, é um nós.

A Anarritamia vive vidas inteiras indetectada nos corações dos seres humanos com “potencial 3” para o desassossego até que, despertada por uma esquecida profecia milenar ou pela visão apocalíptica de um escritor hiper-realista ela se revela “assim”, sem mais.

Os pacientes de Anarritamia são seres sublimes e garbosos, indivíduos delicadamente concebidos por Deus como protótipos de arquétipo. Como conceitos de tese. Como lemas de lei.

Como livros sagrados e mesmo tratados constitucionais.

Os atingidos pela Anarritamia são criaturas de inabaláveis nervos de aço e graciosos pescoços de mármore, capazes de permanecer sem pestanejar, ao calor e ao frio, no deserto e na intempérie, durante séculos inteiros, em jardins de olimpos dionisíacos, nos jeux de Paume das Tulleries, nas salas de espelhos de Versailles ou, simplesmente, numa moradia na Palheira, freguesia de Assafarge a seis minutos do centro de Coimbra, na cidade universitária de Vieiras Jesuítas e Bibliotecas joaninas.

Os sintomas da Anarritamia são indisfarçáveis, mas quase indetetáveis. Vasta bibliografia, toda compilada por sábios consagrados, confirma, sobre as formas de contágio e propagação da Anarritamia, o que sempre se soube em silêncio, mas nunca se proferiu em sonoro: que só atinge uma pessoa de cada vez e que logo esse “infeliz” se encontra condenado.

Acometido de suores lentos, fúrias mansas, silhuetas de bailarinas Warhol designed e rubores shakespearianos — isto é com adoração, lágrimas férteis, gemidos que trovejam de amor, e sinais de fogo — logo o infetado se encontra perante um quadro sem solução.

O único sinal decifrável, ao alcance de poucos ouvidos, muito bem treinados, é uma gaguez singular que balbucia, separando as sílabas, a raiz do étimo: A na Ri ta.

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