Ernesto Joaquim Mulato: ‘Dizíamos que aqui não é no Congo, mas estamos a fazer pior’

Ernesto Joaquim Mulato é uma figura incontornável da história da UN ITA, onde chegou ao cargo de vice-presidente durante os primeiros mandatos de Isaías Samakuva. Esteve ligado ao líder fundador deste partido, Jonas Savimbi, desde os primeiros anos, integrando o grupo de indivíduos que com ele decidiu abandonar a UPA/ FN LA, de Holden Roberto, para criar a UN ITA anos depois. Hoje, nas vestes de deputado, o político recua no tempo para recordar as peripécias que fizeram com que Angola se tornasse independente, e a sua visão sobre o país, 45 anos depois do hastear da bandeira, em 1975

Como é que entra para a luta pela independência?

Nasci no Bembe, no dia 12 de Agosto de 1940. Aos 12 anos estive no Songo, depois fui para o Uíge, onde fui baptizado na missão católica. Naquela altura não havia condições escolares nas vilas, municípios e pior ainda nas aldeias.Um dos meus irmãos já falecido, que trabalhava na Brigada do Songo, com os pais do Dr. Feijó e outros nomes ao nível do MPLA, como Manuel Quarta Punza, velho Rabelais, levou-me para Ndalatando. Fiz lá o meu ensino privado até 1955. Depois venho para Luanda, onde sou matriculado no Colégio das Beiras. Foi naquela altura, nos 50, em que já se sentiam alguns rumores dos mais velhos a fazerem certos movimentos.

Como eram estes rumores que ouviam?

O movimento tornou-se mais activo depois da situação ocorrida no Congo Belga, em 1959, com aquela pequena sacudidela. Era véspera da elevação para a independência do Congo e aqui também teve repercussão. Antes disso, havia mais velhos que faziam certos contactos e nós apanhávamos. Tínhamos grupos aqui que, clandestinamente, começavam a distribuir panfletos. Eu morava no Bairro Indígena, aí perto da Cidadela Desportiva. Com os amigos e colegas que estavam naquela área discutíamos vários aspectos. A fuga de muitos de Luanda para o Congo deu-se naquele momento. Pessoalmente, quando acaba o ano de 1959, vou para o Bembe em gozo de férias, já não regressei para continuar os estudos.

Como é que ocorre a fuga para o Congo?

Dá-se por causa da situação na República do Congo. Tornou-se independente, com aquela elevação de Lumbumba, e viemos a saber mais tarde que já havia contactos clandestinos entre o Congo Leopoldville e Luanda, onde o cónego Manuel das Neves também entrava. Ao nível do país também já havia trabalhos clandestinos dos jovens. Eu, pessoalmente, fazia parte de uma célula no Bairro Indígena com o Fernando ‘Brikas, um jovem que morreu naquela altura junto com a Deolinda. O Dr. Mendes, que foi secretário-geral da UPA/FNLA, foi meu colega no Colégio das Beiras, mas também estivemos juntos no mesmo grupo. Discutíamos alguns aspectos, porque todo o bairro já estava nesta alçada: falávamos sobre o que se estava a passar no Congo e Lumbumba também. Tínhamos a ambição de dizer que um dia vamos ficar independentes. Por isso, muitos dos jovens quando saíssem não avisavam os outros. Foi assim que quando vou de férias ao Bembe, em 1960, com o objectivo de regressar, em Setembro, decidi não voltar. Disse ao meu pai que não estava em condições de voltar para continuar os estudos, em Luanda, e gostaria que me ajudasse a sair de Angola. Ele disse: ‘está bem. Mas como quem se ocupa de vocês são os teus irmãos, vais visitálo no Songo’. O meu irmão era chefe do Posto no Songo, então fui para lá. Ele me disse que estava bem, mas tinha receio que fosse preso e a situação se iria complicar. No Uíge tinha havido problemas, um deles envolvendo o filho do Velho Lucas, que era um homem alfaiate muito conhecido. Tentou sair pelo Maquela do Zombo, foi preso e teve problemas.

