Estufadores reanimam negócio sob elevados custos da matéria-prima

Numa altura em que os profissionais do ramo veem a sua clientela de volta, por conta da decretada situação de calamidade, deparam-se com a subida dos preços da matériaprima para o conserto ou fabrico de “cadeirão”, camas e bancos de carro

Por:Alberto Bambi

Alguns estufadores e vendedores de mobílias dos municípios de Belas, Talatona e Luanda manifestaram a OPAÍS a sua alegria, por voltarem a ver os seus produtos comprados, embora não tenham escondido alguma preocupação motivada pela subida dos preços da matéria-prima. Trata-se, essencialmente, de cola, prego, esponja, madeira e napa, que, segundo os estufadores, estão agora a ser comercializados ao dobro ou triplo dos preços anteriores. “Estamos felizes porque os clientes voltaram a comprar e a mandar reparar os seus sofás, cadeiras, banco e camas, mas os preços da napa subiram de mil para 2 mil Kwanzas, de 5 para 8 ou 10 mil e até a cola e os pregos estão a custar três vezes mais”, detalhou Mavanga David ou mestre Enoque, como é tratado na zona do autódromo de Luanda, onde trabalha desde 2015.

Segundo contou Mestre Enoque, antes de se decretar a situação de calamidade, ele e alguns colegas de ofício que lidam normalmente consigo se viram a braços para atender o seu plano de sustentabilidade familiar. Uma das alternativas que encontraram para aliviar o sufoco imposto pelas circunstâncias foi disponibilizar-se a prestar trabalhos ao domicílio, ao ponto de submeterem a pagamentos posteriores. Quem também disse ter passado por igual situação foi o Nambi Zacarias ou mestre Nuno, que actua no bairro Catinton, distrito urbano da Maianga, município de Luanda. Ele assegurou que lhe valeram as amizades com os clientes para sacudir o mau momento financeiro que o Estado de emergência impôs ao seu ofício e negócio, nessa altura teoricamente proibidos.

“Como nós temos amizade com os clientes, isso é que nos favoreceu a ganhar algum dinheiro em Abril, Maio e Junho. Senão, estaríamos muito mal”, disse Mestre Nuno, tendo revelado que alguns colegas de ofício tiveram de arranjar outros afazeres. Os serviços mais solicitados pelos fregueses eram a troca de forro ou esponja e reestruturação das bases de madeira. Relatou que a autorização do regresso às actividades de manufaturação de mobílias animou os profissionais da sua classe, mas essa alegria durou pouco tempo, porque quando se meteram a caminho da aquisição da matéria-prima, se depararam com a subida considerável.

Curiosamente, na Terç-afeira, 1 de Setembro dessa entrevista, acabava de desistir da compra de napa-cabedal numa loja da zona da Fábrica de Tabacos Unificados (FTU), no Rangel). Nambi Zacarias falou sobre os preços estipulados ao triplo das anteriores cifras de 800 e três mil e 500 Kwanzas, respectivamente, por cada metro quadrado de napa normal e do tipo cabedal. Embora conheça outras lojas, próximas da sua oficina, onde o produto fica mais barato, ele prefere recorrer à que citou devido à qualidade que considera inquestionável. Pela zona onde opera, Nambi Zacaria prefere fabricar já os cadeirões a contar com o bolso de pessoas de renda baixa e média, a esperar por encomendas. Por esse paradigma, mestre Nuno tem conseguido vender um cadeirão de napa normal a 80 mil. Ele informou que esse preço tem a ver com a subida do custo da matéria-prima.

Proximidade de mercado diminui custos

Neste capítulo, Jorge Francisco, de 48 anos de idade, com 12 dedicados ao ofício, atestou que por trabalhar próximo de um mercado, está impedido de praticar preços muito altos para não perder na concorrência com os mercadores da chamada Praça Nova do bairro Mundial. “Não posso arriscar em fazer uma obra usando napa-cabedal, porque está muito cara e o pessoal daqui dificilmente vai comprar. Se o cliente se disponibilizar a comprá-lo, e trazer para encomendar um sofá com esse material, aí sim, eu altero a minha decisão”, desabafou o estufador, Adiantou que adquiria a napa e a cola no casco urbano, mas actualmente tem de o fazer nas lojas do Benfica, Golfe 2 e na área do Gamek se tornaram muito difíceis. Relativamente aos momentos amargos que viveu durante os meses de Abril, Maio e Junho, começou por referi que não acreditava que estufador algum tenha sobrevivido ao que classificou de estiagem.

À semelhança de Mavanga David e outros entrevistados deste jornal, Jorge Francisco louvou o grau de amizade estabelecido com os seus compradores habituais. “A clientela não aparecia para nada. Nós conseguíamos sobreviver do pouco que conseguíamos, porque os armazéns onde comprávamos o material estava fechado. Então, durante o período de estado de emergência tivemos de trabalhar com as poucas reservas”, informou. Para ele, as actividades voltaram ao rendimento normal no fim de Julho e, mesmo assim, a classe não se pode dar de contente, porque as adversidades que o mercado proporcionou, obrigaram os estufadores a subirem os preços das mobílias, que, nessa altura, não constitui prioridade para muitas famílias.

Louvada opção no nacional Alan Berttrand é um estufador que actua na zona do Capolo I, município do Kilamba Kiaxi. Ele disse ter passado por quase todas as situações anormais que os seus colegas narraram Mas louva o facto de os angolanos terem voltado a preferir mobílias fabricadas em Angola e com material local. “Porque quanto mais cidadãos tomarem essa decisão, mas nós vamos tendo aceitação e clientela”, declarou o mestre Berttrand, para quem o confinamento também forçou nas famílias o uso regular e incomum dos cadeirões, cadeiras estufadas e das camas, ao ponto de, actualmente, merecerem restauro.

Aliás, isso foi notório na constatação que a nossa equipa de reportagem fez no seu atelier, onde estavam arrumadas cadeiras e sofás com a cobertura de napa rasgada e esponjas visivelmente desestufadas. Quanto aos custos, disse que se trata de alterações normais de um mercado de concorrência contra a qual os produtores de mobiliário não se podem opor. “Passei também a pedir aos clientes que solicitam cadeirões com qualidade mais avançada a comprarem as napas para pagarem apenas a mão-deobra”, revelou Alan Berttrand, que confessou ter visto nessa medida razão para não abandonar o domínio de parte do que aprendeu e gosta de fazer.

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