Académicos alertam para os riscos da sedentarização dos khoisan

Dois antropólogos e um historiador versado em cultura africana, convidados por este jornal a analisarem os desafios actuais que as comunidades dos bosquimanes ou khoisan enfrentam, defendem que não se pode alterar o “modus vivendi” deste povo a curto ou médio prazos

Os antropólogos João Domingos Ngoma e José Patrício Tibúrcio alertam às autoridades governamentais que as acções tendentes à concentração ou sedentarização dos bosquimanes ou khoisan, alegadamente para lhes prestar apoio social, deve respeitar o seu modo de vida.

Os académicos disseram a OPAÍS que o seu aviso é em resposta de uma clara intenção de concentrar os bosquimanes numa determinada área para lhes prestar apoio.

Para fazer entender o porquê deste apelo, o antropólogo José Tibúrcio fez uma análise da situação na vertente cultural e social, tendo como mote a preocupação desta ciência com o comportamento de grupos étnicos de que cada indivíduo faz parte.

Explicou que os membros desta comunidade estão ligados entre si, falam a mesma língua, reconhecem ter a mesma origem, habitam em determinada zona geográfica e vivem um mesmo complexo, usos, hábitos e costumes, constituindo, enfim, um modo de vida conservado e transmitido pela tradição.

“E ainda reconhecem que diferem dos demais e que têm uma consciência de pertença ao seu grupo e não a outro. A formação de todas essas características é efectivada num longo processo histórico de todas as etnias que compõem o mosaico cultural de angola”, disse José Tibúrcio.

Asseverou, de seguida, que cada indivíduo tem o direito de viver segundo as características assimiladas no processo histórico da sua etnia e não deve ser obrigado a submeter-se ao estilo de vida de outros grupos por um ou outro motivo teoricamente inconfesso.

Baseando-se nestes elementos, José Tibúrcio disse ser desconfortante o facto de, ultimamente, se ter assistido, na zona Sul de Angola, as etnias bantu, sobretudo agricultores sedentários, detentores de poderes políticos do actual território angolano, a obrigarem os povos das etnias não-bantu, no caso, os bosquimanes ou Khoisan, a fixarem residência por motivos de assistência alimentares e outros.

Natureza de nómada e de caçador em risco

Segundo o antropólogo, isso vai obrigar também o grupo étnico em causa, que por natureza é nómada, caçador-recolector, a adoptar o estilo de vida sedentária das etnias bantu, o que chocará com o seu modo de vida. Algo que pode ser evitado se as autoridades governamentais terem em conta o parecer de especialistas de áreas científicas ligadas a tais fenómenos sócio-culturais, sem nenhum comprometimento de apoio incondicional partidário, antes de se pôr em prática tais medidas.

“Para que tal não aconteça e para que não venhamos a assistir uma resistência na execução dessas políticas e cairmos num fracasso, seria bom que, na teorização dessas medidas, os especialistas de áreas científicas ligadas a tais fenómenos sócio culturais, sem nenhum comprometimento de apoio incondicional partidário, fossem tidos em conta”, frisou. Segundo o interlocutor de OPAÍS, no caso em análise, pode acontecer que, no tempo chuvoso, os povos não-bantu programem viver em certa região e, no período seco, noutra localidade. Pode se dar também o caso que eles programem alimentar-se, quando estivessem com fome e não quando fossem oito, 12 ou 19 horas.

“Preferissem comer peixe, em vez de carne, funge de farinha de massango, em fez de farinha de milho, beber leite ou sangue de gado, em vez de gasosa ou sumo, comer com as mãos e em grupos, no mesmo prato, em vez de o fazerem de forma individual, com garfo e faca”, exemplificou. Pela análise que faz, José Tibúrcio vê essas medidas a acarretarem mais consequências negativas do que positivas, porque, segundo ele, quando se pretende ajudar uma etnia diferente, é preciso despir-se dos etnocentrismos. Procurar entender as necessidades dessa comunidade visada, tendo em conta que os seus valores nativos, percebendo os seus sentimentos e as suas emoções, além de ter de se sentir a dinâmica da vida local.

Enfatizou que quando se ignoram esses e outros aspectos, ao pensar-se que se está a ajudar, cair-se-á no erro de executar a mesma política implementada contra a qual lutámos.

“Sou pela sedentarização voluntária e não total”

Mbala Lusunzi Vita, historiador versado em cultura africana, disse que esta medida de concentração não resolve o problema a favor dos “Khoisan”. “Eu sou pela sedentarização voluntária desse povo e estou em crer que o processo não será total porque um povo, por mais evolução que faça, determina sempre entidades morais cujo objectivo é conservar os seus traços culturais”, disse o investigador.