Não aconteceu o mesmo com Ernesto Mulato?

Não. Eu disse ao meu irmão que não havia problemas, mas que já não iria. Regressei ao Bembe. Mas quando o meu pai perguntou-me, eu respondi: ‘o meu irmão disse que poderia ir que não haveria problemas’. E o meu pai disse: ‘mesmo que ele não dissesse, eu iria encorajar que fosses porque tenho uns amigos no Congo, como o Barros Nekaka (tio de Holden Roberto). Vais, porque também aqui temos quotizado dinheiro para a UPA lá’. Os velhos no Norte até chegaram a quotizar dinheiro para o Abako de Joseph Kazavubu. Pensavam que o Kazavubu é que iria libertar o Norte. Só mais tarde os velhos Barros Nekaka, Borralho Lulendo, o Holden Roberto era muito mais jovem, começaram com a UPA. Um deles era o amigo do pai. Eu disse que estava tudo bem. O meu pai preparou o dinheiro que tinha e com um cunhado meu partimos para o Congo a pé. Não poderíamos ir de autocarro.

Quanto tempo durou a viagem até ao Congo Leopoldville?

Fizemos uma semana. Passamos por Mbanza Kongo, onde paramos e tivemos um incidente. O cunhado que ía comigo entendeu visitar um familiar que estava no hospital e nos deparamos com a tropa portuguesa. Um dos elementos da tropa portuguesa perguntou-me: ‘você não é daqui? Respondi: ‘não sou daqui, mas vim visitar uns familiares’. Identifiquei-me, apresentando o cartão do colégio, e ele disse que não havia problemas. Perguntou quem era o meu primo e disse-lhe que era o ‘Lemos’. Ele disse que conhecia e que no período da tarde estaria com ele. Quando ele saiu daí, voltamos rápido ao bairro para prepararmos a marcha.

Quando é que entra na UPA?

Quando chegamos ao Congo, como levava uma carta, fui entregá-la ao velho Barros Nekaka. Ele e o velho Borralho Lulendo se ocupavam da UPA, disse-me que deveria passar a frequentar a delegação. Passava as noites em casa da minha irmã, mas as manhãs ía mesmo à delegação da UPA. Nós fazíamos a distribuição de jornais e material de propaganda.

Os objectivos da UPA em relação à independência não o convenceram e, por isso, teve que rumar para a UNITA?

A maioria dos jovens passou pela UPA. Nos encontramos com muitos jovens que saíam de Angola: o Hendrick Vaal Neto, Miguel Nzau Puna, Tony da Costa Fernandes e o Ndele. Encontraram-nos na UPA. O Ismael Gaspar Martins, que foi embaixador nas Nações Unidas, além de o ter conhecido aqui, em Luanda, também passou por lá. O irmão da ‘Inga’, o Augusto, igualmente. Todos estes quadros quando vinham passaram por lá. Só mais tarde é que começaram a sair quando houve a influência do MPLA. Eu fico. Ngola Kabangu quando chega também nos encontra lá. Quando o Dr. Savimbi, naquela altura estudante na Suíça, é convencido a ingressar na UPA, nós já éramos jovens da organização. Isso foi entre os anos de 1960 e 1961. No entanto, o objectivo era participar na luta, continuar com os estudos e depois vermos o que se ía fazer.

Quando é que sai da UPA?

A UPNA tinha-se transformado, em 1958, em UPA. O Dr Savimbi já nos encontra lá, assim como todos os outros quadros. O Aníbal de Melo, sem manobras, chegou a estar na UPA, onde até foi membro do Bureau Político. Os velhos Webba e Gourgel, que é avô do Abrãao Gourgel, estiveram lá com o filho que foi morto, por sinal o pai deste governante.

O que fez abandonar a UPA para se juntar à UNITA? Os propósitos em relação à independência eram diferentes?

