CHINA-ESTADOS UNIDOS: DE UMA GUERRA FRIA A OUTRA A COMPETIÇÃO ECONÓMICA

Para alguns pensadores, no rasto de James Burnham, a Guerra Fria nunca terminou, pois quando se deu a queda do Muro de Berlim em 1989, e depois a queda do comunismo nos países da Europa Oriental e na União Soviética, a China não foi atingida.

O facto de haver uma divisão profunda, ideológica e geopolítica, entre Pequim e Moscovo, fez com que, a derrota do comunismo soviético não tivesse alterado o poder e a determinação na China dos herdeiros de Mao-Tsé-Tung que, apesar de uma política de abertura económica, não tinham abandonado, nem o monopólio do poder pelo partido Comunista Chinês, nem, segundo os seguidores de Burnham, os objectivos de domínio mundial.

Para estes, os dirigentes chineses terão tornado o sistema mais eficiente, passando do socialismo maoísta, um socialismo de miséria, para um capitalismo de direcção central, mas não abandonando os velhos objectivos leninistas de dominação mundial.

Assim, para estes analistas, o progresso económico interno e as suas consequências sociais e políticas não teriam, como acontecera na Europa Ocidental do século XIX, determinando uma transformação política liberalizante, em termos de direitos humanos, liberdade de opinião e independência dos cidadãos e das empresas em relação ao poder político. Depois dos acontecimentos de Tiananmem viu-se que não seria assim. E com a chegada ao poder de Xi Jinping, e o reforço dos seus poderes no quadro do Executivo partidário e governante, essa tendência, se alguma vez existiu, terá expirado de todo.

Não partilho, historicamente, a ideia dos discípulos de Burnham que a China de Deng Xiau Ping manteve projectos de domínio mundial; houve sim a preocupação de um nacionalismo defensivo de reparar o que era visto como as humilhações históricas e criar força económica, liberalizando a economia e a RPC nunca até hoje procurou criar partidos “chineses” ou exportar o seu modelo ideológico.
Mas tudo muda: esta “guerra” começou por ser, uma competição económica. Pequim, nos últimos quarenta anos, em que a média anual ponderada do crescimento económico chinês foi de 9,5%, merecendo do Banco Mundial ser classificada como “a mais rápida expansão sustentada de uma grande economia na História” e que permitiu à China duplicar, de oito em oito anos, o PNB e tirar 800 milhões de chineses da pobreza extrema, tornou-se a segunda economia mundial.

É claro que, à medida que a economia se desenvolveu também as taxas de crescimento foram baixando, passando de 14,7% em 2007 para 6,6% em 2018.

Sendo um poder hegemónico sem rivais, durante os anos pós Guerra Fria, os Estados Unidos começaram a sentir o desafio chinês; como, a partir de 1900, os ingleses começaram a olhar para o crescimento económico alemão, que servido por uma grande capacidade industrial ia facilitar as ambições de Guilherme II e converter a Alemanha numa potência imperial, dentro do pensamento da expansão, da Weltpolitik. Daí que Londres alterasse as suas alianças, esquecendo os tradicionais rivais – Rússia e França – e passasse a considerar a Alemanha como inimigo principal.

Também a partir de 2017 – e depois de alguma aproximação ao líder chinês – Donald Trump lançou ou aplicou uma série de tarifas sobre produtos chineses – ao que os chineses retaliaram; estas medidas cruzadas, atingiram duramente o comércio sino-americano. Trump seguia e segue uma política proteccionista, para recuperar a indústria e os empregos para a América.

Por outro lado, a China, sobretudo a partir do ano 2000, iniciou uma estratégia de penetração nos mercados externos – Europa, Américas e África. No caso africano, o fim da Guerra Fria tinha feito diminuir o interesse estratégico dos europeus por África, já que não havia URSS a conter e nos anos 90, em relação ao continente africano, o interesse de Bruxelas focou-se, especialmente, nas questões político-culturais de promoção do modelo democrático e dos Direitos Humanos, deixando cair os aspectos económicos e vitais do desenvolvimento. Tudo isto apesar de uma intensa retórica quer a partir de Bruxelas, quer bilateralmente, sobre as relações euroafricanas de cooperação.

