Falta de condições nas fazendas, pode ter morto gado no Planalto de Camabatela

A falta de condições primárias para a recepção e criação de gado nas fazendas do Planalto de Camabatela, é apontada como a causa que levou a morte de mais de 400 cabeças de gado provenientes do Tchad, no âmbito de um acordo que Angola firmou com aquele país

A informação foi prestada ao ministro da Agricultura e Pescas, António Assis, durante uma visita de trabalho àquela região, realizada pelo governante, na última Quarta-feira. O ministro comentou na ocasião que, grande parte dos criadores de gado no país “desvaloriza” as componentes técnicas requeridas, pelo que a conclusão deve ser levada em linha de conta para acções futuras.

“Em muitos casos, aquilo que chamamos de fazenda é só terras, e nem há infra-estruturas. Você não pode aqui nesta região e em qualquer outra de Angola criar animais quando não tens um banheiro e não tens uma manga de vacinação”, comentou o Governo em guisa de concordância com o argumento apresentado. Tão logo arrancou o programa de distribuição do gado, à luz de um programa gizado pelo Executivo, o país foi surpreendido com a morte de algumas cabeças (estima-se 5% do total de efectivos chegados ao país) em fazendas no Planalto de Camabatela, Zaire e Uíge.

Especialistas contactados pelo jornal O PAIS apontaram na altura a falta de observância de mortes de importação de animais como podendo estar na base da fatal ocorrência. Amostras enviadas ao estrangeiro revelaram a existência de um surto (endémico no país), mas dias depois, outras possíveis razões começaram a ser equacionadas, o que levou ao refreamento da vinda dos animais para uma real avaliação técnica, com o intuito de diminuir a perda de mais animais.

Opinião das associações não foi considerada

Falando em nome da Associação Agro-pecuária de Angola, AAPA, Pedro Carlos Pinto, disse no debate realizado pela Tv Zimbo esta semana que, a opinião da sua agremiação sobre o assunto “não mereceu a devida atenção”. A distância percorrida pelos animais, as condições climáticas em que foi transportado até chegar em solo angolano “requeria, talvez um outro cuidado”. No início da operação, a associação dos agro-pecuários propôs que o gado fosse repassado “a criadores experientes, sobretudo a Cooperativa dos Criadores do Sul de Angola que já são elementos com relativa experiência e outros bons criadores pelo país”, e, seriam estes a repassá-lo depois para o sector familiar.

A metodologia seguida, para a AAPA foi “mal enquadrada”, porque quando se importa gado nestas condições, tendo como referência a experiência de outros países, os resultados nem sempre foram os melhores. O empresário Carlos Cunha, outro ‘debatente’ na Tv Zimbo, considera que o bom é que houve o “bom senso de se parar o processo para corrigir”. “Neste momento estou mais preocupado em ater ao futuro”, referiu o empresário. Segundo o mesmo, a sua contribuição esta sintetizada em um manual e já foi apresentada.

Definir com clareza uma estratégia dos objectivos pretendemos com a distribuição deste gado, efectuar um diagnóstico no Sul de Angola para a distribuição dos bovinos em fazendas estruturadas que apesar da seca mantiveram sempre um bom desempenho e capacidade para receber gado, uma avaliação prévia das fazendas e respeitar resultados deste critério na afectação, distribuir a quantidade de efectivos animais de acordo a capacidade do beneficiado e priorizar o critério histórico quanto a capacidade anterior do beneficiado, são algumas das propostas defendidas por Carlos Cunha, no debate.

A afectação dos animais às famílias, que teriam de ser incentivadas a criar condições prévias, só aconteceria depois dos bovinos serem “estabilizados nas fazendas âncoras”, numa operação de auxílio ao Governo mediante um plano de distribuição. Os beneficiários finais retribuiriam o incentivo de forma proporcional, ou seja, deviam devolver a cada uma das cabeças recebidas com outra igual, durante um programa de reprodução. Propõe ainda a possibilidade de considerar um macho por cada 25 fêmeas e embarque, e realizar a distribuição durante o período das chuvas (Janeiro a Fevereiro) ou de Maio a Setembro.

“Não é nossa função dizer o que é que o Governo tem de fazer. A nossa função é recomendar e concertar. Infelizmente nem tudo correu como tínhamos concertado”, frisou o empresário tendo defendido que para o sucesso da “Operação gado do Tchad terá de haver uma concertação entre Governo e classe empresarial. Ainda bem que só tivemos problemas com 5%. Temos que aproveitar melhor os restantes 95 por cento”, concluiu.

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