Em terra de monstros (alguns deles racistas) Lovecraft é rei

Com Jordan Peele e J.J. Abrams entre os produtores executivos, Lovecraft Country, nova série a estreiar na HBO, vai aos confins da história do racismo americano por entre notas de aventura, terror e fantástico. Não necessariamente por esta ordem

E se um livro de H. P. Lovecraft tivesse como protagonistas personagens negras? Mais coisa menos coisa, é esta a premissa da série Lovecraft Country, prestes a chegar à HBO Portugal (dia 17). Uma ideia bastante provocadora se tivermos em conta que o autor norte-americano que nos anos 1920 sofisticou a literatura de terror com elementos fantásticos era um racista com o seu quê de fanatismo, tendo mesmo escancarado na escrita, publicada e privada, indícios dessa atitude extrema, até para a época – veja-se a violência na base de um poema de 1912, com o título On the Creation of Niggers, que surge citado num dos episódios iniciais.

Baseada no romance homónimo de Matt Ruff, esta criação de Misha Green, que conta com Jordan Peele e J.J. Abrams como produtores executivos, concentra as linhas de um conflito interior muito dos nossos dias – separar a arte do artista – na personagem que aparece primeiro em acção, Atticus Freeman; nome curioso, que evoca o advogado de Mataram a Cotovia e a determinação do homem livre.

A saber, Atticus (interpretado por Jonathan Majors, que vimos em Da 5 Bloods de Spike Lee) é um jovem soldado afro-americano que regressa a casa, em Chicago, vindo da Coreia, e o seu fascínio pelos livros de pulp fiction leva-o a viver intensamente as aventuras de heróis como aqueles concebidos por Lovecraft, mesmo reconhecendo as “falhas” desse escritor que tanto admira. Por isso, a piscadela de olho para o universo que se vai desenvolver acontece logo na sequência de abertura, com imagens de um sonho de grande escala onde cabem naves espaciais e polvos voadores, entre outros objectos de uma imaginação fervilhante. Mas, no plano da realidade, Atticus não está sozinho.

Na sequência do desaparecimento do pai, ele parte à sua procura com a ajuda do tio (Courtney B. Vance), editor de uma linha de guias para viajantes afro-americanos – espécie de Green Book -, e de uma amiga de infância, Leti (Jurnee Smollett), fazendo-se à estrada em direcção a um lugar que não figura em nenhum mapa. As únicas pistas disponíveis são as associações à obra de H.P. Lovecraft… Ora o mínimo que se pode dizer é que do outro lado há monstros nocturnos, um castelo misterioso, uma sociedade secreta e feitiçaria ao serviço de jogos de terror; estes claramente com um toque de Jordan Peele, em versão espectacular. Lovecraft Country põe o sangue a correr nas veias dos seus 10 episódios logo a partir deste pequeno road movie que lança as personagens no alinhamento de uma antologia de histórias com vida própria, e até registos diferentes. Porque não é só de bestas fantásticas que falamos.

Nessa América das leis de Jim Crow, na década de 1950, a maior ameaça para os negros são os homens brancos, sobretudo os fardados e armados. E é pela metamorfose do conceito de cada episódio – há, por exemplo, um à volta de uma casa assombrada e outro no espírito de um Indiana Jones “à noite no museu” – que a série vai desenhando um olhar sobre a anatomia do racismo sistémico no contexto americano. Aqui, o terror nunca é sombrio por inteiro, o drama encontra o ponto suave na altura certa e a acção, bem oleada, comenta séculos de “questão” racial. O que temos no fim de contas? Escapismo com cabeça e um elenco que arregaça as mangas perante o medo, sem deixar fugir o lustre dos momentos que interessam. Por outras palavras: temos o universo de Lovecraft dominado pela garra das personagens negras.

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