Jomo Fortunato sugere criação de curso de “Gestão Cultural” de nível médio ou superior

O crítico musical e promotor cultural, Jomo Fortunato, acredita que com a introdução deste curso na componente académica, será possível a criação de uma sinalética cultural, que permitirá o agendamento cultural das cidades

Jomo Fortunato fez estas declarações durante uma emissão em directo, sob a égide da plataforma “Vox Nova Angola”, na rede social Facebook, realizada Terça-feira, cujo mote era “Os lives de música e a necessidade permanente da valorização da cultura nacional”. 

Jomo mostrou-se convicto de que a cultura nacional está viva, embora tivesse também reconhecido que se perderam alguns valores, e estes foram substituídos por outros, mas o tempo não pára e com uma nova geração é preciso que os jovens avancem olhando para trás. 

A componente histórica das várias disciplinas artísticas desde a música, o teatro, o cinema, as artes, a motivação para investigação, elas estão vivas na sua óptica, mas deve-se organizar estas manifestações em diversos espaços com determinado público. 

Para tal, sugeriu a criação de uma formação em “Gestão Cultural”, por tratar-se de um domínio científico, que incorpora vários ramos do saber. “Preocupa-me não haver um curso ao nível médio ou superior de gestão cultural, que é um domínio que outros países de língua portuguesa, em África, têm muito avançado, como é o caso de Moçambique”, referiu. 

O académico defende, por isso, que apesar de muita coisa se ter perdido, embora a cultura se mantenha viva, pois ela é intrínseca ao homem. De modo que, enquanto houver sociedade haverá cultura. Pois, há vários conceitos sobre cultura e um deles aponta para a relação do homem com a natureza. 

“A práxis cultural acaba por ser intrínseca ao homem. A arrumação da cultura na cidade, os equipamentos culturais é um outro domínio. Mas aí deve haver intervenção do Estado que não pode discriminar a ninguém mediante simpatias”, apontou. 

Com a necessidade imperiosa da “Gestão Cultural” e da arrumação da cultura na cidade, será possível contabilizar os grupos ou promotores, ficando mais fácil a integração destes nos projectos económicos do país. Por isso, há necessidade de se conhecerem os números. “Temos de quantificar a cultura para que ela entre nos grandes projectos económicos e acabarem-se com as simpatias, quanto à escolha para apoio a determinados grupos. 

A cultura não pode ter uma gestão discriminatória”, rebateu. Entretanto, para que tal desiderato seja possível, é preciso que todos os intervenientes, agentes ou promotores culturais, estejam “no mesmo barco” para permitir que se discutam os mesmos problemas. Para o efeito, segundo ainda o posicionamento de Jomo, a “Gestão Cultural” deve ter base científica. 

“É preciso que haja uma sinalética que permita ao utente ter domínio sobre o que está a passar em determinados pontos da cidade, sem que necessariamente esteja presente, mas sabe que há no Cazenga, no Sambizanga etc. Há necessidade de realização de uma acção conjunta de um observatório cultural”, fundamentou. 

Ainda na sua incursão, Jomo destacou, igualmente, a necessidade de resgatar-se o património da música popular, a exemplo do que os jovens músicos Yuri da Cunha e Eddy Tussa, têm feito, mas não se pode ficar apenas pela música pois o espólio abarca outras, como a dança, o teatro, entre outras. 

Maior inclusão dos produtos culturais além da música 

Durante o debate que não contou unicamente com o académico e promotor Jomo Fortunato, nele também participaram o director nacional da Cultura e Artes do ministério da tutela, Euclides da Lomba, o director do grupo Pitabel, Adérito Rodrigues “Bi” e o actor Simão Paulino. 

Estes profissionais defendem maior inclusão dos produtos culturais a par da música. Realçaram que há toda a necessidade em discutir-se cultura e esta não pode ser vista como o “parente pobre”, pois o que Angola possui de mais genuíno é a sua cultura, pela sua diversidade. 

Adérito Rodrigues falou, por exemplo, do seu projecto “Cultura para todos”, que anualmente realiza o Circuito Internacional de Teatro, definindo-o como uma plataforma de inclusão artística e social, realizada em Luanda, mas recebe grupos das demais províncias do país. Por outro lado, referiu que está-se a cultivar a ideia de que apenas a música seja cultura, deixando para trás outras componentes que no seu todo fazem com que haja cultura no país, havendo por isso indispensabilidade em valorizar as demais. 

Diversificação da economia 

O actor Simão Paulino defendeu a tese de que a arte é um ente a ter-se em conta no quadro da diversificação da economia e não o contrário, sendo que a cultura é um parceiro que pode agregar valores grandessíssimos para o Produto Interno Bruto (PIB) do país. 

“A gratificação que a arte tem é que ela higieniza a alma. Entretém famílias, educa, forma, constrói. Uma coisa que faz tudo isso não é melhor discutida e com maior propriedade, com maior respeito que se impõe”, questionou-se o actor. 

Infuncionalidade da Lei do Mecenato 

Embora a constituição da República faça referência à Lei do Mecenato, e estando ela já criada e aprovada, o actor Simão Paulino questionou-se por que razão ela continua infuncional e onde está a dificuldade para a sua praticidade. 

Papel do Ministério 

Euclides da Lomba, face a algumas inquietações dos convidados do painel, ao tomar a palavra, fez saber que o papel do Ministério hoje da Cultura, Turismo e Ambiente não é da gestão individual de cada artista, nem ser o protagonista do desenvolvimento cultural. 

O ministério traça as políticas macros, enquanto a gestão da política cultural, estão à cargo dos gabinetes provinciais de cultura, cabendo a estes a sua execução e não o contrário. 

Questões como a funcionalidade dos direitos autorais e conexos, fundo de apoio à Cultura, dinamização e potenciação do turismo entre outros assuntos foram igualmente debatidos e podem continuar a ser visto na plataforma do Facebook na página Vox Nova Angola. 

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