Siona Casimiro: ‘Os egos dos líderes estiveram na base da inexistência de união entre os movimentos de libertação’

Jornalista de profi ssão, Siona Casimiro é tido como o decano dos jornalistas angolanos. Aos 76 anos de idade mantém viva a sua participação na Emissora Católica de Angola, depois de ter estado ao serviço do Apostolado. Filho de pais oriundos do Cuimba, no Zaire, o jornalista nasceu em Matadi, sede provincial do Baixo Congo. É autor do livro ‘Maquis e arredores- Memórias do jornalismo que acompanhou a luta de libertação nacional’, onde relata a participação directa dos jornalistas no processo e as vivências com Holden Roberto, Agostinho Neto e Jonas Savimbi. Desde sempre acreditou na independência de Angola, embora hoje se encontre agastado com o Estado do país 45 anos depois

Descreveu o período de 1961-1975 como sendo o ‘mais frescamente épico da pátria’, no livro Maquis e Arredores. Ainda se lembra?

Absolutamente, como autor.

Era frescamente épico enquanto jornalista ou como cidadão?

As duas coisas. Tive uma vida de jornalista e activista militante.

Como é que o militante do MPLA Siona Casimiro via a situação, assim como o jornalista Gigi Siona?

O jornalista acompanhava escrevendo artigos de que deixei memória. O militante participava na vida política da sua força política na altura. Quer de forma clandestina dado o momento que o seu partido não estava em santidade no país de exílio, quer activamente a partir do momento que já estou em Brazaville.

Qual era o sentimento das pessoas em relação à independência e ao MPLA?

O sentimento era de ânsia para que o país ficasse livre e tivéssemos a oportunidade de fazer a diferença com aquilo que víamos nos países de imigração e de exílio. Era um exílio para uma grande parte dos combatentes e comunidade angolana que se fixou demoradamente nos dois países. Portanto, a exaltação da valência da independência era um elemento predominante.

Como eram encarados os angolanos no Congo?

Primeiro, simpaticamente. Acho que em termos culturais e reacções sentimentais, os congoleses e angolanos não se nota fisicamente. Talvez só falando, se usar o português ou algumas línguas mais em circulação do nosso lado, porque lá onde se domina o lingala – e uma certa elite o francês -, a situação foi aproveitada também pelos nossos próprios movimentos de libertação. Daí que foi fácil também sem que se tivesse feito a abolição, tanto para os militantes, porque passa a vida a assumir eternamente as suas convicções.

A própria sociedade que nos acolheu sabia destas diferenças e tinha, igualmente, a reacção emocional geralmente favorável a quem está a ser perseguido. Portanto, foi um bom convívio. Faltam episódios de fratricidas dos nossos chauvinismos de nações que não sabemos mais como são estruturados. A tal nação angolana é mais um sonho acalentado do que uma realidade com substância como é a chinesa, francesa ou alemã. Tivemos até as nossas nações pré-coloniais que se bateram bastante em retirada, mas que estão extremamente fortes nas mentalidades, nas línguas e nas diversas manifestações culturais do homem na sua naturalidade.

O sentimento de ver Angola independente nasce enquanto cidadão ou como homem da caneta?

Ambas as coisas. Eu sou de uma família muito ligada ao nacionalismo angolano e com a singularidade de que ela é o berço da criação deste nacionalismo no ramo da UPA/FNLA. Nasce como pode ver em Matadi, aonde imigramos. O pai praticamente é chamado pelo velho Pinnocky, só mais tarde é que nos instalamos em Kinshasa. Siona Casimiro nasce em 1944, já neste contexto da fermentação das ideias da libertação de Angola.

O meu pai participa numa célebre marcha nos anos 50, em que partiram de Matadi até São Salvador, a reclamar que o rei definisse, claramente, os impostos que eles como imigrantes pagavam. Tinham que pagar impostos ao belga que os empregou e também ao país de origem. Ninguém poderia sair daqui sem ter os documentos que lhes permitisse passar a fronteira e de lá poder chegar para ser empregado. Eles tinham que exibir como angolanos. O meu papa explicou-me que, até aos anos 40, eles eram os preferidos dos belgas como empregados. Havia um conceito de que o melhor cozinheiro, lavadeiro, doméstico, carpinteiro eram os angolanos. Os angolanos aproveitaram-se desta posição.

