Os jovens e a política

Kâmia Madeira

Foi-me colocada recentemente a seguinte questão: Qual o motivo que leva os jovens a afastaremse da política? Respondi de forma lacónica que se prendia com os exemplos.

Fiquei a matutar sobre a pergunta, reflectindo sobre as minhas próprias experiências.

Cresci numa família que prezou sempre por capacitar-nos e deixar-nos ter opinião, era um ritual acompanhar o telejornal à noite e conversar sobre as notícias, como leitora voraz rapidamente passei para a leitura dos jornais e fui acompanhando as eleições que decorriam todos os anos para a escolha dos representantes da Associação de Estudantes na escola.

Eram até três listas e os integrantes ficavam conhecidos neste ano, pois tinham que falar com os vários alunos expor as suas ambições e granjear apoiantes/eleitores. Os candidatos aliciavam-nos com a melhoria das condições da Associação, mais mesas de Ping pong ou matraquilhos, pressão á direcção da escola com as questões de limpeza, apoio aos estudantes com dificuldades financeiras, ou seja, identificavam os problemas, criavam estratégias e vendiam-nos as suas ideias….

Quando entrei para a universidade o modelo era idêntico, mas com uma dimensão maior, muitos dos que hoje vejo com assento parlamentar eram colegas aguerridos que estavam sempre nas fileiras da lista com nova candidatura e que depois foram também para partidos políticos. Era importante dominar a retórica, conhecer os problemas e persuadir, eram longas as reuniões de concertação assentes em discussões acaloradas onde ganhava quem exprimisse melhor os seus argumentos convencendo os demais.

A maior parte destes políticos fizeram o seu caminho no activismo estudantil, depois nas organizações juvenis partidárias, ascendendo a outras posições quando “mais velhos”, todos eles têm profissão e se deixarem os cargos que ocupam podem regressar aos seus outros afazeres, pois consideram que o tempo político é aliado ao dar um contributo.

Quando olhamos para a nossa realidade verificamos que o primeiro estágio deverá ser o activismo social, isto é, enquanto cidadãos estamos comprometidos em ter uma voz expressando- a de modo a que os problemas identificados possam ser resolvidos, e podemos fazê-lo criando associações de moradores, de jovens, de desportistas onde de maneira democrática exprimimos as nossas posições e mostramos o porquê de termos ideias válidas.

Infelizmente a ideia vigente é a de que para se ser interventivo dever-se-á ingressar rapidamente numa estrutura politica onde práticas nem sempre positivas nos levem á promoção, claro está que isto não se aplica a todos, mas a percepção da maioria vai neste sentido, pois para se ter sucesso na politica este pode ser um caminho assim como a benesse de se ser de família influente e ter-se bons contactos….

Porque são sempre os mesmos intervenientes nas mexidas partidárias? Porque existe uma necessidade de rejuvenescimento dos partidos? Isto acontece pois os jovens não se revêm, não acreditam que possam contribuir para a mudança e transformação e se reflectirmos sobre isso deverá preocupar- nos pois são estes uma força fundamental e impulsionadora.

Por outro lado, não considero que o “canto da juventude” nos deva inebriar tal qual uma voz melodiosa, pois a competência e subsídios técnicos são essenciais para escolhas acertadas. É importante criar espaços de troca e debate de ideias, dar a oportunidade para que se aprenda na diversidade, mostrar que a ética e a valorização do conhecimento valem mais do que a bajulação e que são os actos e não os discursos isolados que criam mudança. Como diz o provérbio: “A luz com que vês os outros é a mesma com que os outros te veem a ti”.

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