À noite no museu com Gael García Bernal

Inspirado no famoso assalto ao Museu Nacional de Antropologia do México em 1985, Museu é um divertido e refrescante “artefacto” de cinema, com Gael García Bernal em modo irónico e melancólico. Chega nesta Quinta-feira às salas

A segunda longa-metragem de Alonso Ruizpalacios (n. 1978), o realizador que nos deu Güeros (2014), um olhar centrado na juventude mexicana e com a greve estudantil de 1999 em pano de fundo, retoma a crónica do seu México através de um evento curioso que marcou a véspera de Natal de 1985: o roubo de mais de uma centena de artefactos da cultura maia e meso-americana do Museu Nacional de Antropologia.

Simplesmente intitulado Museu – e distinguido no Festival de Berlim com o Urso de Prata para Melhor Argumento -, esta história que se diz ser “uma réplica da original”, conduz o espectador por um fio de perguntas retóricas que vão moldando a experiência do filme. Por exemplo: onde começa uma ideia?

É aí que deparamos com Juan, a personagem de Gael García Bernal, um homem dos seus 30 anos, estudante universitário com uma tese por concluir, que nos dias de verão trabalha na equipa que faz fotografias das peças do museu. Ele está ali um pouco desinteressadamente, apenas para sustentar os custos do próprio consumo de erva, mas um dia tem um clique mental ao observar e tocar numa máscara em exposição. Terá sido nesse momento que lhe surgiu no espírito a ideia de um assalto? Ruizpalacios não dá certezas sobre os fenómenos da consciência, nem tenta explicar porque é que fazemos as coisas que fazemos. E esse assumir da suspensão da verdade individual é um dos pensamentos graciosos veiculados pela voz off que faz a narração.

Juan vem de uma família da classe média, é filho de um médico (interpretado pelo notável Alfredo Castro), e embora não lhe falte nada na casa onde ainda vive com os pais, algo o impele à ação criminosa juntamente com o seu amigo Benjamin (Leonardo Ortizgris), que é um reticente pau-mandado, por sua vez, a viver com o pai idoso às portas da morte. Os dois encetam o plano de saque de Juan, com todos os pormenores absurdos que o envolvem – como a ausência de um sistema de alarme no museu… -, e nessa noite de véspera de Natal os seus presentes serão nada mais nada menos do que peças pré-hispânicas com inestimável valor cultural (na realidade, muitos desses objectos só foram recuperados em anos recentes).

Fixe-se esta palavra: inestimável. É com ela que os dois bons malandros terão de lidar, porque há uma diferença anedótica entre o valor monetário e a noção de valor cultural. Ruizpalacios explora este conceito como quem mergulha num certo misticismo dos povos indígenas e cruza a mundanidade dos protagonistas com a sedução do passado. Mas, mais do que isso, o que é refrescante em Museu é o seu fino tom humorístico e a inteligência de conjugação da narrativa individual com o impacto colectivo deste roubo, que levou a uma tomada de consciência pública do significado daquelas peças para os mexicanos. De resto, é um filme muito ágil na construção do prazer de quem segue uma boa história, sem deixar que as manobras animadas de estilo visual – e aqui diga-se que é também uma interessantíssima experiência sonora – se sobreponham ao sabor da viagem pela psique de um assalto e os seus danos colaterais.

Pelo contrário, essa verve estilística alimenta a qualidade de diversão que reveste Museu, combinando-se com o rosto melancólico de Gabriel García Bernal, sempre na vertigem da ironia mais arguta. A certa altura, ele é confundido com “aquele actor famoso”, e o gracejo cai que nem ginjas num filme que faz a apologia da réplica. Caso para dizer que não trocamos a(s) réplica(s) por qualquer original.

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