Especialista defende diferenciação de mortes por e de Covid-19

O especialista em microbiologia médica e em vigilância epidemiológica, Euclides Sacomboio, defende que o conceito que se tem observado para tratar “mortes por Covid e de Covid” devem ser abandonados, porque causam muitos problemas, em termos de interpretação e está a minimizar a gravidade da doença

Em entrevista a OPAÍS, Euclides Sacomboio advoga a necessidade de a Comissão Multissectorial diferenciar os dados dos pacientes de Covid-19 que morreram em consequência desta doença daqueles que morreram de outras, consideradas, mas que também estavam internados por causa desta pandemia.

“Há paciente que morreu por hipertensão, mas também tinha Covid. Só que ele, não pode entrar na estatística de Covid tem de entrar na estatística de hipertensão. A partir do momento que ele entra na estatística de Covid, ele morreu por Covid. Então há uma necessidade desses termos serem adequados”, detalhou o professor doutor em Ciências da Saúde, mestre em Química e Biologia Molecular.

No seu entender, a terminologia “morreu com Covid ou morreu de Covid” devia ser abandonada. Explicou que uma pessoa que vive com hipertensão há 10 e até 20 anos, vive com hipertensão. Às vezes vive com tuberculose que mesmo a fazer o tratamento já não curarase , mas continuam a viver com isso. Outras com HIV, anemia falciforme.

“Essa pessoa se morrer após adquirir Covid, não pode dizer que morreu com Covid. Ele morreu por Covid. A Covid foi a patologia que levou à morte do paciente, porque ele conseguia viver com a doença anterior, mas com a associação à Covid, não conseguiu”, explicou.

O especialista em vigilância epidemiológica disse que, estatisticamente falando, quando se diz morreram X pessoas de Covid, significa que estas pessoas morreram por Covid independentemente de terem ou não outra patologia.

“É um termo que eu acho que podia ser reanalisado. Precisamos acabar com esse termo, porque está a causar muitos problemas em termos de interpretação e também está a retirar a gravidade da doença. As pessoas não pensam que a Covid seja grave, pensam que só é grave se for hipertenso, diabético”, disse.

Tendo em conta que têm ocorrido mortes de pessoas de diferentes idades, estratos e condições sociais, bem como diferentes condições epidemiológicas, o especialista considera ser fundamental diferenciar.

“Há uma necessidade, principalmente a partir da Comissão Multissectorial e do próprio Ministério da Saúde, de tentarem encontrar uma forma de excluir esses termos `morte com e morte de´. Todas as mortes que foram anunciadas por Covid são porque os pacientes morreram por Covid independentemente da condição anterior”, explicou.

Para sustentar a sua tese, explicou que há pessoas que fazem hemodiálise há 15 anos e conseguem viver com a insuficiência renal. “Agora se apanhou Covid, ontem, e depois de amanhã morrer, não podemos dizer que morreu por insuficiência renal. Estamos a tirar a responsabilidade das mortes pela doença”, afirmou.

“É preciso que as pessoas estejam esclarecidas”

O professor doutor (PhD) em Ciências da Saúde Euclides Sacomboio adverte que como o país está numa situação de pandemia “é preciso que as pessoas estejam esclarecidas”, ou seja, que tenham uma ideia do que está a acontecer.

No seu ponto de vista, alguns dos termos que têm sido utilizados, além de confundir tiram também credibilidade de quem apresenta essas informações. O mestre em Química e Biolocogia Molecular disse que a partir do momento em que a ministra da Saúde, Sílvia Lutukuta, diz que os pacientes morreram “com Covid mas não de Covid”, a população se pergunta se as pessoas podem morrer por Covid. E aí causa um problema de ideologia.

“As pessoas começam a pensar que a Covid não mata, o que matou é a hipertensão. Razão pela qual, muita gente vinha a defender o regresso da normalidade já que, as pessoas não estão a morrer por Covid, mas por causa desses aspectos”, aconselhou.

Para fundamentar, disse que existem condições que se pode dizer que a morte foi por uma doença ou com outra doença. E quando se diz morte por outra doença, tem de se dizer a causa da mesma.

“Nós temos diferentes níveis de literacia na população”

Euclides Sacomboio é de opinião que todos esses aspectos precisam ser cuidadosamente clarificados à população, uma vez que a mesma é constituída por diferentes níveis de literacia.

Segundo o especialista, há casos, por exemplo, em que, um paciente tem HIV mas morre porque apanhou um tuberculose. Então dizem que o paciente morreu por tuberculose com HIV. “Neste caso, não foi o HIV que o matou porque como doença não mata um doente, o que mata são as doenças oportunistas”, frisou.

Disse que no caso da Covid é diferente por se estar a falar de pessoas que vivem com uma doença e há anos conseguem lidar com a mesma, mas, em contra partida, por algum motivo são infectadas e não conseguem suportar a Covid associada a essa doença acabando por morrer.

“Então a partir do momento que se trás essa informação que X pessoas morreram por Covid, não podemos mais dizer se eles “morreram com ou de”. Eles morreram por Covid e por isso estão na estatística de Covid. Se não estivessem, não seriam anunciados”, disse.

No entanto, aconselhou o não uso do termo “ mortes com ou de Covid” por ser um termo que tira o prestígio da Comissão Multissectorial e de quem apresenta as informações e causa muitas dúvidas às pessoas.

“Isso é muito mau em termos de comunicação, principalmente em situações de pandemia como a que estamos a viver em Angola”, advertiu.

“Tenho certeza que vamos entrar em colapso em termos de atendimento”

O especialista em Microbiologia Médica e Especialista em Vigilância Epidemiológica, Euclides Sacomboio, alerta que pela forma como o processo está a ser conduzido, tem certeza que o atendimento de doentes por Covid-19 entrará em colapso.

“Eu tenho certeza que vamos entrar em colapso em termos de atendimento. Brevemente, é possível que já não se atenda mais os pacientes de Covid nas instituições. Sejam atendidos em casa. Tem que se encontrar esse caminho e acho que é já hora do Ministério ir se preparando para isto”, aconselhou. Por outro lado, sugere que o Ministério da Saúde crie equipas que vão poder atender esses pacientes de Covid-19 a nível domiciliar para se evitar outros problemas.

“Não temos um limite para atingir o pico”

Recordando a forma como se geriu inicialmente os processos, principalmente de contenção da doença quando se estabeleceu as cercas sanitárias e os estados de emergência, Euclides Sacomboio entende que se alterou o modo de combate e prevenção muito cedo e se deu oportunidade ao vírus de circular.

Em seu entender, é isto que fez com que o vírus atingisse os limiares que se está abranger em Angola. “Em minha opinião, não temos um limite para atingir o pico porque quanto mais temos casos mais estamos a abrir as coisas.

Daqui a pouco vão abrir os estados de futebol, os shows. Eu não sei como vai ser o processo de circulação do vírus na população”, disse.

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