De Zungueira a Nano-Empresária!

As zungueiras geralmente agem na economia informal com uma banca improvisada ou mesmo sem ela, e actuam, em especial nas grandes cidades, como Nano Empresárias, expressão com que nos meus artigos eu prefiro denominá-las.

 Consideradas como uma variável negativa para a sociedade enumero alguns exemplos que levam a que sejam severamente criticadas:

  • Fazem mau uso do espaço público (ocupando as calçadas e perturbando a livre passagem dos peões);
  • Não pagam impostos;
  • Em alguns casos, roubam água e luz da rede pública para iluminação da sua bancada ou para a produção de alimentos caseiros.

 Todos estes exemplos levam a uma divisão de opiniões na capital, Luanda, e nas outras cidades da nossa Angola.

Há quem defenda terminar de imediato com o papel das zungueiras (Nano-empresárias) no actual quadro e há quem defenda que elas podem ser a nossa fotografia para o turista que visita a nossa Angola, para além do importante papel económico e social que desempenham.

Era bom que tivessemos um estudo sobre a opinião da nossa sociedade, por província e perceber como as podemos tornar membros de valor, social e economicamente, e não apenas apontar críticas e sugerir a anulação do seu papel.

Creio que cada província possa ter considerações diferentes sobre o papel das zungueiras na sociedade.

O resultado levar-nos-á a definir uma estratégia perfeita para aplicabilidade e a sua integração no mundo económico e social, onde o respeito e a aceitação serão a “moeda forte”, para que todo o resto do processo se desencadeie de forma equilibrada.

E aqui começaria a estratégia de marketing onde se poderia criar uma imagem de marca para elas, transformando-as num grande símbolo da nossa economia, em que a exibição matriz da força de trabalho, inteligência, resiliência estivesse contida numa só característica muito peculiar das nossas Zungueiras.

Já imaginaram aterrar no nosso aeroporto e o nosso cartão de visita serem elas? Voltando ao tema sobre a importância das zungueiras na sociedade, recordo-me que, em 2015, abordou-se a aplicabilidade existente da lei nº 7/04 de 15 de Outubro para que o papel económico da zungueira ficasse mais protegido (divulgado por um estudo da ONG Fórum Local de educação).

Concordo em absoluto com a lei. A pergunta que fica no ar: de que me adianta a lei se não sei a opinião social sobre o papel delas e nem elas (zungueiras) sabem o seu devido papel (deveres e obrigações), e acabo por não perceber qual o verdadeiro impacto que esta lei quer dar e oferecer ao país? O artigo 4 da Lei 7/04 – Protecção Social de base na alínea d) diz o seguinte:

  1. d) a garantia dos níveis mínimos de subsistência e dignidade, através de acções de assistência a pessoas e famílias em situações especialmente graves quer pela sua imprevisibilidade ou dimensão quer pela impossibilidade total de recuperação ou de participação financeira dos destinatários. Só me limito a dizer: há uma vontade gritante vinda de muitos lados querendo ajudar estas mulheres, e será que é desta que se vai conseguir ver algo na prática? Após o último anúncio da passagem da economia informal para a formal? Elas precisam daqueles que sabem, não na teoria mas fundamentalmente na prática.

 Informem, formem e instruam estas mulheres, repitam muitas vezes, a prática cria hábitos e os hábitos regem-se por regras/ normas. Façam-nas sentir que são o nosso grande contributo. Toda a formação que estas Nano Empresárias (os) pudessem usufruir, deveria ser encaradas por elas como mais-valias para as suas vidas, não apenas a questão de cidadania que ganhariam, não.

 Há um valor maior por detrás de todo o esforço que fazem: chegar a casa e ser exemplo para a sua vizinha que tem a mesma prática de comércio. Ela chega a casa com uma formação, instruída (vantagens e desvantagem em se manter nas ruas como comerciante) e por fim certificada e credenciada (autorizada a exercer o seu negócio).

Propunha que cada autorização (credencial) deva estar organizada por escalões, de acordo com o tipo de comércio que faz.

#trabalhe com protecção
*Economista

Kénia Camotim

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