Reabilitação da EN 230 “aproxima” Leste do país

A Estrada Nacional (EN) 230, com 625 Km, ligando as cidades de Malanje e Saurimo, está a ser reabilitada. Mais de mil milhões de Kwanzas estão a ser investidos numa infra- estrutura considerada “artérias nefrálgica” do sistema rodoviário nacional. Para muitos é o aproximar do Leste ao resto do país e o fim de um calvário

O maior calvário é descrito pelos comerciantes que dizem ter de fazer das “tripas o coração” para alugar um camião e levar mercadorias à região Leste. Por seu turno, os proprietários de camiões e empresas de transporte retorquem, dizendo que a viagem à região Leste é “partir” carros.

Enquanto isso, os motoristas descrevem um cenário catastrófico, chegando a ser, às vezes, uma viagem de todo o dia para superar troços de apenas 60 Km, de tão deteriorada que está a estrada.

Portanto, a reabilitação que chega, já é comemorada antes de ser concretizada. Carlos Mufulana, proprietário de uma pequena rede de lojas de venda à retalho nas cidades de Saurimo e Luena diz que o Executivo “ “não podia ter dado melhor prenda que esta” a uma região que parece “tão longe do litoral que chega a ser mais fácil às vezes uma viagem ao estrangeiro”.

Conta que, os custos dos manufacturados na região, que ficou com o mito de que “todo tem dinheiro da camanga” certamente diminuiriam com uma boa estrada. Faz planos de mudar a rotina de abastecimento da sua pequena cadeia de lojas, aproveitando a capacidade de transportar mais através do Caminho de Ferro de Luanda (comboio) e usar a via rodoviária apenas desde a capital da terra da Palanca Negra, Malanje.

Para Mufulana, a mudança na estrutura de custo “seria radical”, tal como a regularidade de garantia de renovação de stock pois, “de comboio levaria mais e a preços mais acessíveis. Na verdade, com a estrada pronta ganharíamos todos”.

Em sentido contrário e com a estrada em melhores condições podia permitir o escoamento do excedente da produção agrícola da região. Muito conhecida apenas pelo brilho dos seus diamantes, o Leste é um celeiro agrícola e uma região com uma palavra a dizer na pesca continental.

A Lunda-Norte, a título de exemplo, no passado recente (década 70), era uma zona próspera na produção de arroz, milho e girassol, em grande escala, associada aos palmares, ao servir-se de uma das maiores bacias hidrográficas do planeta – o grande rio Zaire, cujos afluentes Luembe, Catchimo e Tchiumbue drenam para o curso do Kassai.

A Lunda-Sul, igualmente rica em recursos hídricos, é outro polo agrícola adormecido pois, também com condições para cultivar em grande escala o arroz, milho, batata-rena, batata-doce, ananás, banana, manga e hortícolas, não consegue explorar esta vertente ao máximo por pouca atractividade do sector.

O Moxico podia explorar muito mais as suas vastas terras suficientemente irrigadas por muitos cursos de água e servir-se igualmente da regularidade das chuvas. Por lá foram instaladas algumas grandes fazendas sem falar do mel, da pesca fluvial, dentre outras potencialidades.

O litoral, por concentrar os maiores aglomerados populacionais nos centros urbanos, podia constituir-se num mercado mais apetecível para tudo que pudesse chegar da região Leste, mas o sonho esbarra na dificuldade de transportação e consequentemente no desinvestimento na agricultura e no agronegócio.

Segundo observadores, uma estrada funcional podia inverter o quadro e “aproximar” a região ao resto do país. O turismo podia “dar um salto”, porquanto o Leste é rico em atracções.

Mega operação de reabilitação

Para debelar o problema o Presidente autorizou, recentemente (e está em implementação), uma verba de 1 000 milhões e quatrocentos e cinquenta milhões de Kwanzas para suportar uma mega operação de reabilitação do troço, dividido em 10 empreitadas.

São ao todo 10 diferentes empresas de construção a intervirem no troço com as suas respectivas empresas de fiscalização. Ao bilionário orçamento, se acresce ainda 980 milhões e setecentos e cinquenta mil Kwanzas para adjudicação do contrato para a elaboração de projectos executivos de sete pontes, nomeadamente sobre os rios Cacuilo, Candembe, Luáli, Luvo, Nhama, Peso e Tchuango.

