Sinistrados das Salinas acusam Governo de abandono

Mais de 300 pessoas, cujas casas foram demolidas pela Administração Municipal de Benguela a 24 de Junho, acusam o Governo Provincial de Benguela de os ter abandonado na Escola do Magistério Primário Lúcio Lara, à beira da estrada Benguela- Baía-Farta. Os sinistrados dizem estar a viver problemas de vária ordem e que de tanto sofrimento, há quem não se sinta angolano

“Não me identifico, porque não me cons idero uma cidadã”, desabafou uma cidadã a O PAÍS, insatisfeita com a forma como têm vindo a ser tratados pelas autoridades administrativas que, segundo sublinha, os abandonou à sua sorte.

Os moradores reconhecem que, recentemente, o Governo de Benguela tinha manifestado o interesse de os tirar da escola para a conhecida zona de Benguela Sul, porém negaram a pretensão governamental, justificando falta de condições de habitabilidade e verse- iam, novamente, obrigados a viver em casas de chapas.

A interlocutora considera desumana a forma como foram escorraçados do bairro das Salinas e transportados em camiões. Nesta Segunda-feira, mais de 300 pessoas completaram dois meses desde que, forçosamente, foram colocados numa escola sem condições e obrigados a viver três a quatro famílias numa sala de aulas.

Sem nunca perder de vista o sentido crítico, a cidadã refere que, por terem sido maltratados e desrespeitados os seus direitos consagrados constitucional e legalmente, talvez fosse melhor se o Presidente da República, João Lourenço, orientasse o Governo para os tirar de lá e, de seguida, mandá- los a um centro “para estrangeiros, porque nós, ó mano, estamos que nem cães. Água, às vezes, passa muito suja”, Quando o “martelo demolidor” chegou às Salinas, zona B do município de Benguela, dona Joaquina e mais outras três estavam nos últimos meses de gestação e tiveram de dar à luz em condições que qualifica de deploráveis.

Joaquina lembra que, na altura, o seu estado não inibiu a Administração de a transportar num camião contentorizado. “Nesse dia, ligámos para o ENEMA e nada. Um dos polícias aqui ligou para o comandante, e mesmo assim nada. Um motoqueiro é que me levou ao posto médico… Nos trouxeram cá como cabritos”, disse a senhora, com uma lágrima a visitarlhe o cantinho do olho esquerdo.

A situação de vida no Magistério é, deveras, crítica. Embora a escola tenha casas de banho, as mesmas não têm sido usadas por alegada falta de condições, obrigando, deste modo, os moradores a fazerem as necessidades ao ar livre. Segundo esclarecem, decidiram construir casebres ao redor da escola como medida de prevenção da pandemia da Covid-19, associado ao facto de haver, entre eles, quem esteja com problema pulmonar. “Às vezes, sai daqui seis doentes, entre crianças e adultos”, revela, realçando que, nos últimos tempos, algumas crianças têm sido assoladas com problemas diarreicos.

Desde que foram lá colocados, há dois meses, nunca receberam uma visita de uma entidade do Governo de Benguela. De acordo com o cidadão João, outro morador, os únicos profissionais que os visitam, com alguma regularidade, são jornalistas, que reportam periodicamente o quadro periclitante deles.

Confrontado recentemente com o drama das famílias sinistradas colocadas na Escola do Magistério Primário Lúcio Lara, o governador provincial de Benguela, Rui Falcão, disse que, sobre o caso, as autoridades competentes estariam, já, a trabalhar, ficando-se, contudo, sem se saber a quem, efectivamente, o governante se referia-

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