“Os Bantu devem ajudar os Khoisan a desenvolverem o seu modus vivendi”

O etnólogo João Fernando Manuel alerta que sejam quais forem as políticas dos governos central e provinciais da Huíla, do Namibe, Kunene e Kwandu Kubangu, para inserirem os Khoisan na vida socialmente útil, tais medidas devem reflectir três momentos essenciais

Em declarações a OPAÍS, o também reitor da Universidade 11 de Novembro apontou como primeiro a comunicação convincente e abrangente a todo grupo, sendo que o segundo deve incorporar garantias sociais e demonstração de sucesso. Já o terceiro deve atender a convicção e anuência pelos Khoisan de que tais políticas, por serem boas e exequíveis, são acatadas.

Ele é um dos quatro académicos que este jornal convidou para analisar sobre os desafios actuais que as comunidades dos bosquimanes ou Khoisan enfrentam. Os outros três foram antropólogos João Domingos Ngoma e José Patrício Tibúrcio e o historiador versado em cultura africana, Mbala Lusunzi Vita, cujas abordagens foram publicadas na edição de ontem.

João Manuel defende que qualquer metodologia diferente da acima mencionada não terá resultados agradáveis. “Não nos esqueçamos de que o carácter nómada da vida desse grupo étnico não deve ser interpretado como um fenómeno negativo e impeditivo de quaisquer acções sociais e sociáveis”, frisou.

O professor universitário recordou que a humanidade passou por essa situação porque, a dada altura da sua história, a mesma foi toda recolectora e, consequentemente nómada, mas nem por isso ficou extinta. “Pelo contrário, evoluiu. Isto impõe aos governos de Angola, Namíbia e África do Sul que devem preocupar-se em ajudar esse grupo para atingirem o desenvolvimento social que os outros, como os Bantu, que adoptaram a sedentarização, por via da prática da agricultura”, explicou o docente universitário.

Estado deve criar factores de atracção

A semelhança do historiador Mbala Lusunzi Vita, cujo ponto de vista a respeito foi publicado na edição de ontem, o etnólogo é de opinião que o Estado se limite a criar factores de atracção, no espaço angolano que constitui o de percurso desse povo.

“Por solidariedade humana, os Bantu devem ajudar os Khoisan a desenvolverem o seu modus vivendi, sem qualquer pressão e obrigação, a fim de que, com o tempo, os mesmos se afirmem como um grupo etno-linguístico em franco desenvolvimento e isto é possível”, recomendou João Fernando, asseverando que o contrário também contribuiria para a deterioração do tecido humano dessa comunidade e seria um genocídio.

Para dar sustentabilidade às suas alegações, relatou sobre uma experiência de deslocação que fez até a localidade por que circulam os Mundimbas, onde um dos responsáveis desse sub-grupo étnico lhe confirmou a tendência do Estado de os “nuclear”, por via de atractivos escolares, tendo-se chegado a constituir uma escola móvel que iria atrás deles.

“Mas esse esforço do Governo ficou por aí, porque os Mumdimbas não caíram nessa, pois são um povo talhado por mobilidade e o nomadismo faz parte da sua filosofia de existencial”, referiu o docente João Manuel, que considerou as políticas do Executivo como pouco estruturadas e os referidos atractivos como fracos.

De realçar que os antropólogos João Domingos Ngoma e José Patrício Tibúrcio entendem que as autoridades governamentais que as acções tendentes a concentração ou sedentarização dos bosquimanes ou Khoisan, alegadamente para lhes prestar apoio social, deve respeitar o seu modo de vida.

Os académicos afirmaram que o aviso uma resposta à clara intenção de o Governo concentrar os bosquimanes numa determinada área para lhes prestar devido apoio.

O historiador versado em cultura africana Mbala Lusunzi Vita, por seu turno, disse que esta medida de concentração não resolve o problema a favor dos “Khoisan”, pelo que a sedentarização voluntária desse povo deve ser voluntária.

No seu ponto de vista, quando a sedentarização voluntária ocorrer, inicialmente, vai criar outras necessidades, as quais os actores sociais devem registar e procurar formas de ir resolvendo, para que não desmotive a habituação de um novo paradigma de vida.

Sublinhou também que a mudança desses povos deve ser uma necessidade de dentro, não do Estado, uma vez que, de acordo com a cultura, um povo representa uma natureza.

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