O DNA dos Afrodescendentes revela as suas origens em África

O grande poeta da Martinica Aimé Césaire escreveu estas linhas profundas:
J’habite une blessure sacrée (Vivo com uma ferida sagrada)
j’habite des ancêtres imaginaires (vivo com antepassados imaginários)
j’habite un vouloir obscur (vivo com um desejo obscuro)
j’habite un long silence (vivo num longo silêncio)
j’habite une soif irrémédiable (vivo com uma sede irremediável)
j’habite un voyage de mille ans (vivo numa viagem de mil anos)
j’habite une guerre de trois cent ans (vivo numa guerra de trezentos anos)

Estas poucas linhas do penetrante poema “Calendrier lagunaire”, que literalmente traduzi para o português, dizem-nos as razões que levam os Afrodescendentes a buscar as suas origens africanas. Mas a predominância da Nigéria, do Benim ou mesmo dos Camarões nos resultados dos testes de DNA sempre me surpreendeu. Sempre achei estranho que esses resultados não indiquem mais frequentemente a região onde Angola e a República Democrática do Congo (RDC) estão localizadas, uma região que foi uma importante fonte de escravos. Essa região forneceu, segundo a Slave Voyages, um banco de dados histórico que contém uma grande quantidade de informações sobre a escravatura, quase metade dos 12,5 milhões de Africanos escravizados, sem mencionar os cerca de 2 milhões de crianças, mulheres e homens que foram capturados e que morreram na odisseia para as Américas, entre os séculos XVI e XIX.

Felizmente, o novo estudo realizado pela empresa americana especializada em genómica pessoal e biotecnologia, 23andMe, publicado no dia 23 de Julho de 2020 no American Journal of Human Genetics e sobre o qual o New York Times falou no mesmo dia, conforta-me na minha dúvida. De facto, o estudo coloca a mesma questão, comparando os resultados genéticos dos Afrodescendentes com os manifestos dos navios negreiros, para ver o que corresponde e o que não corresponde à realidade. Essa abordagem tornou possível revelar, de acordo com a rota dos escravos, que a maioria dos Americanos de origem africana tem as suas raízes em territórios hoje localizados em Angola e na RDC. O estudo confirma, portanto, que havia lacunas de dados e que foi necessário ter representação de regiões críticas, como Angola e RDC, no banco de dados. Então os Angolanos devem saber, cada vez que se depararem com um Afrodescendente, que talvez estejam diante de um des-cendente de um dos seus familiares que foi capturado e amarrado na sua terra e vendido para as Américas onde foi escravizado.

O meu amigo Jimmy Jean-Louis, um actor de cinema que vive em Los Angeles e com quem tenho uma forte semelhança física, é talvez da minha família. E ele e eu já estamos acostumados que as pessoas pensem assim sobre nós. Um dia de 2015, em Punta Cana, uma província da República Dominicana, fui parado, quando embarcava num barco para ir a uma ilha local, por um grupo de Haitianos que vieram pedir-me, em crioulo, para tirar uma foto com eles porque assumiram que eu era o Jimmy. E, vendo-me calado no meio da algazarra, como eu não entendo o crioulo, começaram a gritar palavras de decepção e raiva quase insultantes, porque estavam convictos que eu era o Jimmy e que aí fingia não entender a “minha” língua “por me ter aburguesado ao me tornar famoso”.

O nosso guia, vendo-me confuso, vendo os meus olhos perdidos e sem eu saber o que fazer, perguntou-me, em inglês, se eu entendia o que estava a ser dito em crioulo e se o meu nome era Jimmy. Disse-lhe que não, e que isso acontecia comigo com frequência. Então ele teve que intervir para ex-plicar aos Haitianos nervosos que eu não era quem eles pensavam. Traduziu depois para mim o que a vozearia estava a dizer e entendi aí até que ponto eles estavam chateados. Mesmo depois de par-tirmos, ainda pude ver, do barco na água do mar, de longe, que ficaram decepcionados porque realmente não acreditavam que eu não era o Jimmy. Contei isso ao próprio Jimmy algumas horas depois e rimos muito, porque estávamos acostumados a essas cenas, seja no Festival de Cannes, em Paris, em Londres ou nas ruas de Nova Iorque. Mas a parte mais surpreendente sobre essa parecença aconteceu num desses dias em que Jimmy estava na televisão francesa e eu disse à minha mãe: “Olha mamã, estou na TV!” Para a minha grande surpresa, ela ficou parada na frente da tela durante alguns segundos, analisando cuidadosamente as imagens, e depois disse-me, depois de co-locar os dois dedos pensativos da sua mão direita no queixo: “Mas essa não é a tua voz!”.

Portanto, é importante não esquecermos essa parte de nós que foi arrancada e deportada. O nosso reencontro é inexorável, pois temos muito em comum além da história trágica e da nossa odisseia, basta assistir Black Is King, o novo filme de Beyoncé para entender. E quando essa parte voltar a comungar verdadeiramente com a Mãe África, a mãe da sua cultura e da civilização que desenvolveu lá longe, da qual poderá receber a sua verdadeira regeneração, isso tornar-nos-á, todos, mais fortes, como os Judeus em relação a Israel. Essa presença de uma parte de nós, que é também palpável e visível no Brasil e em toda a América Latina, busca agora cada vez mais a comunhão com a terra dos seus ancestrais. Ela também virá destes bairros de Guadalupe que ainda têm os nossos nomes e seguirá o som das palavras que os Jamaicanos usam na sua língua e que ecoam no meu Kikongo de Mbanza-a-Kongo. E também me pergunto como lidaremos com os milhares de outros que foram deportados para São Tomé. Porque, por exemplo, e em outro registro, quando o rei Pedro I do Kongo, sucessor de D. Afonso I, foi derrubado do trono em 1545 por seu sobrinho D. Diogo, filho de sua irmã Nzinga, Rodrigo de Santa Maria, seu irmão, exilou-se em São Tomé e nunca mais voltou. Como um bom mukongo, certamente transmitiu as suas origens e a sua história aos seus descendentes. Se houver sobreviventes, provavelmente ainda sabem disso. Que história!

Ricardo Vita é Pan-africanista, afro-optimista radicado em Paris, França. É colunista do diário Público (Portugal), cofundador do instituto République et Diversité que promove a diversidade em França e é empresário.

 

Ricardo Vita

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