Católicos “tiram” Gungo do meio de dificuldades

Melhorar as condições sociais dos mais de 33 mil e 960 habitantes da comuna do Gungo, na província do Cuanza Sul, por via de projectos auto-sustentáveis, é o desafio a que um grupo de missionários católicos da diocese de Leiria-Fátima, em Portugal, se predispôs desde 2000. Os resultados alcançados até ao momento indicam estar no caminho certo, porém, ainda há muita “pedra por partir e retirar” e faltam apoios

A mais de 110 quilómetros da sede municipal do Sumbe, no extremo sul da província, a esperança de um futuro melhor deixa de ser moribunda diariamente, transformando-se em certeza, fruto da implementação de um acordo de geminação celebrado entre as dioceses de Leiria-Fátima (Portugal) e a do Cuanza Sul (Angola), a 25 de Março de 2006.

O primeiro desafio para quem decide chegar à sede do Gungo reside nas vias de acesso. É uma picada bastante arenosa cuja circulação só é possível de viatura 4X4, do tipo Toyota Land Cruiser, vulgo Chefe Máquina ou 18 províncias, em meio de enumeras dificuldades. Para efeito, os moradores, sempre que necessário, têm partido pedras à marreta para pavimenta-las a fim de facilitar a circulação.

Ao longo do trajecto, os visitantes deparam-se com algumas das pequenas aldeias, habitadas por 100, 200 ou mais pessoas, que se encontram espalhadas pelos 2.100 quilómetros quadrados que constituem o território do Gungo. A missão católica local está instalada numa área de cerca de 60 quilómetros de cumprimento e 50 de largura.

“Não há um grande aglomerado de pessoas, uma vila ou pequena cidade. Existem é pequenas aldeias, sendo que a maior reúne cerca de 2.500 pessoas, em três bairros, situados próximos a administração comunal”, disse o padre David Ferreira.

O sacerdote responsável da missão católica local explicou que a dispersão das pessoas tem, até certo ponto, também contribuído para a fraca atracção de investimentos. Reconheceu que, apesar de no contexto angolano não ser uma distância muito grande a que separa a capital da província a sede do Gungo, o difícil acesso causa o isolamento.

A maioria das famílias vive da agricultura de subsistência e os únicos prestadores de serviços são a administração, que tem 13 funcionários, e a missão que tem alguns assalariados.

Algumas optaram por diversificar as fontes de rendimentos apostando no pequeno comércio, criando cantinas e farmácias “Cada pessoa vai tentado fazer a sua vida, o melhor que pode. Há alguns jovens motoqueiros que fazem o serviço de táxi”, frisou.

O sofrimento que os camponeses, maioritariamente mulheres, enfrentavam para transformar o milho ou bombo em fuba levou a missão a criar uma pequena moagem, em 2012.

“As mulheres queixavam-se de ter um grande desgaste com a transformação manual destes produtos. Neste momento, já temos duas moagens. Procuramos sempre que os projectos sejam auto-sustentáveis”, frisou.

Para auxiliar no escoamento dos produtos do campo para a cidade, a missão meteu à disposição da comunidade, desde 2010, um camião Mercedes-Benz Unimog. Meio este que é considerado como sendo de importância vital para as actividades pastorais e sociais da igreja.

Um tractor para reduzir drasticamente o sofrimento

“Neste momento, nós estamos mais focados em dois aspectos que se podem multiplicar em três coisas concretas: um deles é a aquisição de um tractor que servirá para o apoio a actividade agrícola que ainda é feito com enxada e o recurso à tração animal de alguns donos de juntas de boi da zona”, frisou.

De acordo com David Ferreira, se conseguirem este meio rolante poderão proporcionar um salto qualificativo tanto para a missão como para o povo que sofrerá menos no trabalho agrícola. Deste modo, terão melhores resultados para o bem das famílias. “Se tivermos um tractor, manteremos a funcionar em condições, prestando serviços na época da lavoura de todos interessados e estaremos a dar mais uma ajuda”.

A fonte esclarece que o tractor servirá também para ‘tocar’ algumas alfaias, uma delas é um britador de pedra proveniente de Portugal, com a ajuda do grupo de missionário Ondjoyetu de Leiria-Fátima, que é considerado a base de todas as transformações que estão a ocorrer no Gungo.

“Enquanto a picada esteve boa, tivemos um amigo que veio trazer uma carrada de 16 metros cúbicos de brita, que temos estado a gerir quase ao grau, mas que agora está a acabar. E, para algumas construções, tivemos que fazer brita à mão. O que é extremamente cansativo e desgastante, principalmente para as pessoas”, frisou.

Projecto de melhoria da qualidade da água aguarda por apoio

A melhoria do fornecimento de água potável à comunidade é outro desafio que esperam vencer. David Ferreira e a sua equipa está focada também num projecto de abastecimento de água por gravidade na sede da missão, retirando dos rios que banham a comuna. Neste momento, o abastecimento depende da disponibilidade do camião ou de uma carrinha da missão que transporta de um dos rios. A qualidade da água também constitui uma preocupação.

