“Com boas vendas podemos produzir mais”

Alguns agricultores nem conhecem a lista de produtos que podem tornarse “bom negócio”, com a possível diminuição da importação, depois do Executivo decidir já não disponibilizar divisas para operação de compra dos mesmos no estrangeiro. Na região da Funda prossegue a colheira da safra do período de cacimbo e a preparação das terras para os próximos ciclos

Ernesto Marcelino chegou à região de Quiminha há cerca de 40 anos (1981 vindo do Waco Kungo) fugido da guerra, depois de certas peripécias vividas com o resto da família. O ofício de agricultor é uma herança recebida do seu pai que o iniciou no cultivo da terra já no longínquo ano de 1972. O gosto pelo campo passou a outros membros da família que continuam a “tomar conta das terras” no Cuanza-Sul, para onde não planeia ou sonha regressar em definitivo: as nossas terras lá ficam só já para as minhas irmãs. Revela com uma dose de nostalgia.

Na zona da Funda chegou atraído pela prestação de serviço a agricultores mas, com o passar do tempo decidiu “fixar-se por lá” e daí ter comprado as suas próprias terras que hoje resultam nos cerca de 10 hectares que cultiva.

Sem descurar as outras culturas, concentra o seu esforço no cultivo da cebola. É assim a cada ano por ser um produto que “dá alguma coisa”, não obstante o facto de o seu maior mercado, que é a província de Malanje, estar quase inacessível este ano. Revela que em terras da Palanca Negra, chegou a vender melhor, principalmente a compradores vindos do Congo, cuja capacidade de aquisição “é em centenas de sacos. Mas como está fechado vamos remediar no Catinton”.

Trabalha sozinho, depois do fracasso de uma cooperativa que experimentou (com os colegas na zona). A maior dificuldade são os fertilizantes e pesticidas. Por enquanto tem cinco trabalhadores “fixos” e por altura de maior produção serve-se dos “biscateiros”, ou seja, a mão-de-obra por avença. Diz gostar da terra em que vive e onde nasceram os seus filhos. Tenho águas e luz e consigo produzir o meu sustento e da família.

Nem sequer ouviu falar da possibilidade de o seu produto eleito poder vir a transformar-se em grande negócio, depois do Executivo o ter inserido no leque daqueles que já não terão acesso a divisas via Tesouro Nacional mas, anima-se e promete que ele e companheiros na região teriam uma palavra a dizer: “Há dois anos montaram uma estrutura para comprar a nossa cebola e não conseguiram. Se virar bom negócio podemos aumentar a produção”.

Mais velho Ernesto Marcelino é apenas uma “amostra” de centenas de pequenos e médios agricultores que aproveitam uma das melhores zonas da conhecida cintura verde da cidade de Luanda e fazem do campo o seu ganha-pão.

Sendo a agricultura familiar a maior franja da produção nacional, acredita-se que os camponeses, se bem apoiados em insumos e outros factores de produção, podem oferecer mais e melhor ao grande mercado consumidor da capital do país. Aliás, o exemplo vê-se ao longo dos pequenos aglomerados residenciais. Com pequenas bancadas improvisam, cada uma a seu jeito pequenos mercados de venda, como via para escoar a produção abundante.

Filho professor dá uma mão ao pai

Francisco, 27 anos, é filho do mais velho Ernesto Marcelino. É professor de profissão, mas, dada a situação de parcial ociosidade em consequência da pandemia da Covid-19, decidiu “dar uma mão ao pai”.

Encontrámo-lo a regar a plantação com auxílio de uma moto-bomba e um emaranhado de tubos. O professor Francisco apoia “100% a decisão de não derramar mais divisas com a compra de produtos que podemos cultivar e fabricar aqui. É uma boa iniciativa”.

Para ele a diversificação da agricultura passa por “apostar no campo. O governo devia averiguar o que se faz no campo e podia saber realmente o que pode tirar de lá”. Não tem duvidas que o campo “é a chave”.

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