CUMPRE-NOS INFORMAR… 

“Cumpre-nos informar que temos mais N casos positivos” – é assim que, quase diariamente, às 19 horas, a voz do Secretário de Estado Franco Mufinda entra para as residências de milhões de angolanos ávidos por saber as últimas informações sobre a evolução da pandemia da Covid-19. 

Imagino não ser nada cômoda essa função de ser uma espécie de “Mensageiro da Desgraça”, mas, ainda assim, alguém tem de o fazer. No mês passado, assisti a um filme de Randal Wallace, intitulado “We Were Soldiers” (Fomos Soldados), que retrata o drama da Guerra do Vietnam. Mel Gibson, encarnando o papel de Tenente-coronel Hal Moore, comanda uma tropa especial norte-americana de cerca de quatro centenas de homens cercados por dois mil soldados vietnamitas. 

Foi uma batalha sangrenta e que se transformou numa autêntica carnificina humana. Quiçá por isso, o local dessa batalha tenha sido adequadamente baptizado com o nome de “Vale da Morte”. 

As perdas humanas registadas do lado americano eram, depois, comunicadas aos familiares dos falecidos, nos Estados Unidos, por um carteiro. Cabia a este entregar a cada família uma notificação escrita sobre a triste ocorrência. 

No referido filme, o aparecimento do Carteiro era, geralmente, sinónimo de algum infortúnio. Ele próprio confessa, a dado momento, que não lhe agradava nada ter de desempenhar aquela função, mas que, por dever de ofício, tinha de fazê-lo. 

Alguém, no final da equação, tem sempre de dar a cara. Julgo ser esse, também, o drama do Secretário de Estado Mufinda. Nota-se, na sua voz algo melancólica, algum desconforto em ter, reiteradamente, de anunciar mais casos positivos ou, eventualmente até, casos de óbito. Não gostaria nada de estar na sua pele. 

A propósito, a minha Mãe, que vive em Benguela, deixou de ouvir os anúncios do Secretário de Estado Mufinda. Ela, no alto dos seus setenta e tal anos, vive estes acontecimentos de forma muito emotiva, tendo, sobretudo, em conta que a maior parte dos seus filhos residem na “cerca sanitária” em que se transformou, agora, Luanda. 

A solução por ela encontrada foi a de afastar-se da televisão, evitando, deste modo, assistir ao Ponto de Informação das 19 horas. Faz lembrar um pouco o avestruz que, na eminência de perigo, enfia a cabeça na areia deixando o corpo a descoberto na vã ilusão de que, ao não ver esse perigo, também não será visto. A atitude da minha Mãe talvez seja semelhante à de tantas outras pessoas, o que aconselha que a Covid-19 requeira, igualmente, uma abordagem psicológica não apenas das pessoas infectadas, mas também das afectadas. 

Ao longo de cerca de quatro meses de “aulas” diárias sobre a Covid-19, infectados e afectados até já memorizaram o jargão: árvore epidemiológica, árvores epidemiológicas, vínculo epidemiológico, transmissão local, transmissão comunitária, assintomático, IGM, IGG, etc. 

A abordagem a que nos referimos requererá a participação de psicólogos, evitando-se, deste modo, o cenário daquele jovem que se colocou em fuga, após ter testado positivo. É provável que esse jovem nem sequer tivesse tido uma sessão de pré-aconselhamento. 

Lembro-me de, no início da década de noventa, enquanto estudante na ex-União Soviética, termos sido, ao longo de seis anos consecutivos, submetidos, anualmente, a testes de VIH. Estes testes eram realizados no centro clínico da universidade e sempre em vésperas das provas. 

Sem o teste, não se tinha acesso às provas e ponto final. Era a medida que, naqueles tempos, as autoridades haviam encontrado para, digamos assim, colocar os estudantes “em linha.” Nunca houve, entretanto, algum aconselhamento pré-teste, o que levou a que um dos nossos colegas tivesse estado na eminência de cometer um suicídio, quando, infelizmente, foi diagnosticado seropositivo. 

Julgo, pois, ser importante o papel dos psicólogos na mobilização da resposta à Covid-19, sem qualquer desprimor pelos demais profissionais que, dia após dia, encontram-se na linha da frente na guerra contra esta pandemia. Por conseguinte, ao referir-me às pessoas afectadas pela Covid-19, alargo o espectro a toda sociedade, incluindo os próprios profissionais de saúde. 

A minha irmã e a minha cunhada são médicas e a sua exposição a esta doença, obviamente, preocupa toda a família. Aliás, alguns profissionais de saúde e não só, já tombaram honradamente na linha da frente do combate contra a Covid-19. 

Fizeram-no por nós e, por isso, curvamo-nos perante a sua memória. Noutra dimensão, a sobrecarga emocional, resultante do isolamento social provocado pela Covid-19, tem, inclusive, afectado a estrutura das relações familiares. 

Por exemplo, na China, o primeiro país a instituir o isolamento social, as autoridades relataram um inusitado aumento dos pedidos de divórcio após o levantamento da quarentena. Similar tendência vem-se registando também em alguns países, o que constitui uma indicação do impacto emocional desta pandemia nas famílias. 

Quando supostamente se julgava que a forçada “lua-de-mel”, decretada pelos governos aos casais, fosse propiciar um mar de romantismo, eis que, paradoxalmente, subiu a taxa de divórcios. A longa convivência, sob o mesmo tecto, deu lugar à conflitualidade, incluindo a violência doméstica, física ou psicológica. 

Não posso deixar de referir-me, aqui, à pergunta que me foi feita, no mês passado, pela Última, minha filha: “Papá, se o ano lectivo for anulado, será que poderei, depois, fazer dois anos num só ano?” Percebi, nesta colocação, o estado angustiante de alguém que receia perder um ano lectivo. 

Por tudo isso, “cumpre-nos informar” que, no combate à Covid-19, não se deve subestimar a importância da abordagem psicológica. Esta é, pois, também a hora dos profissionais que cuidam da nossa saúde emocional, incluindo as autoridades religiosas. Em última instância, depende de cada um de nós fazer com que o Secretário de Estado Mufinda passe a ser o “Mensageiro da Boa Nova” através do cumprimento das medidas preventivas. 

Amílcar Mário Kynta 

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