Por exemplo, o Papa Pinocky chegou a ser o primeiro chefe de um posto de uma estação ferroviária. Conhecendo esta mentalidade dos belgas, chamaram os seus familiares para aproveitarem a oportunidade. Os belgas achavam-nos mais honestos. Eu nasço neste clima emocional de oposição às tergiversações do rei. Eles defendiam que este imposto reverte-se ao rei do Kongo. Foi uma astúcia bastante unificadora de toda uma massa de imigrados lá. Por isso, nasço já com sentimentos nacionalistas mal que chego à adolescência.

O que sabia nesta fase?

Mal entro para a escola e já sabia das reuniões que se estavam a passar lá. Os velhos faziam as reuniões e pensávamos que viemos para aqui (Congo) porque lá em Angola não há condições para nos formarmos. Portanto, já nascemos com um forte sentimento anti-presença portuguesa.

Apesar de ter nascido no seio de pessoas próximas à UPA, sabemos que Siona Casimiro depois envereda para o MPLA. Como foi fazer esta escolha naquele ambiente do Congo?

Foi nos bairros.

O que é que oferecia o MPLA que lhe levou a se afastar da UPA?

Nas actividades culturais. O jovem é um pouco idealista. Na organização dos encontros chega o Mário Pinto de Andrade, os belgas liberais, também andaram a contestar a forma da colonização de discriminar muito os colonizados, e começaram a dar alguma cultura de querer a liberdade. E nós vamos viver num bairro extremamente politizado nos anos 1955 até 1960, onde o velho Holden Roberto, o velho Lumumba viviam. Lumumba assim que ganha as eleições, todos eles voltam e o velho Holden Roberto começa a trabalhar no gabinete dele.

A escolha pelo MPLA foi pacífica em casa? Não foi pacífica, mas compreendido porque também o velho Holden Roberto se tinha afastado de Lumumba. Este acto teve um impacto em todos nós, toda a juventude como os Lukoki, Nsinkalangu. Não gostamos! Mas ele fez porque houve uma tendência que lhe ofereceu a possibilidade de continuação das ajudas para ele. Demarcou-se, mas não gostamos. Entretanto, chegaoMárioPinto de Andrade que começa a organizar palestras. Fez encontros com jovens para explicar a situação.

O Lumumba tinha o seu jornal. Havia um em que começamos. Eu vendi jornal como ardina. Daqueles jornais emancipalistas de um dos velhos que me vai ensinar a escrever num jornal do bairro. Este também é bom, foi à Checoslováquia, o Jean- Jacques Kande, que chegou a ser ministro da Comunicação Social, e o Sakumbi que era o nosso chefe de bairro e da ‘JMPLA’ de Lumumba. Escapou da cadeia porque teve a sorte de ter ido com uma bolsa de estudo a tempo. Quando houve a perseguição dos lumumbistas, ele estava já em Bruxelas como estudante.

Entretanto, a nossa simpatia vai para o MPLA que tinha um discurso anti-imperialista. O velho Holden começou a hesitar em condenar a posição dos americanos na guerra do Vietname face à condenação a favor do ANC. Era a política progressista da altura, naquele contexto atraiu-nos. Há também a minha possibilidade de primeira colaboração no ‘Les Actualite Africans’ e no jornal ‘Courriere de Afrique’, onde faço os estudos e termino o secundário. Todos esses elementos fazem com que me simpatize mais com o MPLA. Era o ambiente no meio estudantil e universitário.

No livro dos ‘Maquis e Arredores’, quando o então jornalista Sam Luval entrevista um desertor da FNLA, já nas bases do MPLA, este se queixa da falta de armas, a origem tribal e a fragilidade das acções nas hostes de Holden Roberto. Estas condições não pesaram para que as pessoas fossem ao MPLA?

Quando Sam Luval publica esta reportagem já sou colaborador do jornal. Quando a edição do jornal chega à universidade desaparece logo. Os promotores desta propaganda eram os estudantes de esquerda.

Mas os factores não influenciaram?