“O rio mais próximo é o donga e uma boa parte do ano tem pouca água. Porém, como os solos são muito ferrosos, isso afecta a sua qualidade. Então, há uma parte do ano em que estamos a disponibilizar na missão água. As pessoas lá vão mesmo não sendo da melhor qualidade”, frisou, garantindo que se esforçam em “tratar, decantar e fazendo o melhor possível para que não haja foco de doença”. “Gostaríamos de ter outra independência no fornecimento de água”, desabafou.

O sacerdote, através de um estudo local, gizou uma estratégia que pode levar a colmatar essa dificuldade caso haja o apoio necessário. Identificaram uma nascente, há 1.580 metros, e arrancaram com a reparação de um reservatório do tempo colonial em alvenaria.

Neste momento, estão a precisar que alguém apadrinhe a iniciativa fornecendo tubos. Neste sentido, receberam várias propostas mas que não se efectivaram, pelo que necessitam de apoio para os adquirir e pagar a mão-de-obra que a executará a empreitada. “Pensamos na possibilidade de incluir neste pacote uma escavadora, nem que seja segunda-mão. Cavar os 1.580 metros à mão quase que assusta”, disse.

David Ferreira revela que com o auxílio dos amigos da organização ‘Volta a África’ estão focados em conseguir o tractor agrícola e a escavadora. Estão abertos a qualquer pessoa singular ou colectiva que queira juntar-se à causa.

Segundo apurou OPAÍS, no portal www.voltaafrica.com, a organização tem realizado viagens da Europa para África e a nível do nosso continente.

Sem médicos e com fármacos de vez em quando

A missão dispõe de um centro de saúde, mas não tem médico. Os pacientes são atendidos por técnicos de saúde de nível inferior e os casos mais graves são encaminhados para o Hospital do Sumbe. Para suplantar estas dificuldades, alguns profissionais portugueses, incluindo médicos e estudantes de medicina, da diocese de Leiria-Fátima, se têm deslocado voluntariamente ao Gungo de forma períodica.

“No tempo que cá ficam dão um apoio nesta área e partilham os seus conhecimentos técnicos com os locais. Procuramos também ter agentes multiplicadores”, explicou. Sempre que possível, propõem a realização de formações para os promotores de saúde e as parteiras tradicionais locais.

O mesmo se sucede nos postos de saúde do Estado aí existentes, onde se não faltam técnicos são fármacos. Há vezes em que faltam as duas coisas. Os transportes dos pacientes é feito em motorizadas ou numa das viaturas da Igreja.

“O Hospital mais próximo fica há mais de 100 quilómetros, na cidade do Sumbe, que, partindo do centro da missão, faz-se sete horas de viagem. O que para casos de urgência, por vezes, faz a diferença”, frisou.

Para acudir a falta de fármacos, alguns empreendedores locais criaram pequenos negócios neste sentido.

“A missão tem também dado uma ajuda neste sentido, através de uma parceria com a direcção de saúde pública. Quando há disponibilidade no depósito da província recebemos alguns medicamentos que depois disponibilizamos gratuitamente”, frisou.

Quando tal não acontece, a missão vê-se na obrigação de adquirir alguns fármacos na capital da própria para abastecer a sua própria farmácia, onde os mesmos são comercializados a preços bastante módicos.

Deste modo, conseguem manter este projecto funcional, tornando-o auto sustentável. Para reduzir a taxa de mortalidade infantil, a igreja, por via da Pastoral da Criança, tem desenvolvido o projecto “Educação para a Saúde Reprodutiva”, através do qual os líderes da comunidade são formados com a missão de partilharem os conhecimentos com as suas comunidades.

Educação garantida, mas carecendo de reforço

A aposta do Governo em reduzir o número de crianças em idade de frequentar o ensino primário fora do sistema nesta localidade está a surtir o efeito esperado, porque existem escolas que leccionam da 1ª a 4ª classe em quase todas as comunidades.

Ao concluírem esta etapa, os estudantes são encaminhados para escolas nas três ou quatro escolas que leccionam da 5ª a 6ª classe. A maior dificuldade, neste sector, é dar sequência aos estudos por existir, apenas uma escola do primeiro ciclo na qual são ministradas aulas da 7ª a 9ª classe.

As pessoas dispõem também localmente de um serviço de fotocópia e de fotografias. A missão formou também alguns jovens que prestam serviços de serralheira, tendo entre os principais clientes os motoqueiros que circulam por aquelas picadas.

Por vezes, aparecem alguns camionistas “forasteiros” para soldar peça. Formou também vários jovens em técnicas de fabrico de bloco com terra comprimida que estão a ser utilizados para a edificação da missão, por serem mais económico do que a utilização de cimento.

Com estes meios ergueram a segunda moagem, a casa do gerador e uma igreja de 21 metro por 9, que está em fase de acabamentos.

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