O que acontece é que quando o Dr.Savimbi ingressa na UPA, durante os contactos com a juventude, vimos que era um homem que tinha vindo para galvanizar a organização e dava impulso à luta de libertação de Angola. Então, todos os jovens abraçaram isso.

Os integrantes da UPA não davam estas garantias?

Ao mesmo tempo, ele estava a mobilizar os outros quadros e estudantes no exterior para ingressar na UPA. Houve um tempo em que o Dr. Savimbi e outros pensavam que, se, por um lado, a UPA tinha ganhado aquela projecção no país e no exterior, por outro lado, era necessário que os quadros com visão fossem ao interior do país para organizar a luta de libertação.

Isso dentro do território de Angola sob domínio português?

Exactamente. Porque se notou que durante o 15 de Março foram libertadas muitas áreas, mas como não havia visão de áreas que se podiam controlar, administrar e daí continuar o combate. Depois começou a haver outra recuperação. Os quadros militares, que saíam do interior para o exterior buscar material, levavam muitos meses para regressar. Viu-se que seria bom que houvesse pessoas para organizar no interior de Angola. A população ficava desprotegida por não saber porque haveria de lutar. Essa foi uma das políticas que o Dr. Savimbi apontava para a juventude. Quando é formada a FNLA, em 1962, e mais tarde o Governo Revolucionário de Angola no Exílio (GRAE), a intenção era que os quadros mais activos deveriam instalar-se no interior do país. Dizia que, mesmo que o velho Holden Roberto não pudesse, estava pronto para entrar e combater.

Faltou alguma visão por parte de Holden Roberto?

O velho Holden Roberto tinha visão, mas denotava que ou tinha medo de entrar no país, porque os jovens diziam que viriam, ou tinha medo que entrassem por causa das suas posições políticas. O que se sabe é que nem uma nem outra posição aderia. Ontem, até foi com muita tristeza que li sobre o passamento físico do Domingos Calvino, através do Jornal de Angola, quando vi o Bureau Político a felicitá-lo, mas não disseram tudo. O Calvino, que é irmão do Hoji Ya Henda, foi um grande militante da UPA.

Os acontecimentos do 15 de Março não serviram de impulso para que Holden Roberto se instalasse em Angola?

O 15 de Março, na realidade, foi o grande dia que podemos considerar como o do início da luta armada em Angola. O Dr. Savimbi nos seus escritos e declarações sempre o disse. Houve o 4 de Fevereiro. Mas o 15 de Março não é como se diz a continuação da luta. O verdadeiro embrião da luta e da guerrilha foi o 15 de Março.

O que difere, no vosso ponto de vista, o 4 de Fevereiro do 15 de Março de 1961?

O 4 de Fevereiro foi uma sublevação nas cadeias de Luanda, para dar um sinal aos portugueses de que havia uma insatisfação. Mas você quando faz uma sublevação daquelas, não tens exército, áreas, nem costas, não está a organizar uma guerra que pode continuar. A prova está no facto de que houve aquela sublevação, mas depois de algum tempo poderia não haver nada. O 15 de Março foi mesmo preparado para atacar aqui e ali. O que faltou foi a presença de dirigentes dentro do país, porque os portugueses tinham abandonado parte do Norte de Angola por causa dos acontecimentos de 15 de Março de 1961. Não houve capacidade de manter as áreas abandonadas. A prova está em que, em 1975, depois de certas áreas libertadas, havia zonas em que os próprios colonos não poderiam pôr os pés. As áreas libertadas não tinham instalado um sistema administrativo.

Sai da UPA e acompanha Jonas Savimbi. A independência acontece nove anos depois da fundação da UNITA. O que viu em Savimbi que não tinha visto em Holden Roberto, enquanto líder que lutava pela independência?

