Ensino: anular em 2020 e agir a favor de 2021

As previsões para a normalização do quotidiano dos indivíduos em todo o mundo têm se mostrado progressivamente incertas. Apesar das dúvidas, preveem-se nos próximos meses em Angola e em vários países do mundo a ocorrência de novas contaminações massivas pela COVID.

Na Europa, alguns estados que haviam desactivado os hospitais de campanha para tratamento da COVID estão a reactiva-los. A tão concorrida e esperada vacina com efeitos de humanização que poderia no curto prazo provocar uma rápida alteração neste cenário mundial de incertezas, presente desde Março, ainda que alcance resultados positivos nos testes da 3ª fase nos próximos 30 dias, tempo, certamente, não haverá para a recuperação do ano lectivo 2020 em Angola, se considerarmos a carga horária por disciplinas e classes, a quantidade de conteúdos a serem ministrados, bem como os meses restantes para o término do presente ano!

Podemos concordar, que um dos piores factos que podem ser vivenciados na pós-modernidade, mas não só, por qualquer indivíduo, qualquer sociedade apesar da multiplicidade de meios e formas de obtenção e divulgação de informação, é o de não possuir notícias a respeito de dado fenómeno e ou acontecimento, principalmente, quando este afecta directamente a vida do indivíduo bem como o modo de constituição e organização da sociedade, que além de outras, tende a dificultar a melhor gestão da grande maioria dos fenómenos e ou acontecimentos bem como facilitar a ocorrência de boatos. Yuval Harari, importante pesquisador dos nossos tempos tem realçado frequentemente em suas comunicações, informação é clareza.

Cambridge, uma das mais prestigiadas universidades do mundo informou que não ministrará aulas presenciais até ao ano 2021. Em Portugal, o ano lectivo 2020/21 poderá ter início no modelo de aulas combinadas (presenciais e virtuais) em simultâneo, sendo as presenciais separadas e mediante calendarização específica por grupo de estudantes. Em algumas cidades e ou regiões da República Federal do Brasil, também já está decidido, aulas só em 2021, e possivelmente, não presenciais!

E em Angola, o que está/será decidido? Até ao momento não se tem notícia conclusiva sobre a situação do ensino no país, que ao nível do subsistema geral em 2020 funcionou presencialmente em apenas cerca de dois meses, e ao nível do subsistema do ensino superior, pouco menos de um mês. Além da autorização do Órgão de Tutela para a realização de Trabalhos de Fim de Curso ao nível do ensino superior, por exemplo, e o recém anúncio, também do Órgão de Tutela do regresso do pessoal docente e não docente do ensino geral público aos estabelecimentos escolares para trabalhos de organização administrativa e de procedimentos de ensino, não se tem notícia oficial conclusiva em relação ao regresso, anulação ou outra medida, referente ao ano lectivo 2020.

Determinados especialistas nacionais de várias áreas sugerem considerar o inicio/reinicio do ano lectivo 2020 para Setembro do mesmo ano, e desta forma, inserir Angola no calendário de ensino da região do continente em que está inserido, bem como no da grande maioria de países do ocidente: esta certamente daria outra abordagem, mas não por agora!

Em meio a este cenário de incertezas e de desafios em várias áreas, consideramos, entretanto, haver já, algumas certezas ao nível do sector do ensino: a) os estudantes permanecem sem aulas presenciais e ou virtuais há algum tempo; b) o país, na actualidade, não possui em abundância capacidades e condições técnicas, tecnológicas, humanas e de procedimentos para a operacionalização do ensino a distância e ou presencial; c) os docentes do ensino privado (geral e universitário) estão sem salários a cerca de 5/6 meses; d) muitos sonhos de transição de ano e finalização de cursos foram e serão adiados; e) estudantes e professores aprenderam e apreenderam menos ao longo do ano; f) nas instituições de ensino privadas os constrangimentos financeiros são progressivamente maiores; g) haverá uma redução de quadros formados nos próximos anos; h) embora até a data deste não esteja decidido e tornado público, em termos de aulas, o ano lectivo 2020, em todos os subsistemas de ensino, pode ser dado como perdido!

Por estas e outras, sugerimos no curto prazo, o anúncio da anulação do ano lectivo 2020 em Angola. Ao adoptar este posicionamento, o país, como se sabe, não será o único em todo o mundo a viver esta realidade ainda que fosse, pois, o cenário de ensino a distância/virtual além de bastante complexo, tem se mostrado até ao momento como de reduzida empatia: diria alguém “pouco civilizado”.

Em Portugal, por exemplo, considerado um estado do primeiro mundo, em consequência da instauração dos períodos de emergência e calamidade públicas (Março – Maio), a alteração do formato e procedimentos do modelo de ensino e aprendizagem que vigorava as aulas virtuais não aconteceram de forma imediata, pois, não estavam criadas e definidas a priori, quer as condições e procedimentos como as capacidades técnicas em todos os estabelecimentos de ensino: muitos estudantes não possuíam computador pessoal, muitos docentes e discentes não possuíam aptidões para o manuseamento de tecnologias virtuais, mas não só, estando neste momento, meses antes do início do ano lectivo 2020/21, dedicados, também, ao aprimoramento das condições, procedimentos e competências para o ensino virtual sem redução do rigor e qualidade, alcançados.

Assim, e trata-se uma opinião pessoal, mas que resulta da observação contínua da realidade nacional e alguma internacional considero necessário como já exteriorizado, infelizmente, tomar-se uma posição pública em relação ao ensino em Angola, sendo no momento, o anúncio imediato da anulação do ano lectivo 2020 a posição mais sensata, e desta forma se possam promover nestes cerca de cinco meses até ao término do ano de 2020, um conjunto de acções, medidas, estratégias, mobilização de capacidades, recursos técnicos e tecnológicos, procedimentos, enfim, capazes de fomentar as condições necessárias para o arranque do ano lectivo 2021 sem grandes constrangimentos, seja de forma virtual, presencial e ou em simultâneo: este posicionamento poderá contribuir significativamente para a diminuição de incertezas bem como a redução da pressão negativa em docentes e discentes geradas pela paralisação brusca do ano lectivo 2020, além de oferecer aos gestores do sector e de instituições de ensino, mas não apenas, tempo e oportunidade para a devida adaptação à realidade do país.

Aliás, pode ser esta uma excelente oportunidade para a correcção de lacunas, erros e vícios do sector.

Lembra-nos António Gramsci na obra Odeio os Indiferentes, “viver significa tomar partido. Para este autor, a indiferença é parasitismo, covardia, não é vida, por isso, odeia os indiferentes”.

Nesta senda, a questão do financiamento ao sector do ensino, quer público como privado, carece de adequada voz e vez, não apenas para a melhor organização, gestão e funcionamento das instituições de ensino nos vários subsistemas, mas também para o trabalho dos discentes e docentes, mediante a adopção de um estratégia/ modelo de financiamento de responsabilidade e ou intermediado pelo estado, apropriado às necessidades, carências, expectativas e desafios dos principais intervenientes deste importante sector da economia e da sociedade.

João Demba

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