“A Covid-19 tirou-nos o emprego”

Desde Março, altura que começamos a registar os primeiros casos de Covid-19 em Angola, até Julho, 7 mil angolanos ficaram desempregados, segundo o Ministério da Administração Pública Emprego e Segurança Social, e o número poderá chegar aos 12 mil. O jornal OPAÍS traz a história de cidadãos que viram perder o emprego por conta da pandemia

Após o anúncio do Estado de Emergência, em finais de Março, muitas empresas, também por conta das restrições do Decreto Presidencial, viram-se obrigadas a encerrar as portas. Algumas conseguiram manter os salários dos funcionários por algum tempo, outras não, e justificaram a falta de clientes, bem como o facto de o funcionário não estar a trabalhar, como é o caso dos colégios privados, por exemplo.

Ouvíamos nos outros países, com número de casos positivos e de morte por Covid superiores aos do nosso, sobre os impactos negativos da doença na economia com particular realce no aumentar de números de desempregados, pelo que Angola não ficou de parte.

Em Julho, a ministra do MAPTESS, Teresa Silva, anunciou na Assembleia Nacional, que 7 mil angolanos perderam o emprego desde Março de 2020 e, como se não bastasse, este número poderá aumentar para 12 mil cidadãos.

Entre os mais de 7 mil cidadãos desempregados está Mpheio Bento, que até antes da Covid-19 era professor no Colégio MEPA, e hoje para conseguir manter a sustentabilidade da família desdobra- se fazendo serviço de táxi. “Desde Março, até ao momento, as coisas têm vindo a agravar-se”, reconheceu.

Mpheio trabalha há três anos no referido colégio e era a sua única fonte de rendimentos, por isso, nos primeiros “meses de aperto” dependia da família. Embora esteja a fazer serviço de táxi, não tem um carro nem lhe foi atribuído um, depende dos amigos que lhe cedem lugar – o que chamam de “falida”. Não se ganha muito mas tem servido para pôr comida em casa.

198 mil trabalhadores só no ensino privado

Recorda-se que sobre o sector em que trabalha Mpheio, o presidente da ANEP (Associação Nacional do Ensino Privado), António Pacavira, em entrevista ao jornal OPAÍS, dissera que, por estarem encerradas as creches, jardins-de- infância, colégios e complexos escolares ao nível nacional vão despedir no total 198 mil trabalhadores, entre professores, funcionários administrativos, vigilantes e empregados de limpeza.

No mesmo diapasão, ainda em entrevista ao OPAÍS, alinhou o coordenador da comissão instaladora da Associação Nacional dos Professores do Ensino Privado (ANPEP), Carlos Conceição, tendo dito que a situação é mais crítica para os professores do interior do país, com realce para as províncias de Benguela, Huíla, Huambo, Cabinda, Namibe e Moxico onde se registam maiores incumprimentos por parte dos colégios.

Explicou que muitos professores se encontram em situação lastimável, alguns dos quais já venderam os seus bens pessoais, como computadores e televisores, para comprarem mantimentos.

“Estamos a falar de pessoas intelectuais, licenciadas que estão a passar necessidades. Isto não dá valor nem transmite confiança. É vergonhoso e até desincentiva as pessoas que no futuro querem estudar, porque descredibiliza quem perdeu grande parte da sua vida dedicando-se à  formação”, lamentou.

Empresas que não fecharam também diminuíram o pessoal

Nem todas as empresas encerraram temporariamente por conta da Covid, mas as que não assim procederam tiveram limitações na produção de bens e serviços, em particular os não essenciais, bem como restrições na circulação.

A jovem Madalena Manuel, de 28 anos, é uma das pessoas que viu rescindido o contrato com a empresa de entregas Tupuca, por conta da Covid-19. Trabalhava como personal shopper e, quando se esperava que pelo facto de maior parte das pessoas ficarem em casa os serviços de entregas ao domicílio não seria afectado pela Covid, foi surpreendida com o processo de redução de pessoal.

Normalmente, o seu trabalho, personal shopper, consiste em acusar a recepção dos pedidos feitos via aplicativo, fazer a compra dos artigos, organizar e entregar aos colegas que chamam de Tupuquinha (motoboy) ou Tupucar (entregador que usa o carro), para que faça a entrega ao cliente.

Segundo nos conta, a sua rescisão contratual foi antecedida de uma suspensão temporária, porque, na altura, a prorrogação do Estado de Emergência não permitia a rescisão. Foi indemnizada, tal como os seus outros colegas abrangidos pela mesma medida, e neste momento encontra-se sem emprego, em casa, a cuidar da família.

Na mesma situação, a cuidar da família e a procurar novas oportunidades de emprego, está Benjamim Dias, engenheiro mecânico industrial, que trabalhava numa das fábricas localizadas no Bom Jesus responsáveis pela embalagem das marcas Sumol, Compal entre outras bebidas.

Mesmo antes da Covid a empresa já estava a ter dificuldades de importar os produtos, situação que veio agravar-se com a chegada da pandemia no país. Assim, ele e mais 50 colegas receberem a rescisão por mútuo acordo do contrato e, segundo nos disse, há previsões de mais gente ser despedida.

“Nesse momento, a empresa está a trabalhar com pouca gente, preferencialmente os que vivem nas proximidades da fábrica(os natos de Bom Jesus) e desfez-se daqueles que necessitam de transporte para chegarem ao local de trabalho”, acrescenta.

É necessário apontar que, no segundo trimestre de 2020, a taxa de desemprego na população com 15 ou mais anos foi, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), estimada em 32,7%1, sendo de 35,1% para as mulheres e 30,0% para os homens (diferença de 5,1 pontos percentuais).

A taxa de desemprego na área urbana (46,6%) é de cerca de 3 vezes superior à da área rural (14,7%), com uma diferença de 31,9 pontos percentuais. A taxa de desemprego nos jovens com 15-24 anos situou-se em 50,8%, não apresentando diferenças significativas entre as mulheres (51,0%) e os homens (50,5%). Este estudo foi publicado no mês de Agosto.

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