A honestidade da mulher de César…

Ponto prévio: Não tenho qualquer ligação, nem próxima, nem remota, com dirigentes do andebol nacional. Logo, a opinião que emito neste espaço não resulta de emprenhar pelos ouvidos…

Nos dias de hoje as redes sociais são locais de passagem obrigatória para quem pretende ouvir ou ler um pouco mais do que a media tradicional oferece. Por isso, como muito boa gente, por lá passo para ouvir a vox populi e tirar as minhas ilações relativamente aos temas de actualidade em debate.

No último fim-de-semana, um tópico em particular chamou-me a atenção. É a indicação da Comissão Eleitoral para a renovação de mandatos na Federação Angolana de Andebol (FAAND), a mais titulada modalidade do desporto nacional além-fronteiras.

O tema apaixonou os internautas. Argumentos e contra-argumentos foram esgrimidos nas distintas redes sociais, principalmente sábado e domingo passados, após a indicação da Comissão Eleitoral, liderada por José Cardoso, uma figura conhecida do desporto nacional, mormente do andebol, de cuja federação é presidente honorário ou algo semelhante, se a memória não me atraiçoa.

Como era de esperar, uns eram pela indicação dessa personalidade na Comissão Eleitoral e outros, obviamente, não. De modos diferentes, todos aduziram as suas razões para estar no “contra” ou a “favor”.

Este é um exercício normalíssimo em democracia, onde ideias diferentes existem sempre, ao contrário dos unanimismos, geralmente envernizados de falsidade. Os do “sim”, em regra, evocaram a experiência de José Cardoso em pleitos eleitorais anteriores e a sua estatura enquanto dirigente desportivo.

Os do “não” disseram que o homem já leva tempo demais à frente dos processos eleitorais da Federação, além das ligações afectivas que tem na “família do andebol”.

De acordo com uma rápida pesquisa que fiz, José Cardoso presidiu a Comissão Eleitoral dos pleitos na FAAND em 2008 e 2012 e em 2016 presidiu a do basquetebol. Portanto, tendo sido indicado para uma vez mais desempenhar tal função, José Cardoso vai a jogo pela terceira vez.

Nas redes sociais o berreiro de parte a parte a respeito do assunto é ensurdecedor, acompanhado de insultos pelo meio, como sucede vezes sem conta nesses casos.

Por enquanto, o debate regista “empate técnico”, com tendência para os do “contra” levarem vantagem. E seguramente, até que se realizem as eleições, em finais de Outubro, e mesmo depois disso, o tema continuará a ser debatido, com maior ou menor intensidade.

Não despertasse o desporto as mais arrebatadoras paixões. Não estive na Assembleia-Geral que indicou o nome de José Cardoso para presidir a Comissão Eleitoral das eleições na FAAND.

Desconheço, por isso, as razões que levaram a Mesa a optar pelo nome do dirigente do 1.º de Agosto, clube que também vota no referido pleito. Entendo, porém, que, independentemente da honestidade do homem isto não vem ao caso agora, ele podia ser resguardado, quanto mais não fosse pelo facto de ter o tal título honorífico da FAAND e ter exercido já em duas ocasiões anteriores semelhante cargo.

Um dos traços característicos da democracia é a alternância. Logo, seria avisado encontrar no amplo universo desportivo angolano uma figura que não tivesse dirigido tantos pleitos e, mais do que isso, que não estivesse “atrelado” a uma parte interessada nas eleições, concretamente o 1.º de Agosto.

Desse modo, a gente com pulga atrás da orelha seria seguramente em número mais reduzido e, provavelmente, as discussões nas redes sociais não iriam beirar o ataque pessoal.

Ao agir, todavia, de forma contrária, a Mesa da Assembleia-Geral da FAAND deu azo a inúmeras interpretações, algumas da quais tétricas e que até podem ser injustas para José Cardoso.

Este, dirigente experimentado, podia ter recusado um terceiro “mandato” e mal nenhum aconteceria ao Mundo por isso. Chamo aqui o exemplo da Comissão Nacional das Eleitoral (CNE), que é paradigmático.

De 2008, ano em que José Cardoso cumpriu o primeiro “mandato” na Comissão eleitoral da federação, a 2020 aconteceram três eleições legislativas no país.

Nesse lapso de tempo, a CNE teve três presidentes diferentes, designadamente Caetano de Sousa, André Silva Neto e Manuel Pereira da Silva, este em funções.

A honestidade de José Cardoso não está em causa, repito. Até prova em contrário não está em jogo igualmente a integridade do presidente da Mesa da Assembleia- Geral da FAAND.

Mas, convenhamos, nada custava agir de modo a evitar celeuma. Como diz a sabedoria popular, “à mulher de César não basta apenas ser honesta, deve também parecer honesta”. Isto para evitar qualquer tipo de suspeições, como acontece agora. E isso era perfeitamente evitável.

José dos Santos

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