O país das culpas

Neste país, a incompetência não é a nossa incompetência, os maus resultados são sempre obra de uma entidade terceira, seja ela uma pessoa, um outro país, a conjuntura internacional, o vento, as flores, o que for. Por isso também as rasteiras frequentes uns aos outros, as intrigas, os golpes baixos, a sabotagem. Tudo funciona aqui, porque quem decide, seja qual for o nível, gosta disso, de culpados. E quem não faz e mesmo assim quer parecer que faz, sabe bem que menu deve servir. E sem provas, de preferência.

O povo contenta-se com meias explicações, com culpados à medida, sem sustentação. É o que basta para sacudir os ombros e dar-se por satisfeito com uma explicação que não é explicação coisa nenhuma. Ontem ouvi uma expressão, uma vez mais, no noticiário da rádio, que já tinha ouvido muitas outras vezes, mas que revela a incompetência generalizada. Até a incompetência na exigência de informação decente. Uma vez mais ouvi falar de “uma doença estranha”.

Estranho mesmo é este país que se dá por contente com este tipo de avaliação.

Doença estranha aqui significa que ninguém se deu ao trabalho de estudar determinado fenómeno, que não houve laboratório envolvido, que não se comparou, que não se foi ao histórico. Este é o país do mundo com mais “doenças estranhas” por ano.

Houvesse Estado e empresários a financiar, houvesse universidades a investigar, houvesse cientistas e técnicos a trabalhar, em vez de perderem tempo nos corredores partidários, e todos os anos Angola teria um prémio Nobel de Medicina, ou de Química, todos os das áreas científicas, só de lhes desvendar os genomas, as interacções bioquímicas, etc.. Mas não faz mal, o Comité Nobel vai lançar, um destes dias nunca, o Prémio da Doença Estranha. Aí ninguém nos aguentará. Há muitas e muitas doenças estranhas em Angola, é só ver como estamos.

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