Beyoncé a reimaginação da realeza africana numa América dividida

Em Black Is King, o novo álbum visual da cantora norte-americana, a pele negra e a sua história é sinónimo de excelência, perfeição e conciliação

“Abençoai o corpo, nascido celestial, belo em matéria escura. Negro é a cor da pele do meu verdadeiro amor.” As primeiras palavras narradas pela voz de Beyoncé no novo álbum visual Black Is King, enquanto se vê a artista vestida de branco olhando com adoração para um bebé que embala nos braços, definem o tom de todo este trabalho.

O filme, lançado no canal de streaming Disney+ no último dia de Julho, é mais do que uma homenagem aos seus antepassados e um elogio da pele negra. Baseado na história de O Rei Leão, é um manifesto que procura destruir as imagens preconcebidas que aferrolharam a identidade negra durante séculos. É um pronunciamento político que procura atravessar fronteiras.

“Black Is King é sobre esta ideia de as pessoas negras olharem para si mesmas como iguais, e poderem ver-se a si próprias não da forma como têm sido pintadas pelas lentes da supremacia branca ou pelas culturas eurocêntricas”, disse ao DN Lakeyta M. Bonnet te-Bailey, professora associada do departamento de estudos afro-americanos da Universidade da Geórgia. “Gosto do facto de ela o ter baseado em O Rei Leão, mas é toda esta história de estarmos perdidos e virmos reencontrar-nos, vermo-nos e sabermos que, no fundo, somos iguais, somos dignos”, explicou.

O filme tem 85 minutos e segue o formato de álbum visual que Beyoncé começou em 2013, mas é a produção mais ambiciosa que a artista já concretizou e as críticas fenomenais reconhecem-no.

O trabalho reimagina a história de O Rei Leão, em que Simba, um jovem rei africano, simboliza o percurso da pessoa negra, em especial dos afro-americanos.

É pontuado por visuais muito fortes, cheios de referências às tradições africanas e embebido de motivos cristãos e católicos, algo que não é novo em Beyoncé. Black Is King pega nas músicas do álbum The Lion King: The Gift, a banda sonora concebida por Beyoncé para o remake que a Disney lançou em 2019, e representa-as visualmente entre curtas-metragens que seguem o percurso de Simba – e de toda a diáspora africana.

“Black Is King é poderoso porque está a dizer aos negros em todo o mundo que saibam que têm uma história poderosa, que vêm da excelência”, afirmou Lakeyta Bonnette-Bailey.

A jornada de Simba é usada para simbolizar “a história dos negros por toda a diáspora, o serem desconectados da sua verdadeira linhagem e da sua identidade e depois voltarem para a encontrar”, descreveu.

Beyoncé, que deu voz a Nala na versão 3D do clássico de animação, integrou vários momentos de O Rei Leão no filme. Isto inclui a questão do mandril Rafiki para que Simba se lembre de quem é e reclame o seu trono.

“É esta ideia de autorreflexão, de descobrir quem somos realmente, não com base na forma como os outros nos definem mas naquilo que temos dentro de nós”, sublinha a professora universitária, que estuda a relação entre a música e o activismo na comunidade negra.

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