O que alterou foi a forma de levar avante a luta de libertação. Alterou muito. Na óptica do velho Holden Roberto combatia-se, mas de uma maneira que quem estivesse em Nambuangongo não tem contacto com o interior, não havia comunicações e o movimento era feito a pé. Levava meses para se chegar a Kinshasa. Estava-se a morrer porque não havia um controlo táctico nem uma mobilização que levasse a população a compreender a razão da luta. O que iriam fazer depois da saída dos portugueses? Quando surge a ideia de que, para fazermos o combate, os dirigentes e os quadros tinham que estar dentro do país, para partilharmos com a população a razão da guerra, como seria feita, criar infra-estruturas nas áreas libertadas, vimos os primeiros propósitos do Dr. Savimbi. O segundo aspecto: lembre-se de que quando Angola entra na luta de libertação, registava-se o auge da guerra fria. Com o êxito da guerra fria, o mundo estava fragilizado. Havia tantas influências, que corria entre as elites que fossem fazer a luta, fizeram com que as pessoas aderissem aqui ou acolá. Havia a ideia de que o capitalismo era um monstro ou um animal até a abater. Para uns, o marxismo era o diabo, mas para outros um anjo. Havia uma terceira força que estava a nascer, mas também era da esquerda, que é a China. Quando se tornam independentes as outras nações, não tivemos um exemplo a 100 por cento para que fizéssemos a nossa luta como este país modelo. O exemplo que dávamos algumas vezes era o da Argélia e depois Cuba. Dentro de África, tirando aquela evolução dos Mau-Mau e outras, não havia. Foi aí que o Dr. Savimbi dizia que a luta deveria ser de uma determinada forma. As pessoas viam que este homem tem ideias. Quando entramos no país, organizamos as condições desta luta, falamos com a população e ganhamos a sua confiança, dizíamos que o capitalismo para nós, a 100 por cento, também não deveria ser. O socialismo também não era. Pensávamos numa economia mista que ajudava a população. Essa foi sempre a filosofia da UNITA. Estávamos de acordo com a economia de mercado, mas o governo não poderia também ter muita mão para controlar a economia. Deveria deixar também os privados. Mas o governo é que deveria ter noção do que seria feito nesta economia. A mão do governo tinha que estar lá para dar a orientação. Não ele próprio fazer as coisas. Essa noção estava a priorizar a agricultura. Dizia-se que se o povo tiver o mínimo para se alimentar, guardar algum para o que precisasse depois, então estaremos a criar a nossa classe no país.

Como é que a UNITA se estruturou para a luta pela independência num terreno em que já havia a UPA e o MPLA?

É aí que esteve a diferença: quando o Dr. Savimbi descobre que era necessário fazer a luta no interior do país, entra e começa a organizar as guerrilhas. Neste princípio de fazer ataques, contactos e fazer ajuda externa, contar com a força da população, manipular e até ter contactos com o adversário para você poder passar, a UNITA foi ganhando experiência na governação das suas áreas. Já na primeira guerra colonial, os enfermeiros que estavam nas nossas áreas faziam coisas que as pessoas admiravam. Começou a organizar as aldeias desta forma. Se for a algumas do Leste, ensinou-se a população sobre o que era necessário para a higiene. Chegas a uma determinada aldeia e não encontras pessoas a irem à mata defecar. Tudo isso foi sendo ensinado ainda na primeira guerra. Era uma experiência sobre o que iriamos fazer amanhã. Tínhamos as sentinelas que nas aldeias se ocupavam do controlo da movimentação das pessoas. Depois incentivamos a agricultura. No Leste de Angola vivia-se de colmeias. A agricultura propriamente dita entrou quando a UNITA esteve a incentivar. O velho Nzau Puna, que tinha saído da escola de agronomia na Tunísia, era um dos grandes responsáveis neste campo.

Falou da aliança mesmo até com os inimigos. A aproximação da UNITA à PIDE não iria minar os esforços para a independência?

