Carlos Lamartine esclarece nunca ter reivindicado autoria do hino nacional

Os esclarecimentos deste e outros assuntos, assim como o seu percurso histórico no panorama musical angolano, foram contados na última edição do programa “Menha Ngundo” da Rádio Mais, no espaço “Filhos da Pátria”

O músico Carlos Lamartine foi o convidado, no último Sábado, 1, do programa “Menha Ndungo” emitido na Rádio Mais-Luanda, em que esclareceu nunca ter reivindicado a autoria do hino nacional “Angola Avante”, mas esteve presente na feitura do mesmo, em companhia de Manuel Rui Monteiro, Carlitos Vieira Dias e Rui Mingas.

Em duas horas de emissão, Lamartine explicou que depois de ter sido feita a letra, foi à correcção do texto para o Bureau Político do MPLA, depois de esta ter regressado para algumas alterações feitas pelo então presidente do MPLA, António Agostinho Neto.

“A letra é de Manuel Rui Monteiro, mas é preciso valorizar a participação das quatro pessoas que estiveram envolvidas para que o hino ficasse nas condições em que está hoje”, referenciou Carlos Lamartine.

O artista referiu também que no dia 11 de Novembro de 1975, sem experiência alguma, foi o “Maestro do Coro” que entoou o hino nacional, no Largo 1º de Maio, hoje Praça da Independência, em Luanda.

Kissanguela acabou por decisão do Secretariado da JMPLA

Passados mais de 40 anos desde a extinção do agrupamento Kissanguela, a pergunta que não se quis calar é: por que razão Carlos Lamartine é acusado que em diversos pontos, de ter sido o mandatário para a extinção daquele grupo da canção política adstrito ao Secretariado Nacional da JMPLA.

Sobre a acusação que sobre si recai, Carlos Lamartine esclareceu que não foi ele quem manda extinguir o Conjunto Kissanguela. Salientou que o conjunto acaba por indisciplina e arrogância de alguns dos seus integrantes. O artista esclareceu que o Secretariado Nacional da JMPLA era uma autoridade enquanto direcção da Organização Juvenil do MPLA-PT. “Não é pessoa, mas um conjunto de pessoas”, apontou.

Acrescentou ainda que a decisão foi tomada numa reunião em que as pessoas que participaram felizmente ainda estão vivas e podem também dar o seu testemunho. Carlos Lamartine fez saber que, após a reunião, foi lavrada uma acta, um documento que está arquivado na sede Nacional da Partido-MPLA,

“Fui apenas um dos porta-vozes a quem que foi dada a missão de comunicar aos camaradas, sobre a decisão”, reforçou o artista e compositor.

Filhos da Pátria

É um espaço que visa entrevistar figuras da música popular angolana, cujo contributo reflecte-se no alcance da independência nacional, numa altura em que o país vai completar 45 anos desde que tornou-se independente do jugo colonial.

Neste espaço do programa “Menha Ndungo” já passaram artistas como Santocas, Paulino Pinheiro, Tonito, Santos Júnior, Proletário e Mirol.

Trajectória

Carlos Lamartine iniciou os estudos primários na Escola da Missão de São Paulo, em 1953, passou pela Escola da Liga Nacional Africana, e ingressou no Liceu Nacional Salvador Correia, em 1956. Passou ainda pelo Colégio da Casa das Beiras (1962-1963), tendo concluído, com êxito, a secção de letras do curso geral dos liceus.

Filho de Sebastião José da Costa, jornalista, dançarino de rebita e um dos fundadores da Liga Nacional Africana, e de Ludovina da Silva. José Carlos Lamartine Salvador dos Santos Costa, nasceu em Benguela, no dia 29 de Março de 1943.

Começou a sua carreira musical em 1956, com o grupo “Kissueias do Ritmo”. Depois da extinção deste, integra e ajuda a formar os “Mulojis do ritmo”, grupo musical que teve vida efémera. Em 1970, Carlos Lamartine foi a voz principal do conjunto “Águias-Reais”.

Trabalhos

Carlos Lamartine gravou o seu primeiro single em 1970, com a etiqueta “Ngola”, um disco que inclui as canções: “Bazooka” e “Jesus dialá uá kidi”. Em 1974, surge o LP “Angola no I”, um monumento discográfico da canção política, com a etiqueta da CDA, gravado com o conjunto “Merengues”.

Depois de um longo período de silêncio discográfico, cerca de 23 anos, surgiu o seu primeiro CD, “Memórias” (1997), com a etiqueta RMS-Produções Musicais, disco que voltou a projectá-lo no quadro dos intérpretes mais prestigiados da Música Popular Angolana. Com o CD “Memórias” inicia um processo de fusão e modernização da sua música, interagindo com músicos de diversas escolas.

A canção “Kamuine” do CD “Cidrália” (2001) registou um enorme sucesso, e Carlos Lamartine granjeou grande prestígio na interpretação de temas do cancioneiro popular. Quatro anos depois do lançamento do CD “Cidrália”, surgiu o disco “Frutos do Chão, são coisas nossas” (2005), um álbum que privilegiou o género Semba.

Carlos Lamartine está incluído numa colectânea de cantores e compositores angolanos, denominada “Êxitos de hoje” (1980), editada com o selo da ENDIPU.

Hilário João

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