As pazes de Kapunga e Kanawa

A ser verdade que os dois fizeram as pazes, estará aí um indicador de que os camaradas afinal, quando está em causa um bemmaior, conseguem estar unidos.

Há dias um jornalista amigo, daqueles que nos habituamos a chamar Mais Velho, por causa do tempo que exerce a profissão, dizia que as coisas no MPLA e a atitude dos seus integrantes são quase previsíveis.

Até 1991, altura em que se conseguiu o primeiro acordo de paz, o partido esteve centrado num único inimigo comum: Jonas Malheiro Savimbi e a UNITA que ele fundou. O número elevado de forças políticas que emergiram na época – e até a FNLA – que se estabeleceu no país, não provocavam o mínimo arranhão.

De 1992 para frente, sem o espectro da guerra, dois inimigos se evidenciavam: a UNITA e as eleições. Essa situação aproximava os camaradas, porque a manutenção do poder era imperiosa.

Recrudescendo a guerra, por causa da rejeição dos resultados eleitorais, a UNITA (com Savimbi) e a guerra voltaram a ser dois factores de união dos camaradas. Pelo menos até 2002, altura em que o líder fundador dos maninhos sai de cena, deixando um partido que precisava de reencontrar as várias franjas que a formavam: Missão Externa, os militares e o Comité Renovador da UNITA.

O fim da guerra e a morte de Savimbi levou consigo, igualmente, um dos dois motivos que originava a junção, restando hoje um único motivo: as eleições. Por mais profundas que forem as feridas, sem descurar algumas ‘ovelhas negras’ que se possam bandear para outros lados, a proximidade de eleições e o medo de se perder o poder, sobretudo para a UNITA, funciona sempre como élan para os da Ho Chi Min.

As informações que surgem sobre uma possível aproximação entre Norberto dos Santos ‘Kwata Kanaua’ e o empresário Monteiro Kapunga, em Malanje, não foge muito daquela velha lógica que foi avançada pelo mais velho: as eleições e os interesses comuns, alguns consubstanciados na manutenção do poder, funcionam como íman para o partido no poder. Afinal, os problemas são sempre resolvidos em casa. Tal como nos grandes combates, há sempre momentos em que as tréguas têm que ser aceites em comum acordo. E no caso dos camaradas, a um ano e meio das eleições, independentemente das clivagens originadas pelo combate à corrupção, arresto de bens e outras acções que vão sendo desencadeadas, o poiso mais seguro ainda parece ser o próprio partido. Por isso, perder o poder para serem julgados por quem sempre viram do outro lado do campo é algo inaceitável.

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