Recém-amigos: ex-agente do Mossad conta como Israel e EAU chegaram a acordo de paz

Enquanto Israel possui relações conturbadas com a maior parte dos países árabes, ex-agente do Mossad, encarregado de estabelecer contacto com os EAU, conta sobre as raízes da aproximação

No último dia 13, Israel e os Emirados Árabes Unidos fecharam um acordo de paz histórico sob intermediação dos EUA.

Os lados se comprometeram em estabelecer cooperação em diferentes áreas, enquanto que o primeiro vôo comercial a ser operado entre Abu Dhabi e Tel Aviv está programado para a semana que vem.

Contudo, segundo contou à Sputnik Internacional o exagente do Mossad, David Meidan, as relações entre ambos os países tiveram uma guinada no final de 2005 e início de 2006. “Até então, funcionários israelitas de tempos em tempos ‘esbarravam’ nos seus colegas emiradenses. Nós os víamos em terceiros países, em cúpulas ou encontros, encontrávamos os seus embaixadores, mas não havia nada muito sério”, contou Meidan.

Porém, as preocupações de Israel com a situação no Oriente Médio acabaram por levando o Estado judeu a se aproximar dos Emirados Árabes Unidos.

“As relações sérias começaram só em 2006, quando o então primeiro-ministro, Ariel Sharon, se dirigiu ao chefe do Mossad, Meir Dagan, lhe dando duas missões. A primeira era a neutralização da ameaça iraniana [em relação a suspeitas de que o Irão estaria a desenvolver armas de destruição em massa]. Já a segunda constava em estabelecer contacto com estados sunitas moderados na região”, declarou.

Sendo assim, Meidan tornouse chefe de uma unidade chamada Tevel, a qual deveria estabelecer e manter tais contactos. Desta forma, o ex-agente, juntamente com a sua equipa, começou a estudar os países da região, analisar quais seriam os interesses comuns entre eles e Israel, assim como buscar contactos.

“Os EAU foram um dos países nos quais focamos a nossa atenção, mas eles não eram o único país”, disse.

Assim que foi estabelecido contacto, iniciou-se a comunicação entre ambos os países. Contudo, toda a comunicação era feita de forma secreta para que nenhuma informação pudesse vazar para a imprensa.

Começando aos poucos Relações entre Estados são em muito relações de confiança. Tendo isso em mente, Meidan acentuou que a relação com os EAU foi progredindo à medida do tempo. “Tais relações sempre começam com pequenas coisas, gradualmente crescendo até algo significativo. No início eram contactos entre os serviços de inteligência de ambos os países. De tempos em tempos os representantes das chefias se encontravam para trocar ideias.

Depois foi decidido estabelecer um canal directo [de comunicação]. Mas o objectivo final era o estabelecimento de relações de trabalho permanentes”, explicou. Logo após o anúncio do acordo de paz, os Emirados Árabes Unidos foram criticados por países do Oriente Médio. Em particular, o Irão classificou tal atitude dos EAU como uma “punhalada pelas costas [das nações muçulmanas]”. Por sua vez, Meidan considerou a acção de Abu Dhabi como um acto corajoso. “De todos os países do golfo Pérsico eles foram os mais audaciosos. Este é um país muito audacioso. Os seus líderes são talentosos e experientes, eles em muito superam todos na região. Obviamente, tudo [na relação] era feito secretamente, mas eles não tinham medo. Eles já tinham entendido as vantagens de Israel e autorizaram acordos comerciais”, afirmou. Já do lado de Israel, a confiança nos Emirados Árabes Unidos foi fruto da imagem apresentada pelos líderes emiradenses.

“A liderança deste Estado é [feita] de pessoas muito honestas e confiáveis. Quando eles apertam a sua mão e dizem que vão fazer algo, pode ter certeza que eles vão manter a sua palavra. Para ter certeza de que eles mantêm as suas promessas não precisa nem de contrato. Eles são inteligentes e instruídos, eles viajam muito. Eles são organizados e possuem objectivos precisos. Eu os respeito muito pela maneira como eles dirigem o seu país. E não somente eu, mas os simples cidadãos dos Emirados têm orgulho e respeito por eles.” Meidan também ressaltou a política sócio-económica emiradense.

“Eles conseguiram criar um sistema no qual todos os cidadãos dos EAU recebem benefícios da riqueza do país. Os cidadãos não pagam impostos. O país tem educação gratuita. Toda a educação, desde o jardim de infância até ao doutoramento, é financiada pelo Estado, no sistema educacional é investido muito dinheiro.” Mas por que a paz com Israel? Se, por um lado, boas relações com o Estado judeu poderiam causar mal-estar entre lideranças do Oriente Médio, por outro lado, segundo o ex-agente, Abu Dhabi teria visto “o potencial de Israel e entendido que nós poderíamos lhes dar algo vantajoso para a sua economia”.

Por outro lado, a normalização das relações entre ambos os países se daria numa forma diferente da que foi feita pelo Egipto e Jordânia com Israel. “Os Emirados Árabes Unidos nunca foram nossos inimigos. Com o Egipto e a Jordânia tivemos várias guerras. Houve mortos, feridos e prisioneiros. O acordo de paz com o Egipto foi uma das maiores conquistas diplomáticas, porque outros países árabes podiam seguir tal exemplo. [Mas] os EAU são outra história. Nunca tivemos guerras com eles. Eles não enviaram para Israel suas tropas, sendo que em princípio entre nós não existe inimizade”, explicou.

Mundo árabe seguirá o exemplo? Washington tem expressado o desejo de desenvolvimento de boas relações entre os seus aliados no Médio Oriente com Israel. Para Meidan, o Bahrein “amadureceu consideravelmente para isso [fazer um acordo de paz], mas é difícil dizer quanto tempo vai levar. Isso não é uma corrida no tempo. Eu acredito que isso acontecerá com o tempo. Depois de Bahrein poderá ser outro país, não necessariamente do golfo Pérsico. Depois o Omã, Arábia Saudita e Kouweit, uma vez que eles também são ocidentais, mas para reagir às mudanças eles vão necessitar de tempo”, concluiu.

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