Reboló: uma acção empreendedora

O“Reboló” é um jogo de sorte ou azar (JSA), cuja actividade se popularizou e decorre livremente nos mercados informais. A sua origem está ainda por se estudar. A noção mais irónica e ao mesmo tempo bem conseguida sobre os JSA, foi eternizada pelo famoso cantor Frank Sinatra, quando referindo-se a sua disseminação na cidade do pecado, disse:. O distinto em relação ao Reboló é que não se trata de um simples JSA.

É um modelo de venda em que um vendedor oferece um produto de valor, sendo recompensado pelo comprador por via da esperança (sorte ou azar) do jogo. Dito de forma mais simples, no Reboló o comerciante informal vende um produto ou bem, por via de um JSA, no caso a rodagem de um dado, cujas fichas de 1 a 6 foram previamente vendidas aos potenciais jogadores (apostadores).

Neste jogo, o comprador seduzido pela alta probabilidade de sucesso de 16,66% (1/6) em adquirir um produto por 1/6 do seu valor de mercado, arrisca as suas economias e o vendedor vende mais rápido.

É tipicamente uma táctica de economia de escala que agrega valor a acção de venda e remete o comprador a sorte ou azar. Os produtos ou bens são fundamentalmente agrícolas e indústrias cujos preços unitários se situam entre os 50,00 e os 200,00 AOA, como arroz, massa alimentar, pão, balde, bacia, óleo alimentar, tomate, alho, batata, feijão entre outros. Deste modo, percebe-se que o cabaz de produtos ou bens não é escolhido ao acaso.

 Pode afirmar-se que ele é constituído por àqueles produtos ou bens cujo preço unitário cabe na faixa de valor que os feirantes ou utentes estão dispostos a arriscar ou a desperdiçar. O preço unitário do produtoou bem no modelo Reboló é relativamente mais baixo do que na bancada do feirante. Claramente, neste modelo, o vendedor opta por uma estratégia de escala (volume) e não de preço.

Ora, para melhor entendimento e aferição, o subscritor (eu) deslocou-se ao famoso mercado do 4 na cidade de Benguela e comprou as duas últimas fichas de 100,00 KZ cada, para habilitar-se a ganhar um balde de 600,00 e preço de bancada de 800.

Posto dentro do mercado é fácil ouvir-se o pregão “Reboló….Reboló….Reboló “, masterizado com o som do dado a rebolar dentro de uma lata vazia de óleo de palma de 1kg (daquelas vulgarmente conhecidas como caneca jatona na região centro e sul), seguido de um simpático convite “Quer rebolar?”.

Depois de rebolado e lançado o dado, saiu sorteado o número 5. Ou seja, mesmo com as duas fichas adquiridas, que perfaziam uma probabilidade sucesso de 33,33%, perdi. Foi muito interessante verificar a confiança dos jogadores no jogo e a honestidade e justiça do vendedor.

O dado depois de rebolar na lata, é lançado – de preferência numa superfície plana e lisa, para dançar “escrevendo no chão” -, na presença do último (ou de alguns) jogadores, mas não necessariamente de todos.

O vendedor anuncia o número da sorte e entrega o prémio ao apostador vencedor, mesmo estando ausente do local de rebolação (lançamento) do dado. Este comportamento humilde é, aliás, característico das populações, sobretudo em ecossistemas de economia solidária como os mercados informais, assunto felizmente bem dissecado pela literatura, particularmente Cabral (2005).

Pode, assim, dizer-se que é uma inovação engenhosa de processo; uma ideia útil que resolve um problema social, logo uma acção social verdadeiramente empreendedora.

O Reboló é, em suma, um conceito evoluído de venda “fora da caixa”, que certamente não se encontra na literatura económica e comercial. Diferentemente das actividades tradicionais como Kixikila, Ekuta, Matondelo, Ondjuluka, Ocinyemo, ele não é essencialmente uma acção de solidariedade.

Uma vez mais o mercado informal se apresenta como um complexo cultural diverso, dinâmico, rico, solidário e cooperativo. É nos limites desta cultura de solidariedade e de autoregulação que o Reboló se exerce pacificamente. O jogo esbanja paz, enquanto dura o encanto e não se altera a ordem social do mercado.

 A visita realizada aos mercados informais das Tombas ainda na cidade de Benguela e do Catumua na cidade do Lobito, revelam que este jogo transmitiuse comunitariamente e estando completamente padronizado.

 Há também sinais de que o modelo Reboló está em crescendo e tende a sair do confinamento dos mercados informais, sendo importado por outras franjas de pequenos negócios menos informais.

A questão que permanece é que a actividade dos JSA são secularmente controversos e fonte potencial de conflitos. Eles são muito atraentes e sedutores. A sua actividade tem, por isso, um ponto crítico: o vício. Pensa-se que a paz social em que decorre o Reboló seja ilusória. Aliás, como postula a Lei de Murphy, “quando algo pode dar errado, dará”.

O Reboló é um jogo onde se arrisca dinheiro. Existe, por outro lado, a tentação de enriquecimento fácil (com devido perdão da palavra), quer do lado do vendedor como do apostador.

A atracção do jogo pode tentar alguns indivíduos a arriscar os parcos recursos destinados a cobertura dos custos das suas necessidades básicas e, por via disso, alterar a paz social das famílias.

O vício do jogo, do lado do azar, é um problema social que já devastou muitos pessoas e agregados familiares. Pensase, de resto, que seja daí onde nasce o vício e a possibilidade de adulteração do jogo. O Reboló traz subjacente a possibilidade de combater a pobreza de uns e extremar a de outros.

 É, assim plausível, supor-se que o contrato social existente entre as partes envolvidas no jogo se poderá romper. O desafio é, no final do dia, definirse um quadro legal de regulação da actividade deste jogo à escala dos mercados informais, por formas a maximizar os ganhos sociais e minimizar os eventuais aspectos negativos a ele associados.

Amaro Ricardo

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