Segundo o Presidente da República, os estudos mais recentes apontam para a necessidade de reconstrução de todas as pontes, por apresentarem degradação decorrente da “longevidade assim como inadequação ao novo perfil traçado e ao volume de tráfego previsto e cargas a transportar”.

O dossier que está a ser viabilizado agora, data de Dezembro do ano passado (DP nº 229/19, de 24 de Dezembro), e presume-se que a pandemia do momento tenha sido “factor impeditivo da execução do plano”, segundo aventou uma fonte do Executivo que, entretanto. apelou ao anonimato.

“Certamente a mobilização de recursos financeiros para a implementação desta mega-operação terá sido afectada pela Covid-19, mas a ligação regular com o Leste, não só é uma promessa eleitoral do partido governante, como é imperativo para o desenvolvimento económico e satisfação social das gentes de uma região que mais contribui para a riqueza nacional, o Leste”, comentou a nossa fonte.

Últimos lotes foram consignados ontem

O ministro das Obras Públicas e Ordenamento do Território, Manuel Tavares de Almeida, marcou presença, ontem, na consignação dos lotes 06 Muamussanda/Sapimbe, com extensão de cerca de55 Km, 07 Sapimbe/Rio Tô, com extensão de 61 Km, 08 Rio Tô/Rio Peso, com extensão de 72 Km, 09 Rio Peso/Saurimo, com extensão de 81 Km e o lote 10 correspondente a estrada Circular de Saurimo, com extensão de 60 Km. As obras consignadas nesta Segunda-feira (31), dos últimos cinco lotes, correspondem aos 320 quilómetros.

Com a realização do referido acto de assinatura dos contratos de consignação, ficam cobertos os 10 lotes do troço Malange/Saurimo, com extensão de mais de 600 Km, sendo que os cinco primeiros lotes de 300 quilómetros foram consignados a 24 de Agosto de 2020.

Ao todo, o Governo vai desembolsar o equivalente a 630 milhões de dólares norte-americanos para reabilitar e ampliar a EN 230 (troço da ligação de Malanje à região Leste) dessa estrada nacional, incluindo 10 pontes.

As obras terão a duração de 18 meses e a sua conclusão é fundamental, para reduzir os custos de transporte dos produtos da cesta básica, combustíveis e outros, que dependem 100 por cento do litoral.

Especialista propõe construção de novas estradas

O engenheiro de construção civil, António Venâncio, considera que a questão fulcral na problemática das estradas em Angola gira à volta da política adoptada. O especialista critica o actual perfil em voga que, data ainda do tempo colonial, um projecto iniciado em princípios do século XX e que tinha sido idealizado para os 50 anos seguintes que terão terminado na década 1980/90.

“O perfil adoptado reúne grande perigosidade, não é seguro, não é confortável e não tem aquilo que se chama velocidade de projecto. Você sai daqui (Luanda) para o Huambo e quando chegas ao destino estás completamente cansado, estressado e não sabes se voltarás vivo. Portanto, precisamos de expurgar estas características”, referiu António Venâncio.

Estas deficiências e debilidades são expurgáveis pensando em estradas que separam os dois sentidos do tráfego. Ou seja, é preciso conceber estradas onde “os utentes ao seguir viagem tem de estar seguros de que não se vão cruzar com o tráfego em sentido contrário. “Precisamos pensar estradas em que os condutores devem saber que ao seguir viagem não têm ninguém na sua plataforma e isso significa evoluirmos para o conceito de auto-estradas”.

Venâncio defende que o Estado, com os poucos recursos que tem, devia abster-se de entrar nas grandes obras de estradas chamando para a empreitada o sector privado que, por via de concessões a médio e longo prazos, podiam ficar encarregues de construir as EN (Estrada Nacional).

O engenheiro de Construção Civil critica a falta de “aprofundamento da cultura de auscultação e inclusão dos técnicos nacionais” na procura de solução para os nossos problemas tendo sido refúgio da governação a “importação de soluções”. Venâncio refere que a importação de soluções nunca esteve ao serviço da procura de soluções duradoiras para o país, porquanto “os consultores” vêm vender ideias e ganhar dinheiro e regressar as suas procedências.

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