Mali: A vida entre o poder e a morte

PAUlO c. J. FARiA (*)

A resignação forçada do presidente Ibrahim Boubacar Keita e do primeiro ministro Boubou Cissé no Mali, revelaram como a vida é vulgar e banal, o poder precário e incerto em África. Todavia, há excepções. O que ocorre no Mali não implica regra para os outros Estados. Porém, vendo o desenrolar dos factos foi oportuno questionar:

Porque o passado teima em renascer? Será que o passado alguma vez deixou de ser presente? Para o Continente Africano, o presente parece coabitar com o passado numa relação de perfeita empatia. Mali afi rma-se como Estado de caos e instabilidade acentuadas. O que reduz a sua soberania.

A União Africana (UA) afi rma que os “golpes de Estado foram práticas do passado que não devem ser aceites.” Na verdade, a UA, e os parceiros internacionais integrantes na missão de paz das Nações Unidas no Mali (MINUSMA) não têm a solução final contra o jihadismo islâmico, a violência étnica e o crime organizado que afectam o país. Não julguemos que se assiste a um eventual retorno da era de golpes militares, quando os factores que geram a instabilidade sempre existiram.

Deve ter sido aterrador, tanto para o presidente como para primeiro-ministro, verem-se na presença de militares rebeldes e serem transportados em veículos blindados sem o conforto  ehonras do palácio. Era normal que fossem atormentados pelo sentimento de que chegara última hora em que a vida seria vencida pela morte.

Porque derrubar um presidente que em 2018 obteve uma victória confortável de 67%? A resposta é que as eleições vencidas, por si só, não geram desenvolvimento nem exaltam a dignidade e a segurança humana.

Presidente Keita tropessou na armadilha que o elegeu e o manteve no poder: a democracia sem governação. Governar implica definir metas, determinar estratégias, avaliar e maximizar as conquistas pela inclusão dos cidadãos, visando a melhoria da qualidade de vida dos mesmos. Em suma, quem governa deve gerar prosperidade, promover direitos e garantir a participação de todos.

O infortúnio do Mali e da maioria dos países Africanos vem do facto dos detentores do poder governarem de costas voltadas ao povo (heróico e generoso) e abraçar com zelo e subserviência as potências neo exploradoras da Ásia e do Ocidente.

Para os militares rebeldes e Comité Nacional para a Salvação do Povo era necessário terminar com o consulado de Keita, para se estancar a corrupção, má governação e violência jihadista. As declarações de repúdio se fi zeram sentir da comunidade internacional e da União Africana. Mas contrastavam com a manifestação popular de júbilo, que aclamavam os feitos dos rebeldes.

A ONU através do Secretário Geral, António Guterres, pediu aos malianos a “preservarem as instituições democráticas do país.” A UA condenou energicamente a detenção de Keita pela voz do presidente da Comissão, Moussa Faki Mahamat, que através do Twitter pediu os amotinados que “deixem de recorrer a violência e respeitem as instituições republicanas.” Posição similar foi defendida pela Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO).

Contudo, a comunidade internacional, UA e CEDEAO deveriam admitir que o exercício do poder, em África, tem sido uma praxe violenta entre a vida e morte, pois, a manutenção de regimes militaristas quasedespóticos, que usam e abusam das instituições a seu bel-prazer, têm prosperado em detrimento do bem-estar do povo.

Em paralelo, o Chad celebrou 60 anos de independência que culminou com a investidura do presidente Idriss Déby como ‘Maréchal du Tchad’. O Chad é rico em uranium, ouro e tem uma produção de petróleo estimada em 130.000 barris por dia.

Apesar desta abundância, o Chad é, segundo o Índice de Fome Global (Global Hunger Index), publicado a 15 de Outubro de 2019, o terceiro país mais faminto do mundo – depois da República Centro Africana e do Yemen. Situa-se ainda na posição 186 de 189 países que registam índices baixos de desenvolvimento. Assim governa o presidente Déby o Chad há 30 anos. Em 2018, o parlamento alterou a constituição, para que o Maréchal continuasse no poder até 2033.

O que muitos esperariam era que a comunidade internacional e UA condenassem casos de esvaziamento do Estado como estes, antes que a violência do Mali viesse a ser adoptada noutros países como o último recurso para resolução de crises internas.

Se assim fosse, a governação teria que ser sincronizada ao modo de serviço público com vista à melhoria de condições sociais dos Africanos. Para que isso sucedesse, no mínimo, darse- ia uma mudança estrutural da liderança propensa à pilhagem, para uma liderança que fi zesse ecoar nos seus actos e opções de governação as aspirações dos povos e das gerações vindouras. (*)

Doutor em Política e Governo.

Autor do livro O Público e o Político em Angola.

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