Não. O Dr. Savimbi explica muito bem a relação com os madeirenses. O padre Oliveira também fala sobre os madeirenses. Não havia contactos no sentido de trair. Tínhamos células nas cidades. Essas células estavam em contactos. Chegamos a capturar portugueses na lógica de que se iriam encontrar com o Dr. Savimbi que não estava lá. Infelizmente, o general Epalanga já morreu. Era um dos homens que tinha ido. Nós captura mos até portugueses. Da mesma forma que se fala dos portugueses, fazem- no em relação aos sul-africanos. O Mao Tsé-Tung tratou com os imperialistas. Era um anti-americano, mas fez tratos com eles para ganhar o que pretendia. Sempre digo às pessoas que se o Dr. Savimbi fosse lacaio de quem quer que seja, já seria presidente deste país. Não tenho dúvidas. Mas, só que notaram que ele seria um perigo. Não só para Angola, porque sabiam como ele influenciava os presidentes de África. Você sabe que nenhum destes países que estavam com os franceses ou americanos, quando se tornam independentes, eram de partido único. Ele dizia que partido único não dá, porque temos que dar liberdade a outros partidos. O ocidente teve sempre medo. Chegaram a dizer ao Bush (George Bush) que afinal o Savimbi estava a nos enganar. Aquela ideia dele de que primeiro o angolano não era uma cosmética. Era mesmo do fundo do coração dele. Ele dizia que o negro tem que demonstrar que também pode manobrar o branco, levar avante uma batalha e um país ao nível deles. Era o espírito dele.

‘Alvor não foi uma negociação’

O que determinou o falhanço de Alvor? O que fez falhar os Acordos de Alvor foi o envolvimento das próprias potências. Quando Alvor se organiza, foi no momento do grande fiasco dos americanos no Vietname. Naquela altura, os americanos estavam fracos com as derrotas que tiveram nas guerrilhas do Vietname. Deixaram o jogo e os soviéticos tiveram mais oportunidade de impor a sua política aqui. É assim que quando os cubanos e russos decidiram que tinha que ser o MPLA, os americanos não bateram na mesa. Não disseram nada praticamente.

A UNITA queria ser a escolhida?

Não esperávamos nem uma nem outra coisa. Naquela altura, os americanos não ajudavam a UNITA. Eles ajudavam a FNLA. É bom que saibam disso. Mesmo os sul-africanos também não ajudavam a UNITA. Você sabe que em Kifangondo estiveram sul-africanos para ajudar a FNLA.

O que ditou a escolha que diz ter recaído ao MPLA sem oposição dos americanos?

Não é que os americanos se opusessem, eles estavam fracos. O sistema capitalista não é como o comunista em que quem bate na mesa é a direcção do partido comunista. É que decide e o povo não. Na América isso não acontece. Nos Estados Unidos da América, você não se envolve numa guerra se não tiver o apoio do Congresso ou do Senado. Foi o que aconteceu aqui. A Rússia poderia determinar o envio ou até orientar que Cuba fosse. Se se lembra, quem foi pedir o envolvimento dos sul-africanos foi o Henry Kissinger, a pedido do Presidente Kenneth Kaunda. Há uma declaração de Kaunda que é pública, em que ele dizia que ‘há países socialistas nos seus países, mas imperialistas aqui’. Estava a atacar os russos. Isso é sabido. Está escrito. Portanto, não foi a UNITA que trouxe aqui os sul-africanos. Quando entraram no Sul de Angola atacaram as nossas forças porque na guerra colonial, sobretudo nas nossas zonas libertadas, tínhamos forças da Swapo que iam atacar os sul-africanos. O velho Kulumba, que é do Cunene e tinha as forças lá, por várias vezes era perseguido pelas forças sul-africanas. Para os sul-africanos, ele era um grande terrorista. Quando entram com a força para as zonas em que havia portugueses, até chegarem à Huíla, eles atacavam as nossas forças e as do MPLA. Estive presente em algumas das viagens que o Dr. Savimbi fez com os sul-africanos.

