Uma técnica pastoral para cada espécie

É lógico que um pastor que se preze, ou que queira dignificar a sua profissão, deve, no exercício das suas funções, saber bem a técnica e/ ou estratégia para alimentar e domar, e até matar, cada espécie, objeto do seu trabalho. 

A Lucidez do pastor, se a tiver, o levará à práticas diferenciadas de condução, por exemplo, do gado nutrido e, talvez com mais cuidado, do faminto e sequioso. Até porque pastor com “P” grande, de certo, não dará a mesma erva ao boi e ao carneiro, ao suíno e ao caprino, à prenha e à que está no cio.

Impõe-se que saiba com que alimentos melhor se nutre até ao porco; sim, porque o porco tudo come. Mas porque nem tudo lhe convém, chama-se aí a idoneidade do profissional; É PRECISO SABER NUTRIR A CRIAÇÃO garantindo carne de boa qualidade, carne doutros níveis. 

Mesmo na hora da morte, não do pastor mas do bichinho, a técnica de abate não será a mesma ainda em se tratando de uma mesma espécie. A circunstância ditará o ritual e o ritual, a regra de abate. Sabe-se que não se degola um boi para um óbito como se abate o seu semelhante para a cerimónia de investidura do soba. 

É néscio o pastor que julga que qualquer teta de vaca, vigorosamente espremida, dar-lhe- á leite fresco, ou melhor, morno. Um pastor vigilante sabe bem de quais tetas puxar o leite e de quais machos tirar testículos. 

Um pastor tem de munir-se de maturidade para, em tempo oportuno, saber chamar a mais douta intervenção do veterinário que, mais hábil, o ajudará a restaurar a saúde, tanto da vaca louco quanto da ovelhinha “sonsinha”, cada uma das quais com o seu grau de importância, nem que seja só para o aproveitamento da pele que, um dia exposta, vira obra d’arte. 

Até o burro do pastor será mais feliz, de certeza, pela mansidão do dono que lhe valoriza e acaricia, do que com a arrogância do seu dono, tão burro quanto ele, se pensar que burros não sabem distinguir entre o carinho e a altivez. Mas é ponto assente que um pastor de verdade sabe trabalhar à chuva e ao sol; melhor do que isso, sabe antecipar-se de ambos os cenários, para a conveniente protecção de cada espécie e pela sua própria segurança. 

Um pastor higiénico sabe com que instrumentos higienizar cada espécie, e a periodicidade para tal. Domina que, na ânsia de livrar a cria das pulgas, banhos diários matam na mesma. Logo, ninguém lhe precisa exortar que, ao banhar quadrupedes, por exemplo, não lhes deve esfregar da mesma forma pois a escova para a égua não serve para todas as fêmeas de quatro patas. O número de pernas não será critério de avaliação. 

Mais pernicioso talvez seja que entre os pastores não se saiba diferenciar a humanidade e a pecuária. Afinal, ao dar às mulheres o mesmo tratamento, e nutrição, que às vacas se recomenda, o pastor arrisca-se, estupidamente, a levar um coice da mulher ou um “dibabelo” da vaca, caso elas saibam dar “dibabelos”. 

É da responsabilidade do pastor saber, e implementar, a técnica recomendável para o “pastoreio” de cada espécie animal e é da responsabilidade dos animais identificar qual o pastor que melhor lhes trata. Isso, quando tiverem opções de análise. 

De qualquer forma, tudo que acima exponho é do conhecimento do gado santo de Deus que habita este território que se chama Angola. Por isso, muitas espécies dispensam os pastores e, ao seu estilo, se governam entre si, fazendo jus ao ditado “ANTES SÓ DO QUE MAL PASTOREADO” 

Manuel Cabral

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