Yuri Quixina: “Antes de combater o desemprego temos que ir à raiz da causa”

Professor de Macroeconomia, Yuri quixina defende que o combate à pobreza depende da eficácia de um diagnóstico que determine as diversas causas. o especialista fez esta afirmação no programa Economia real da rádio Mais, emitido às Terçasfeiras

O Conselho de Ministros aprovou Limites de Despesa para o OGE/2021, com os quais se pretende atingir as metas e objectivos previstos no PDN. Pode-se considerar uma gestão prudencial à luz do cenário de crise que se vive?

Seguramente, para o ano de 2021 o Governo terá de traçar várias estratégias de modo que as despesas e as receitas suportem a economia nacional, na medida em que a economia ainda continua na mão do Estado e o orçamento constitui o grande cancro da nossa economia, porque o próximo ano será pré-eleitoral. Penso que não será um orçamento de poupança, mas de despesa no curto prazo. Será um orçamento muito difícil de se elaborar, porque o país não tem poupança.

Mas o documento transmite que o Governo pretende fazer com que vivamos dentro das nossas posses, não?

Sim, mas os períodos pré-eleitorais são de desorçamentação ao nível dos governos, porque é um documento político que pressupõe gasto.

O governo também aprovou a Lei de Delimitação das Actividades Económicas, para tornar a actividade comercial mais atractiva aos investidores. Qual é a sua expectativa?

A economia, para mim, não depende de lei elaborada pelo Governo, mas de lei de mercado. O que o Governo tem que fazer é tirar todas as suas barreiras, para a economia se desenvolver. Quando o Estado controla o sector privado, não permite que o país se desenvolva. É importante colocar as famílias e as empresas no centro. Mas isso vai depender muito do modelo económico.

O PROPRIV prevê isso… Já tivemos vários programas de privatização. O importante é a acção, para produzir efeitos multiplicadores no longo prazo. Mas este é um outro programa…

Programas vão existir sempre no país. O mais importante é a sua efectivação e colocar no centro os agentes económicos.

A agência de rating Standard & Poor’s perspectiva um crescimento económico de Angola à volta de 3%, baseado no aumento dos preços do petróleo em 2021. Qual é a sua perspectiva?

Para crescer 3%, Angola terá de aumentar a produção e os preços terão de subir. São condições que as projecções da Standard & Poor’s. Mas no princípio do mês, a mesma agência decidiu manter o rating de Angola em CCC+, o terceiro nível mais baixo da escala de avaliação, com perspectiva de evolução estável, argumentando com a rápida descida dos preços do petróleo, a depreciação do Kwanza e o impacto económico da pandemia da Covid-19, que acentua os défices orçamental e externo e aumenta a pressão sobre o financiamento. Isso pressupõe que os títulos de Angola continuam abaixo de lixo. São previsões para motivar o mercado, mas ainda há muita incerteza, porque os pressupostos são muito incertos. Aumentar a produção acima de 1,4 e aumentar o preço do barril do petróleo. E isso não depende de Angola. O nosso crescimento deve depender de nós e não só de variáveis externas.

Mas internamente há trabalhos em curso. A reforma, por exemplo. Tem que ser o número um, pois é isso que vai atrair o investidor estrangeiro.
De modo geral a perspectiva da Standard & Poor’s pressupõe que o petróleo ainda será, por algum tempo, a base das políticas públicas. Ou não? A agência demonstra que do ponto de vista do sector não petrolífero, Angola não tem pernas para andar, porque as políticas da reforma estrutural ainda não são indutoras do crescimento do sector não petrolífero.

O Executivo estima criar, até 2021, 83 mil empregos, por via da implementação do PAPE, segundo a ministra da Administração Pública, Trabalho e Segurança Social. Que condições objectivas existem para essa realização?

O desemprego é um flagelo nacional e mundial. Quando alguém é desempregado o sentimento é semelhante ao da perda de um familiar. É fundamental combater o desemprego, mas com medidas efectivas. Mas antes de combater o desemprego temos que ir à raiz da causa. Deve-se fazer um diagnóstico do desemprego em Angola. Enquanto a economia estiver na mão do Governo será difícil combater o desemprego. O nosso desemprego é estrutural e de um modelo económico virado ao Governo, em que a ideia de ser empreendedor encontra sempre uma barreira. Ou um fiscal ou falta de estrada. É muito custo.

Você já chegou a dizer que Angola era dos países que mais diagnósticos fazia… Estou a dizer diagnóstico estrutural, porque dar só formação não acaba o desemprego… quem já criou emprego sustentável assim?

São várias perguntas que precisamos colocar.

  • Sugestão de leitura
    Título da obra: ‘Homens da Ciência e de Deus’
  • Autor: Publicações Discovery Ano de lançamento: 2018
    Frase para pensar: “Conhecimento, motivação e acção são os ingredientes para o desenvolvimento sustentável de Angola”, Yuri Quixina
    Economia Real é um programa emitido às Terças-feiras, às 13h, na Rádio Mais (99.1/http://radiomais.co.ao/), transcrito para o jornal OPAÍS.

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