Se os Acordos de Alvor não fracassassem, o destino dos angolanos seria diferente?

Em termos políticos, Alvor não foi uma negociação. Foi uma imposição? Um conflito que leva oito anos ou mais de luta, com os movimentos de libertação divididos, você não vai fazer uma reunião de três ou quatro dias.

Se os Acordos de Alvor não fracassassem, o destino dos angolanos seria diferente?

Em termos políticos, Alvor não foi uma negociação. Foi uma imposição? Um conflito que leva oito anos ou mais de luta, com os movimentos de libertação divididos, você não vai fazer uma reunião de três ou quatro dias.

Mas os movimentos, entre os quais a UNITA, estiveram de acordo. O que se passou?

Não tivemos outra alternativa. Eu ando à procura de algo que, infelizmente, terá desaparecido na história. Houve uma declaração do Dr. Savimbi em que dizia que ‘seria melhor uma transição de dois anos’. E o MPLA começou a atacar que o homem quer andar com os portugueses. Pensou-se nos dois anos de transição para que se medisse até que ponto estava a nossa capacidade de compreensão para sermos nós mesmos amanhã. Atacaram-lhe e ele não voltou a falar mais nisso. Tiramos de circulação esta declaração, porque os outros se queriam aproveitar disso para dizer que ele era um lacaio dos portugueses. Então decidimos ir pedir a independência imediata. Só que quando se pede a independência imediata, os portugueses já tinham decidido que íam entregá-la ao MPLA.

A data de 11 de Novembro foi consensual?

Foi. Não foi uma data do MPLA. Foi mesmo consensual.

De quem partiu a proposta do dia 11 de Novembro?

Da FNLA. As sugestões estavam na mesa. Quanto à nacionalidade, a UNITA é que fez a proposta.

O que quer dizer com a ‘nacionalidade’?

Quem é o cidadão. Houve pessoas que, mesmo tendo outras cores, não queriam incluir. Nós é que definimos branco, preto, mulato desde que ame Angola deve ser cidadão angolano.

Como é que ocorreram os três actos de proclamação da independência?

Quando a situação de Angola se começa a agravar, antes mesmo do 11 de Novembro, os países africanos reuniram- se e mandaram uma delegação para vir avaliar as forças de cada movimento de libertação, nomeadamente da FNLA, MPLA e da UNITA. Esta delegação, com excepção à da Argélia e outros dois países, disseram que eleições em Angola, hoje, a UNITA ganha. Davam à UNITA 45 por cento, ao MPLA não sei quanto e depois a FNLA. Ali já meteu medo ao MPLA. A primeira viagem do Dr. Savimbi a Luanda causou mais medo pela forma como foi recebido. Tudo isso começou a criar medo por parte do MPLA.

A UNITA não quis dividir o país em 1975?

