INDÍGENAS SOMOS TODOS NÓS

À pressa, num dia de cacimbo e no meio da pressão imposta pela Covid 19, em Luanda, impõe-se-me exprimir sobre o “Dia Internacional dos Povos Indígenas”. Não o faço com prazer porque não gosto do conceito “indígena”.

Incomoda-me; não cabe na minha boca exprimi-lo, na referência a mim mesma, nem aos meus; na referência à minha gente de África e de Angola, em particular, seja lá qual for a sua pertença étnica. Afinal, tratase de um conceito carregado de subtilezas da colonização, de repressão, de condenação, de mutilação; de preconceito; de dor; de sofrimento; de exclusão. É isso mesmo! Ser indígena, ao longo de centenas de anos, em África, significou ser diferente, inferior, desprezível.

O indígena foi sempre o “outro, coisificado”. Aquele que, não sabendo falar a língua do colonizador, era tido como falante da “língua de cão”! Em Angola até se criou um estatuto do indigenato! O indígena é o africano, é o índio e quem mais? Mais aqueles, apenas aqueles a quem foi usurpado o direito de viver como dono da sua própria terra; de falar a sua própria língua; aqueles a quem lhes foi roubado o direito de beneficiar dos recursos naturais da sua terra, enfim, o direito de desfrutar dos direitos de ser alguém.

O “Dia Internacional dos Povos Indígenas” é uma data instituída pelas Nações Unidas. Ainda que, por razões, aparentemente, nobres, como para despertar a importância da preservação do património Histórico-cultural e linguístico dos povos ditos “indígenas”, talvez isso faça sentido para os “outros”; para os ocidentais cujo olhar enviesado teima em categorizar os não europeus de “indígenas”.

A data, foi foi estabelecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) , 1995. Segundo dados da ONU, a população indígena no mundo está estimada em cerca de 370 milhões de pessoas, o que representa 5% da população mundial, mas encontram-se entre os 15% mais pobres.

Esses povos compõem cerca de um terço da população mais pobre do mundo e são expostos a uma série de problemas, que abrangem doenças, discriminação, perseguição, baixa expectativa de vida, ameaças territoriais e poucas garantias de verem cumpridos os seus direitos humanos.

 A menos que os indígenas sejamos todos nós; todos nós, do lugar de onde vimos e foi “enterrado o nosso umbigo”; todos nós os habitantes da terra porque, aqui, nascemos todos! Somos todos indígenas desta terra!

Rosa Melo

Antropóloga; Directora Nacional das Comunidades e Instituições do Poder Tradicional

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