E assim…Indignação

A indignação é quase total. Os ingredientes servidos não poderiam alinhar para uma outra dimensão. Afinal, 148 milhões de Kwanzas, apresentados inicialmente como o valor que seria gasto para a composição de uma música para a comemoração do 45º aniversário da independência nacional, dificilmente passaria despercebido sem que se levantasse a onda que se registou na opinião pública.

A contestação surge de todos os segmentos. Mas, a pior hipocrisia, pelo que se pode ver, é que existiam, afinal, propostas com números mais elevados do que a ‘Karga’ apresentada pela empresa de Big Nelo. Esta situação leva-nos a concluir que, independentemente dos montantes do contrato do rapper, nem mesmo as alternativas iriam ajudar.

Qualquer que fosse o vencedor, o resultado seria o mesmo: indignação. A dimensão do projecto empurrava por aí, contrariando as prioridades de um momento económico difícil.

Sempre houve um desrespeito aos números, até porque a divisão nunca foi devidamente equacionada como prioridade num passado. Alguns especializaram-se em multiplicação a todos os níveis e a subtracção.

Durante anos, Angola foi vista como a terra das oportunidades. Inicialmente para os que cá estavam e depois para os que vieram, muitos dos quais patrocinados pelos próprios senhorios.

O valor real das coisas há muito que deixou de existir. Os zeros a mais passaram a ser uma cultura. O lucro fácil tornou-se um imperativo, nem que para isso se desrespeitasse margens estabelecidas por lei.

A construção terá sido um dos sectores mais afectados. Basta ver que vivendas simples em determinadas áreas de Luanda rivalizavam em termos de preços com apartamentos ou residências similares em algumas cidades europeias.

O desrespeito aos números fez com que até melões ganhassem características douradas. Por cerca de 100 dólares, houve quem vendesse um único exemplar numa famosa loja de Luanda como se o produto possuísse propriedades medicinais extraordinárias.

Quando se aponta Luanda, a capital de Angola, e o próprio país como um dos mais caros do mundo está também associado a estas brincadeiras de mau gosto urdidas até por gente que era suposto ser séria.

A repulsa deve ser extensiva. Não para aqueles que verão a fatia diminuir, por força de uma revisão das cláusulas, e concomitantemente dos valores inicialmente aprovados, mas também daqueles que tiveram a ousadia de apresentar propostas ainda mais elevadas do que a vencedora. Se vencessem, o provável é que se limpasse a boca com guardanapos sem que a caravana se apercebesse.

Ainda bem que não tem havido receios de se recuar quando necessário, embora exista quem pense o contrário.

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