Vou contar mais: muita gente não conhece o pensamento do Dr. Savimbi. Quando deixamos Luanda para o Huambo, eu já estava no Huambo. Era o responsável do Centro Político Administrativo (CAP) da UNITA. Quando as coisas em Luanda intensificam, com os ataques que o MPLA fazia propositadamente, sabotou a viagem do Puna para Cabinda, o Dr. Savimbi foi ter com o Dr. Agostinho Neto. Eu participei nesta reunião. Disse que ‘isso que estávamos a fazer não vai ajudar o nosso povo, por isso é importante encontrarmos saídas’. O MPLA e a FNLA já se estavam a atacar aqui em Luanda, antes mesmo da própria UNITA. É onde entra o esforço do Dr. Savimbi para irmos para Nakuru. Mas quando vamos, já o Dr. Neto tinha deixado ordens para se atacar. Estamos reunidos em Nakuru, mas as ordens aqui já tinham sido baixadas. A reunião em Nakuru correu bem, tivemos bons acordos, terminamos, e, mal tínhamos chegado às nossas posições, aqui eclodiu. É quando o nosso grupo é massacrado na ponte do Kwanza. Perdemos muita gente, incluindo tivemos raparigas violadas. Isso aconteceu pela mão do MPLA. Respondendo à tua pergunta, o Dr. Savimbi depois vai a Kinhasa falar com o velho Holden para dizer que ‘os cubanos e os russos vão impor o MPLA. Então nos preparemos para uma guerra civil aqui no país, para forçarmos o MPLA e reunirmos outra vez’. E o velho Holden Roberto disse: ‘essa guerra, depois do que vi em Kifangondo, é electrónica demais. Até tenho pena de você. Já pensei que o melhor é vires aqui no Congo’. E o Dr Savimbi disse: ‘você é mais velho, fica aqui, mas nós vamos estar lá dentro e ver como organizar a nossa guerrilha’. Isso foi antes do 11 de Novembro. Foi quando o velho Holden Roberto diz: ‘para ludibriar a comunidade internacional, o MPLA pode proclamar a independência, mas nós também vamos proclamar a República Democrática de Angola. Já sabemos que isso não vai dar em nada. É para mostrarmos que não queremos aceitar aquela república proclamada em Luanda. É assim que surge a ‘República Democrática de Angola’ proclamada no Huambo. Mas sabíamos que não iria a parte alguma. Queríamos tempo para nos prepararmos, porque os cubanos entram. Você que é reconhecido vai ter tudo. E foi o que aconteceu.

‘Qualquer patriota acha que valeu a pena o arreiar da bandeira’

Qual foi o vosso sentimento depois que a República Popular de Angola, proclamada em Luanda, começou a ter aceitação?

A aceitação formal não acontece logo em Novembro. O primeiro país a reconhecer foi o Brasil. Os países africanos ainda estavam relutantes no seu reconhecimento. Houve até uma reunião em que teve um empate, de 22-22, a apoiarem uma e outra posição. Foi a partir deste momento que começam a reconhecer o MPLA.

Quarenta e cinco anos depois, o que se pode dizer em relação à independência?

Se formos a olhar para a nossa independência, diria que se há uma coisa que qualquer patriota não pode deixar de dizer que valeu a pena é o arreiar da bandeira colonial. Mesmo quando questiona se a UNITA nunca teve ideia de dividir Angola, estamos muito longe disso. A UNITA não é um partido que luta a todo o custo porque quer ficar aqui ou ali. Sobre isso, deixe que lhe conte o seguinte: o MPLA tentou por travessas ludibriar os americanos para ver se nós eramos reaccionários e divisionistas. Disseram aos americanos que se Savimbi quisesse governar do Kwanza para baixo, o MPLA não teria problemas. Chester Crooker, felizmente, numa das reuniões em que estive presente, na África do Sul, com o Dr. Savimbi, que já morreu, perguntou: o MPLA disse que se você quiser ocupar a parte Sul, ele não se importaria’. O Dr. Savimbi diz: ‘para já, sabe que os homens do MPLA são brincalhões. Eles pensam que estamos a fazer esta guerra como o Ujuku da Nigéria. Não estamos a lutar para uma etnia numa parte do território. Lutamos contra os colonialistas e agora estamos a lutar para dizer que Angola é de todos nós. Então, pode lhes dizer que esta é a posição de Savimbi e do seu grupo’. Estive presente, ninguém me contou.

Será que era mesmo vontade do MPLA entregar parte do país à UNITA?

Eu acho que não. Fez aquilo para que se a UNITA dissesse que está bem, então diriam à comunidade internacional que ‘estão a ver os secessionistas’. Nos conhecemos bem, porque começamos todos jovens e alguns mais velhos como o velho Holden Roberto, o Dr. Agostinho Neto, mas os que vieram mais tarde compunham a mesma juventude. Entendeu-se que não era bem assim. A independência valeu a pena. Mas se me perguntar se é esta a independência que gostaria, penso que até um jovem sério do MPLA vai dizer que não. Não são estes os propósitos que o próprio Agostinho Neto, Mário de Andrade, Viriato da Cruz e outros pensavam. Idem na FNLA e na UNITA.

