O que podemos esperar das próximas eleições nos estados Unidos da América?

SAlOMÃO ABÍliO

No dia 3 de Novembro, os norte-americanos vão escolher o próximo Presidente dos Estados Unidos da América – processo eleitoral que vai ditar sobremaneira o futuro da nação mais poderosa do mundo.

Donald Trump – que no voto popular em 2016 obteve menos de três milhões de votos do que a candidata democrata Hillary Clinton, tendo sido eleito chefe de Estado graças à mecânica do colégio eleitoral – procura a sua reeleição e o Partido Republicano, o Grand Old Party, optou pela continuidade da candidatura do magnata que construiu o seu império no sector imobiliário.

A pensar na próxima corrida presidencial – que será uma das mais decisivas de sempre – o Partido Democrata decidiu apostar no establishment e escolheu Joe Biden, antigo vicepresidente de Barack Obama, e a senadora Kamala Harris – que se formou na prestigiada Howard University – instituição de ensino onde Martin Luther King expôs as suas ideias.

O actual líder da Casa Branca – que tem tido uma gestão desastrosa no controlo da pandemia da Covid-19, que causou a morte de mais de 177 mil pessoas nos Estados Unidos – está a ser bastante criticado internamente pelo facto de, no princípio, quando foram detectados os primeiros casos, ter desvalorizado a gravidade da doença e desincentivado o uso de máscaras de protecção individual. Um outro motivo de insatisfação para com o actual responsável da Sala Oval prende-se com a morte de muitos cidadãos negros por parte das autoridades policiais. O caso mais recente foi a morte do afro-americano George Floyd – que gerou revolta e uma onda de manifestações que se espalharam pelo mundo inteiro.

É dado mais do que assente que a eleição de Donald Trump acabou dividir a sociedade norteamericana – que precisa de união – sobretudo neste momento agreste de crise pandémica: são mais de cinco milhões de casos positivos de Covid-19 registados naquele país. Até no seio do seu próprio partido, Trump não é uma fi gura consensual e são muitos os colegas que se têm distanciado dele.

Joe Biden – opositor de Trump nas eleições de Novembro próximo – advertiu o seguinte no seu discurso de nomeação como candidato presidencial: “Se Donald Trump for reeleito, os próximos anos serão mais do mesmo. Trump é um Presidente que não assume as suas responsabilidades, que se nega a liderar e infl ama as chamas do ódio e da divisão.” Quem também está contra a liderança do actual Presidente dos Estados Unidos é Barack Obama, que acusou Trump de “converter a Presidência num reality show para satisfazer o seu insaciável ego”.

O MANDATO DE DONALD TRUMP

O mandato de Trump tem sido marcado por vários escândalos: interferência da Rússia nas eleições de 2016, demissão do conselheiro de Segurança Nacional, Michael Flyn; ataque às decisões judiciais, guerra comercial com a China, favorecimento pelo Estado de grupos religiosos ultraconservadores – violando deste modo a laicidade do Estado; divulgação de rascunhos de directivas ou pormenores de investigações que estavam em curso, etc.

No capítulo da política externa, o reatar das relações diplomáticas com a Coreia do Norte acabou por não produzir resultados concretos; o duro golpe que deu aos seus aliados – desfazendo os nós/laços com a Aliança Atlântica – veio revelar o seu posicionamento isolacionista nas relações internacionais.

Entre escândalos e mais escândalos, Trump tem mostrado que não é defensor de uma sociedade plural – com os seus checks and balances e primado da lei -, tendo inúmeras vezes demonizado os órgãos de comunicação social como“os verdadeiros inimigos do povo”. Em várias conferências de imprensa na Casa Branca recusouse a responder questões colocadas por jornalistas da CNN por entender que se tratavam de uma pedra contra a sua governação.

A política migratória foi, sem dúvida, outro grande desastre. Uma das suas grandes bandeiras durante a campanha eleitoral de 2016 foi a construção do famoso muro ao longo da fronteira com o México, de modo a impedir a entrada de imigrantes ilegais.

Houve relatos de pessoas que – ao tentarem entrar de forma ilegal nos Estados Unidos – foram detidas e colocadas nas “cidades-refúgio” em condições infra-humanas. Muitas crianças foram separadas dos seus familiares. Tudo isto tem acontecido na “terra da liberdade, onde os homens nascem livres e iguais”.

ELEIÇÕES DE NOVEMBRO

Esperamos que as próximas eleições – determinantes a nível mundial – sirvam de exemplo para todos os políticos. Neste momento em que parece haver recessão democrática um pouco por todo o mundo, os decisores devem fazer a leitura mais acertada porque o que tem acontecido nos Estados Unidos da América revela que não podemos ter a democracia como take for granted.

Isto é, como um dado adquirido. Todavia, não se poderá dizer que o facto de Trump se encontrar atrás de Biden nas inúmeras sondagens que têm sido publicadas signifi que que perderá as eleições. E isto deve-se a factores conjunturais e estruturais. Um dos factores negativos para Trump é, como já se disse, a sua incapacidade para gerir a pandemia da Covid-19. A esta pandemia soma-se a crise económica e a dívida brutal que atingiu, nos Estados Unidos, valores nunca vistos. Segundo alguns economistas, poderá ter atingido mais de 200 biliões de dólares.

Acresce um desemprego igualmente gigantesco, que obrigou o Congresso a auxiliar financeiramente muitos milhões de norte-americanos socialmente mais vulneráveis. A conjuntura não é, pois, favorável a Trump. Conseguirão os democratas catalisar o descontentamento entretanto gerado? A escolha de Biden acaba por ser relativamente ambígua.

Centrista, bem dentro do establishment político-institucional, contando com o apoio de proeminentes membros do GOP (como o General Colin Powell), Biden pretende manter a tradição democrata, abrindo-se, em simultâneo, aos novos tópicos políticos gerados pelos movimentos cívicos de contestação a Trump e que em grande medida são representados pela “ala esquerda” do Partido Democrático, que tem vindo a ser de algum modo liderada pelo Senador Bernie Sanders. Que esta coligação anti-Trump tem.

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