Agricultores no Dombe dizem que importação de produtos agrícolas desincentivava a produção nacional

Os agricultores no vale do Dombe- Grande, um dos maiores produtores de leguminosas e hortícolas no país, sustentam que a importação desses bens alimentares, por parte do Executivo, desincentivava-os a apostar seriamente na produção, de tal sorte que, às vezes, comprometia investimentos milionários

A actividade agrícola requer paciência e espírito de entrega, porquanto nem sempre se tem retorno dos investimentos feitos, sublinham os agricultores da cintura verde do Dombe- Grande, um dos maiores produtores de tomate, cebola, feijão, pimento, para citar apenas estes. Ou seja, como explicou o agricultor Noé António a O PAÍS, perde-se tanto quanto se ganha.

O agricultor, que se queixa dos custos de produção, tem preparado 10 hectares, onde tem plantado tomate, cebola, feijão, milho, entre outras culturas.

Na altura em que a nossa reportagem se fazia ao local, procedia- se à colheita de quatro hectares de tomate e, no dia seguinte, safar-se-ia, nas mesmas quantidades, a cebola.

Entretanto, Noé teve de fazer investimentos milionários para garantir que os produtos cheguem à mesa do cidadão dentro dos padrões de qualidade exigida.

Para cada hectare de tomate, por exemplo, desde o plantio à colheita, Noé diz ter investido 3 milhões de kwanzas, ao passo que para a cebola se viu obrigado a desembolsar pouco mais de 5 milhões. Em relação aos dois hectares de feijão, os custos foram ligeiramente mais baixos, reconhece, na ordem dos 400 mil kz.

O agricultor reclama, igualmente, a falta de energia eléctrica no Dombe-Grande. Para garantir a produção, suportada por 20 funcionários, são gastos, diariamente, 80 litros de combustível que alimentam as moto- bombas de sucção o de água. Havendo, porém, energia eléctrica na vila, aumentar-se-ia os níveis de produção na ordem dos 50%.

“Todos estes investimentos são próprios, o Estado nunca nos ajudou, mas nós, digo-lhe, temos capacidade para produzir. A produção é satisfatória. Temos duas mil caixas de tomate por hectare”, revela, para quem, nos últimos tempos, a produção tende a diminuir devido a uma praga denominada tuta, que vem afectando a cultura do tomate.

Por sua vez, Aldino Fernandes, que tem 4 hectares de produtos hortícolas, defende a necessidade de acompanhamento técnico por parte do Governo, para se proceder a estudos dos solos. O agricultor salienta que o Dombe-Grande, dadas as suas potencialidade, dispõe de condições para produzir, bastando apenas que haja apoio.

Apesar das limitações financeiras, segundo Aldino, no Dombe, produz-se em grande escala e, havendo financiamento, a tendência será duplicar a capacidade, de modo a colmatar o défi ce da importação. “É possível aumentar a produção, nós não temos como parar”, realça.

No entanto, os agricultores explicam que somavam enormes prejuízos, por conta da importação desses produtos do campo. Segundo sustentam, a produção local encarecia em detrimento da importação, daí que enalteçam a iniciativa do Governo de não passar a disponibilizar divisas para a importação de produtos produzidos em grande escala.

Luanda é maior mercado de absorção

Grande parte do que é produzido na cintura verde do Dombe- Grande, com cerca de 10 mil hectares de terra, tem como destino a província de Luanda, embora nesta fase de pandemia torna-se, contudo, difícil para os agricultores colocarem-no no maior mercado de consumo de Angola e, a nível local, não há capacidade para os absorver. “E, em muitos casos, o produto estraga”, disse Noé.

Natália Celeste, comerciante há 20 anos, transportando produtos leguminosos do Dombe- Grande para Luanda, esclarece que, actualmente, o país não tem necessidade de importar esses produtos, uma vez que esta localidade, Kanjala (Lobito), Waku Kungu (Cuanza-Sul) e o Namibe têm capacidade para inundar o mercado desses produtos, sugerindo, nesta perspectiva, mais investimentos nos homens do campo, por via de financiamentos bancários, de modo a que os seus fornecedores aumentem, consideravelmente, os níveis de produção.

Quem comunga da mesma opinião é Margarida Epalanga, residente no Huambo, mas que há 5 anos se desloca com regularidade ao Dombe para a compra de feijão para revenda em Luanda.

A comerciante, que na altura carregava 5 toneladas de feijão no quintalão Chikulututu, parte da produção de Noé, sugere que as divisas ora poupadas com a importação de produtos se reflicta positivamente no fomento à produção em zonas potencialmente agrícolas.

Factores impeditivos de produção

Um dos maiores problemas dos agricultores no Dombe-Grande prende-se, essencialmente, com a falta de energia eléctrica na localidade, um factor que se tem assumido como impeditivo para aumentar os níveis de produção.

Neste sentido, caso o Executivo quiser levar avante essa ideia de deixar de importar, segundo sugerem os agricultores, terá de, efectivamente, investir no sector energético, que aparenta estar esquecido, uma vez que o Dombe-Grande não se beneficia de energia eléctrica da rede pública e é abastecida por grupos de geradores.

Consciente deste factor descrito como impeditivo por agricultores, o administrador comunal do Dombe-Grande revelou a O PAÍS que, para se inverter o quadro, se prevêem ligações a partir da subestação na sede municipal da Baía-Farta, que, além da comuna da Equimina, vai, igualmente, abranger a região sob sua jurisdição, embora Edgar Fernando Baptista não saiba exactamente quando é que tal desiderato se deverá materializar. “Não posso garantir que é hoje nem amanhã, tendo em conta a situação financeira do país”, frisou.

Não fosse a denominada praga “tuta” a dificultar produção de tomate, segundo o administrador, os agricultores aumentariam consideravelmente os níveis de produção, mas, apesar disso, realça que o tomate é, deveras, a marca da sua comuna “Há tempos idos, esta produção rondava aí os 4500 a 5.000 toneladas por ano, mas hoje estes números baixaram devido à praga e os nossos agricultores não têm tido respostas suficientes para o combate à tuta”, considera o administrador do Dombe- Grande, município da Baía-Farta, que dista a 60 quilómetros  da sede da província de Benguela.

POR: Constantino Eduardo, em Benguela

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