Camionistas denunciam venda de testes da Covid-19 a cinco mil kwanzas

Algumas das pessoas afectas à organização da testagem de Covid-19 estão a cobrar cinco mil kwanzas para facilitar a feitura do teste, denunciaram, a OPAÍS, alguns camionistas, que se vêm, muitas vezes, tentados a aderir ao esquema, alegadamente por causa da morosidade que se regista. No entanto, o director municipal da Saúde em Luanda, Manuel Varela, disse desconhecer tais práticas e garantiu que vai criar mecanismos para descobrir os malfeitores

Enchentes, longas filas de pessoas não cumprindo as medidas de bio-segurança, era o cenário registado, ontem, na Escola Nacional de Saúde Pública, em Luanda, onde decorre o teste da Covid-19 aos camionistas que pretendem deslocar-se para outras províncias do país.

O camionista João Dala disse a OPAÍS estar há três dias na fila para fazer um teste e não consegue, mesmo saindo de Viana, por volta das 4 horas, correndo riscos de vida. No momento em que regressa à casa, sem conseguir, têm de deixar pedras e paus a sinalizar a ocupação de lugares. Um exercício feito pelos seus colegas de profissão na esperança de terem o lugar cativo para testar no dia seguinte, mas mesmo assim não dá certo, por ser muita a procura. Afirmou que, por isso, muitos chegam a pagar cinco mil kwanzas para serem testados.

“Aqui temos de ter sorte. Uns passam a noite aqui. É um cenário muito triste. Ficamos aglomerados, sem nenhum distanciamento e os trabalhadores fecham às 16 horas, alegando falta de testes. Por isso, cobram cinco mil kwanzas, aproveitando-se da situação”, denunciou.

O camionista Maurício Beja, que também faz o mesmo sacrifício há mais de três dias e não consegue fazer o teste, partilha da mesma opinião. Admite que já ouviu pessoas a falarem da cobrança de cinco mil kwanzas, mas que nunca foi vítima e se pudesse pagaria também para se livrar dessa confusão.

“Pedem documentos como se estivéssemos a viajar para fora de Angola

Em seu entender, a organização deveria ter um número exacto de atendimentos para evitar aglomerações ou criar condições para que os testes fossem feitos nos postos de controlo.

“Nesse aglomerado é mais fácil apanharmos a doença. Até para um camionista viajar estão a pedir o Alvará, quando a minha documentação não precisa desse documento”, desabafou.

Já o camionista Paulo Miranda é de opinião de que se deve criar uma área de logística, em vez de serem colocados de forma desorganizada. “Podiam pôr barreira aqui e acabar com essa harmonização, dando prioridade à área de logística e de combustível através de zonas separadas. “É uma vergonha o que se está a passar aqui. Pedem um monte de documentos como se estivéssemos a viajar para fora de Angola”, disse.

Por outro lado, considerou que seria oportuno ampliar o tempo de trabalho dos funcionários para despacharem o maior número possível, ajudando os camionistas que levam bens perecíveis.

“Ficar nesse embaraço, preferia estar na praça do Catinton. Eu vivo em Viana e ter de vir até aqui nessa confissão todos os dias e correr o risco de sair infectado é complicado”, lamentou.

Por sua vez, Daniel Mayembe aponta a descentralização, optando pela testagem dos camionistas em função das províncias para onde se deslocarão. Os que vão para o Sul deveriam ser testados nessas áreas, o mesmo podia acontecer para os que vão para o Norte.

Segundo o nosso interlocutor, mercadorias há que acabaram por se estragar pelo facto de os condutores de camiões não terem conseguido autorização para partir atempadamente. “Ontem um camião de carne acabou por estragar-se e o nosso colega só chorava”, frisou.

Oportunidade de negócio

OPAÍS constatou que a presença de camionistas no local serve de oportunidade de negócio para muitas pessoas.

Joana Cardoso, uma vendedora de rua, disse que ao aperceber-se da presença de um número elevado de pessoas que aí passam o dia e a noite, viu uma oportunidade para conseguir meios para sustentar a sua família.

Apesar do medo que sente da Covid-19, opta por correr este risco, carregando a filha de apenas nove meses ao colo, tendo em atenção que se não o fizer, os filhos e o marido, que está desempregado, passarão fome.

Director da Saúde promete investigar malfeitores

Contactado pelo OPAÍS, o director Municipal da Saúde em Luanda, Manuel Varela, disse desconhecer a denúncia sobre a venda de testes da Covid-19 a cinco mil kwanzas direccionada a facilitar a testagem de camionistas.

“Não sei de nada. Pelo menos na minha mesa não chegou nenhuma denúncia. Se alguém souber, venha até a mim para tomarmos conta desta fraude”, alertou. Manuel Varela garantiu que vai criar mecanismo para descobrir “esta provável rede de malfeitores”.

Questionado sobre a montagem de postos de testagem nas saídas e entradas da capital, Manuel Varela disse que da parte do sector que dirige estão todas a condições criadas e que esperam apenas sinal do Ministério da Saúde.

Por outro lado, disse que as grandes filas de pessoas, sem respeitar as medidas de bio-segurança facilitam a propagação do vírus. Entretanto, aconselhou os motoristas a manterem a calma e a respeitarem o distanciamento físico e social.

“Empresas podiam pagar pelos testes da Covid-19 para os camionistas terem mais dignidade”

Em entrevista a OPAÍS, o mestre em Bioquímica e Biologia Molecular Euclides Sacomboio disse que seria conveniente que se usasse as tecnologias para as pessoas marcarem os dias do exame e evitar aglomerações.

Segundo o especialista em Microbiologia Médica e Vigilância Epidemiológica, o Ministério da Saúde só precisa de criar um sistema que fixe os horários de atendimento e o número de pessoas a serem atendidas diariamente. Isso pode ser feito cadastrando as pessoas e controlar as vagas para se evitar a proliferação da doença.

“Acho que como não temos muitos testes, as empresas de camionagem poderiam pagar pelos testes da Covid- 19 e não pelos exames. O teste custa 10 dólares e como Ministério não vai ter sempre condições de comparar, dá mais dignidade aos camionistas para que eles possam fazer o teste num lugar específico ou em vários lugares distribuindo financeiramente”, aconselhou.

Disse ainda que o Instituto Nacional de Investigação em Saúde (INIS) pode repassar isso para alguns postos de saúde e alguns centros que estão na passagem desses camionistas, de modo a facilitar o processo, pagando um valor de menos de 10 mil kwanzas para o teste. Os dados deste exame seriam reencaminhados ao Ministério da Saúde para continuar a ter controlo do número de casos.

“Não é bom juntar as pessoas por ser gratuito. Primeiro, é dispendioso, porque muitos camiões estão a levar produtos frescos e, em consequência, ficam parados durante uma semana por falta de teste e alguns produtos acabam por se estragar”, alertou. Olívio Sacomboio é de opinião de que o Governo deve descentralizar todos esses serviços, para melhorar o processo, uma vez que os camionistas não vão sair de uma só vez de Luanda.

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