Higienizemos as nossas bebidas

Reza a história que nos primórdios da Angola independente, quando os médicos ainda não morriam de COVID, cada ano civil teria um lema, como foi “o ano da agricultura” em 1978. A estratégia visava levar todos os sectores sociais a convergirem acções, ao seu nível, para o alcance das metas preconizadas.

Parece-me oportuno maximizar o enquadramento das bebidas no programa nutricional do país e valorizá-las no âmbito das abordagens sobre elevação cultural, produção nacional, diversificação da economia, promoção do auto-sustento, e afins.

Hoje, consigo divisar um hipotético “ano da indústria”, um “ano da nutrição”, o “da educação”, e outros. Neste espírito, proponho 2021 com “Ano das Bebidas Angolanas” (Ma ruvo, Mandjenvo, Quissângua, Kitoto; Sumo de múkua, de gajaja, de tamarindo, de loengo; bananal, Chá de bulukuto, água de nascente, e não so).

O passo prévio é higienizar as bebidas caseiras ou tradicionais nas nossas consciências; torná-las puras, límpidas e presentes nos nossos comentários, argumentos e eventos, respectivamente, para alterar o espectro de maldade de que elas se revestem.

O que é “nosso” tem de ter, para nós mesmos, mais valor do que o de qualquer parte do mundo. Não é só uma questão de orgulho. É uma forma de ser e de estar entre os outros, pois, quem não valoriza o que é seu, perde o seu próprio valor diante dos outros.

É equívoco nosso aceitar a ideia de que as bebidas caseiras são sujas e fazem mal à saúde, impelindo-nos a abrir portas e aplausos para o que vem d’além-mar, como se de lá tudo viesse perfeito e salutar. Só que não. De lá, chegam-nos também produtos cancerígenos, entorpecentes, anabolizantes, portanto, drogas.

No âmbito do programa nacional de nutrição, que para mim é de tão nobre importância quanto o programa nacional de vacinação, é prioritário levar ao domínio das famílias, de forma ensurdecedora, as propriedades nutricionais, e até terapêuticas, das frutas e caules com os quais produzimos os sumos, sucos ou cocktails.

Sabendo bem a composição do cajú, do maboque, da pitanga, da gajaja, e das outras frutas que são produzidas localmente (e perdem-se mesmo ai, nas zonas de produção, por falta de estradas em condições), teremos maior motivação para substituir as cidras por bebidas naturais e não menos refrescantes.

Estou convicto que, no plano da valorização cultural, grande parte das bebidas caseiras não são valorizadas nem apontadas como nutritivas, e culturalmente importantes, além de serem fonte de sustento para algumas famílias – muitos barrigudos de hoje foram criados com o dinheiro da venda da kissângua.

Se cremos que somos um povo soberano de Cabinda ao Cunene, do mar ao Leste, então, tem que ser objectivo primário dignificar e valorizar cada tipo de bebida produzida localmente, primeiro ali onde ela é típica, e levá-la então ao convívio das outras culturas.

Para ser mais claro: os do norte têm de conhecer as bebidas do sul, e os do leste, as das províncias costeiras. Não podemos nos contentar que os mumuilas não conheçam ou desdenhem as bebidas tradicionais dos axiluandas e os que falam ibinda desconheçam os sumos predilectos dos que falam tchokwe – Em quanto isso, patriotas desfilam vinhos, às vezes feitos de uvas esmagadas com os pés, e aguardentes engarrafadas sei lá onde.

Não sendo apologista do consumo, mesmo o moderado, das bebidas espirituosas, não me inibo de defender o caporroto perante os nossos compatriotas que o ignoram, mas são consumidores de “cachaça” e “aguardente” importadas – bebem maruvo às escondidas.

É benéfico intensificar a produção de bebidas locais ou caseiras, em ambiente higienizado e de forma cientificamente orientada, e vê-las a concorrer com as bebidas exógenas que são comercialmente mais atractivas. Não ter como preferência o que nos pertence, é até arriscar a nossa SOBERANIA e a grandeza da nossa cultura.

Precisa-se pelejar contra os baixos níveis de literacia e a pobreza; isso propiciará a higienização / modernizar, dos alambiques. É provável que os meios de produção, geralmente sujos com um aspecto velho, podem ser consequência da pobreza. Este é um mal que parece ser factor de somenos importância para muitos actores da sociedade.

Assim como hoje lutamos contra os médicos que circulam na via pública sem máscaras cirúrgicas, é oportuno levantar uma luta contra tudo o que vem provocar desvalor pelo que é nosso. Não precisamos depender de ninguém pra termos sempre à mão uma bebida nutritiva.

POR: Manuel Cabral

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