Numa entrevista que concedeu em 2018 dizia que a independência deveria se reflectir em todos. O que pretendia dizer?

Significa que quando jovens aqui fomos para a luta, a nossa intenção era participar para beneficiar a nossa população. É o que dizíamos. Fico triste como um jovem que cresceu em Luanda, conheceu o Bairro Operário, Rangel e Sambizanga e ver como se vive nestas áreas. Piorou- se mais do que na era colonial. O Rangel pior. O Marçal não vale a pena dizer mais. Onde está o orgulho da nossa luta para dizer que valeu a pena a independência? É essa a Angola que pensávamos um dia que iriamos mostrar? Dizíamos que aqui não é no Congo, mas estamos a fazer pior que no Congo.

Quais são os grandes desafios do país?

O nosso erro como africanos, particularmente angolanos, não começou em 1975 quando recebemos a independência. O erro começou no passado. Quando vamos à luta é que os países africanos, que se foram tornando independentes, não reflectiram sobre a forma como gostariam de ver os países caso recebessem a independência dos franceses. Da parte britânica idem. Angola idem. Como é que íamos governar este país quando o colono saísse? O que aconteceu é que saiu a bandeira colonial, veio a nacional, mas os modos não mudaram muito. Não conseguimos fazer um estudo sociológico das nossas condições e do povo, dizendo que a adaptação da população seria de uma determinada forma. Se fomos governados e obedecemos com chicote, você também vai governar com chicote. Para Angola idem. Há um livro ‘Le Rebell’, de Jean Gidler, em que se diz que um dos erros do MPLA – e Mário de Andrade até tinha ripostado- é que naquela altura nunca teve áreas libertadas durante a luta de libertação no verdadeiro sentido da palavra. Tratava-se de áreas onde pudesse ensaiar o tipo de governação que quisesse. É por isso que, em 1975, quando sobe ao poder não sabia o que iria fazer. E Jean Gidler é um sociólogo e com ideias socialistas, amigo do próprio MPLA. Isso está num livro que me foi dado pelo Dr. Savimbi no dia em que nasceu um dos meus filhos.

Como é que celebra o 11 de Novembro?

Para mim, o 11 de Novembro tem sido mais um dia de pura propaganda. Assisti algumas celebrações e manifestações que ocorreram. Não tem sido aquele 11 de Novembro que traz algo que simboliza todos os angolanos, porque, para lhe ser franco, até este momento chegamos à conclusão de que uma coisa é fazer a luta de libertação e a outra é governar o país. São duas coisas diferentes. Dr. Savimbi dizia que fazer a guerra é mais fácil do que governar, porque na luta de libertação todos podem participar. Na governação já não. Na luta de libertação, você tem a tua a parte, mas na governação tem que incluir tudo. O que se passa é que não encontramos ainda alguém que tem o espírito de unir todos. A nossa experiência é a seguinte: se você é que tem mais, tens que ser o mais humilde. Para ser mais claro, o MPLA está no poder deste 1975, há 45 anos. O MPLA, mesmo se a UNITA fez a guerra, teve homens e dois terços do território, mas nunca governou na capital. O MPLA sabe que tem todas as chaves de Angola desde 1975. E tem ainda. Pelo facto de ser ele que tem as chaves de Angola, o MPLA deve ser o mais humilde e o menos arrogante. Quem ganha deve fazê-lo com modéstia e quem perde deve ser com dignidade. Mas se você ganha com arrogância, o outro que já perdeu como fica? Os nossos irmãos nos habituaram que um indivíduo da UNITA ou de outro partido que pensa que um dia também deveria governar, se te der uma bofetada, ele até vai te dar quatro. Vou dizer algo com toda a responsabilidade: se tivéssemos o mesmo espírito que muitos ou alguns dos compatriotas, a guerra neste país nunca acabaria.

 

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