De acordo com o historiador Mbala, quando a sedentarização voluntária ocorrer, inicialmente, vai criar outras necessidades, as quais os actores sociais devem registar e procurar formas de ir resolvendo, para que não desmotive a habituação de um novo paradigma de vida. Sublinhou também que a mudança desses povos deve ser uma necessidade de dentro, não do Estado, uma vez que, de acordo com a cultura, um povo representa uma natureza.

“Se há necessidade de se efectuar uma mudança, o pedido deve vir dos elementos de dentro da comunidade, não dos de fora, quer dizer que o Governo não pode decidir que, doravante, determinado povo se torna sedentário”, reclamou Mbala

.Lusunzi Vita, salientando que proceder deste modo é contradizer a própria natureza, porquanto a evolução não pode ser decidida fora do contexto ou dos próprios interesses.

Bosquimanes nas civilizações antiga

Essa população é, historicamente, considerada extracto das civilizações antigas. Por isso, chamou atenção de que, apesar de serem nómadas, o território deles está localizado.

Razão pela qual, Mbala Vita considera que o Estado, sem obrigar nada, deve ir construindo infra-estruturas de apoio social, deixando que os próprios povos habitem temporariamente ou nas redondezas de escolas, hospitais e outros estabelecimentos de serviços públicos.

O historiador questionou o que é que Angola ganhava com a sedentarização dessa etnia, se a maior parte dos sedentários estava a sofrer. Aconselhou ainda o Governo a criar uma equipa discreta de investigadores para fazerem pesquisas sérias e de carácter científico, no terreno.

Disse acreditar que delas deverão resultar soluções adequadas, como zonas de acolhimento livre, onde elas não se devem sentir pressionadas. “Têm de ser mesmo eles a decidirem colocar o filho na escola porque as outras crianças com quem brincam as suas estão nos estabelecimentos escolares”, frisou. Acrescentou de seguida que “esse filho é que depois de formado e melhorar a condição de vida dos pais e outros familiares vai influenciar os outros membros da comunidade a seguirem-lhe o exemplo”.

A ideia não é acabar com a conservação da cultura desse povo e a sua existência, porque a sedentarização voluntária dos mesmos pode acontecer numa escala de uma por cada 20 pessoas, soube este jornal do seu entrevistado, para quem a cultura é um problema anterior ao Estado e que lhe ultrapassa. Sobre os impactos que a medida pode ter na vida dos Bosquimanes, Mbala Vita referiu que é uma civilização que pode conviver com as outras, a partir de elementos que a sua cultura impõe.

Alerta de etnocídio à vista

O antropólogo João Ngoma classifica a tendência de sedentarização como um autêntico etnocídio ou assassinato cultural, por aculturação forçada. Explicou que incutir neles outra forma de pensamento, desde a interpretação cultural, superstição aos ritos reais ou simbólicos, “inculcando uma alteridade adaptada fora do sistema de relação entre eles e as suas coisas, fora do seu tempo-espaço e contexto, é um autêntico etnocídio”.

Para reforçar a sua tese, recorreu ao adágio segundo o qual “o homem é produto do seu tempo e da sua cultura”. Outra preocupação do antropólogo tem a ver com a desorganização socio- económica, político-religiosa e cultural, pensada e criada num dado momento e contexto.

Trata-se de uma organização social assente na cultura e fundada nas idiossincrasias com mentores, sabedores, inteligentes e cultos que tiveram todo cuidado de transmitir essa cultura como filosofia para melhor se servirem e viver.

Para si, a existência desses grupos no reportório histórico angolano dá o sentido a uma etno- história, desde as origens aos nossos dias, simbolizando um facto, uma memória, victória e sagacidade, além de virilidade, resistência e existência.

Lembrou que nem todas as políticas arquitectadas para a cidade de Luanda são cabíveis às comunidades Khoi e San. Aliás, disse ser um erro pensar assim.

Esclareceu que os sócio-culturais não-bantu, Khoi e San (Khoisan) são milenares e constituem juntamente com os “vatwa”, os primeiros povos a habitarem o território angolano, ainda que actualmente estejam deambulando pela parte Sul de Angola, designadamente, nas províncias da Huíla, Namibe, Cuandu Cubangu e Cunene.

“Antropologicamente, sedentarizar os Khoi e os San é priválos do nomadismo, que os mesmos consideram como o seu modus vivendi. A acontecer, deve esperar-se que os khoisan se sintam imediatamente presos na sua terra, casa e nas suas aldeias, provocando alteração no seu dia-a-dia”, realçou. Finalmente, João Ngoma classificou o nomadismo dos Khoisan como um legado herdado dos seus ancestrais, um aprendizado que se cumpriu no processo de endoculturação e pura socialização, por remeter os próprios membros ao processo de inclusão, que representa, igualmente, um acto de solidariedade, quando o mesmo tem função laboral.

leave a reply