No pós-Guerra Fria, os alemães concentraram os seus esforços na Europa de Leste, enquanto franceses e ingleses baixavam significativamente o empenho, quer militar, quer financeiro, no Continente africano, com o governo de Paris, a desvalorizar o CFA e a diminuir significativamente o número de militares estacionados na Francofonia.

Foi por estas alturas que os chineses apareceram, essencialmente procurando investir e adquirir posições nos recursos energéticos, mineiros e criar mercados para as suas empresas de construção e obras públicas. Além disso Pequim usou inteligentemente o seu apoio financeiro e o incremento de relações com os países africanos, para os levar a abandonar o reconhecimento de Taiwan. Uma operação de inteligence importante e bem sucedida já que havia, entre os países africanos, uma razoável quantidade de Estados que mantinham relações diplomáticas com Taipé. O que acabou.

Por outro lado, politicamente, os chineses aproveitaram as ausências de americanos e europeus para ganharem terreno, como sucedeu nos finais da guerra civil angolana, quando entraram em força no apoio financeiro ao país na ausência de americanos e europeus para a reconstrução angolana.

Deste modo, para além de oferecerem créditos e serviços de construção e obras públicas a preços competitivos, muitos países de África aumentaram os seus débitos com Pequim, que por seu turno procurou em troca ganhar influência político-económica.

Os Estados Unidos, sob a Administração de Trump adoptaram uma posição percebida, quer pelos aliados europeus, quer pelos países da Ásia e África, como isolacionista. Assim, enquanto os europeus recuavam e os americanos se isolavam, os chineses avançavam.
Perante estes isolacionismos americano e o “eurocentrismo” europeu, os chineses aproveitaram os “vazios”. E não só em África. A partir da Belt and Road Initiative (BRI), lançada pelo Presidente Xi Jinping em 2013, inspirada nas Estradas da Seda que, há dois mil anos, no tempo da Dinastia Han cobriram a Ásia Central. O plano da nova Silk Road divide-se em uma Silk Road terrestre e uma marítima. A terrestre, criando uma grande rede de caminhos de ferro, autoestradas, pipelines que se estenderão, a partir da fronteira chinesa para Oeste – pela Eurásia – e para Sudoeste – para a península indiana. Paralelamente a esta Estrada da Seda Terrestre, há uma Estrada da Seda Marítima que se estenderá pelo Sueste Asiático, mas também para o Oceano Índico e para as costas de África.
Mais de 60 países já aderiram ao projecto e firmaram acordos, que, entre outros objectivos apontaram para uma progressiva aquisição de posições, por exemplo na gestão de portos nas regiões abrangidas.

Este projecto tem suscitado oposição na Ásia, entre os tradicionais inimigos e rivais da China como a Índia e o Japão, que se esforçaram discretamente por refrear o entusiasmo de alguns vizinhos, lembrando-lhes a dependência política que pode vir na sequência dos financiamentos diversos para infraestruturas.

Na Europa, começou por haver reacções díspares, com países como a Itália, o Luxemburgo e Portugal a firmarem acordos preliminares com projectos BRI e outros como a França, mais cautelosos em que o Presidente Macron, chegou a dizer que os Acordos BRI poderiam criar “Estados vassalos” de Pequim.

Mas na realidade, o facto de os chineses disponibilizarem créditos significativos e fazerem aquisições, num tempo em que os norte-americanos se retraíram e os europeus se acham profundamente divididos e com graves problemas para manter a própria União, entre a contestação dos movimentos identitários e os custos humanos e económicos da pandemia, a posição de Pequim parecia forte. Até que ponto a Pandemia veio alterar e agravar esta competição?

Jaime Nogueira Pinto

Historiador e Professor Universitário

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