Claro. Aliás, eram em virtude da força desta corrente que a direcção do jornal, na base dos princípios católicos do jornalismo, decide fazer esta reportagem que foi tratada na Alemanha, num encontro em que o camarada Lúcio Lara disse que não temos a possibilidade que tinha o irmão Holden Roberto, mas aquilo que poderem fazer vamos garantir as condições da visita e a realização da reportagem. Mas ela corresponde a uma corrente que existia na opinião pública na divisão da comunidade angolana a satisfazer, porque iam comprar o jornal no dia em que também vissem o que o outro lado, mesmo sem ter a força, está a fazer algo para diminuir a força do português. Embora para nós o lema era unam-se, mas as ambições dos líderes e os seus cálculos pessoais não permitiram.

Quais eram as diferenças entre a FNLA e o MPLA, uma vez que a UNITA chega posteriormente?

Não eram grandes coisas.

Mas no livro relata por exemplo a necessidade de uma união que nunca chegou a acontecer, apesar de todos os movimentos lutarem pela independência?

Os egos dos líderes estiveram na base da inexistência desta união. Chego a esta conclusão hoje em dia, partilhando, portanto, as responsabilidades de forma serena.

O que denotavam Holden Roberto e Agostinho Neto?

Holden Roberto queria mandar. Cheguei à conclusão que ele era um homem íntegro, embora na altura pensássemos através da propaganda que ele esteve a beber, mas ele nem sequer consumia álcool. (Agostinho) Neto é que bebia o seu whisky, mas era íntegro também em relação à gestão dos fundos públicos. Está mais do que demonstrado demonstrado, não tanto pelos seus familiares, mas por ele próprio. Hoje em dia temos que admitir também em relação a Savimbi em termos de probidade face aos fundos públicos.

A convivência entre eles era pacífica?

Quando se encontravam faziam o teatro que se impunha. Quando se assinou aquele documento que Holden Roberto refere até a minha presença, porque na altura já era correspondente da France Press para cobrir o encontro de unidade. Isto vai acentuar também a forma como vão sabotar esta unidade, onde acharemos mais culpas do lado de Holden Roberto que estava na exploração da correlação de forças e da influência de Mobutu, do que Neto que precisava mesmo deste acordo.

Eu estive com Neto como jornalista e como militante. No dia em que se encontraram já não estivemos juntos, mas sim num outro dia, porque tive que respeitar o deadline da France Press, para mandar o grande serviço sobre o acordo de unidade. Antes disso, tinha falado com o Luvualu, Lara e o camarada Zanene, que fez parte também da comitiva. Insitiram muito em dar instruções às estruturas clandestinas para aceder o Norte, porque havia muito desaire no Leste. A única salvação era franquear pelo Norte e atingir a base da primeira região que estava toda isolada.

Nesta fase, Jonas Savimbi já tinha alguma influência?

Tinha, mas uma influência marginal. Ele atravessa uma crise, que refiro no livro, em que Holden Roberto diz até que ele queria voltar.

Na entrevista que Savimbi concedeu, o Horizon 80, diz que tinha tido um encontro pacífico com Holden Roberto. O que se passou?

Ele diz isso em termos de balanço. Já tinham sido aconselhados que a implantação política do MPLA no interior não era uma brincadeira. O próprio Savimbi também reconhecia.

Terá sido um bluff de Savimbi?

Não, ele fazia de verdade. Eu sabia também das pressões que Mobutu sofrera por causa de Holden Roberto, porque se pensava que a unidade com Savimbi iria dar um outro peso face ao crescimento do MPLA. Então, nos seus cálculos fez também esta jogada política.

‘A FNLA sofreu também muito de algum isolamento de Mobutu’

Qual foi o papel dos padrinhos africanos?

Foi bastante determinante. Mobutu então era o mais determinante. Marien Ngouabi menos. Kenneth Kaunda é que tinha mais influência junto de toda a comunidade africana, dos grandes sectores diplomáticos. Esses são os mais importantes porque são limítrofes.

Como estavam os apoios?

Mobutu apoiava fortemente a FNLA. O Marien Ngouabi ao MPLA, também fortemente. O Kenneth Kaunda era mais credível em termos de alguma neutralidade positiva, mais em termos de unidade. Embora tivesse alguma afinidade, mas discreta a favor da UNITA. Tinha perfeita consciência de que, na altura, estava militarmente marginal e que a efectiva correlação fosse entre o MPLA, politicamente muito forte, e a FNLA, estrategicamente melhor posicionada, com todo o controlo da fronteira de 2 mil quilómetros e os apoios sem limites de Mobutu. Mas a FNLA sofreu também muito de algum isolamento de Mobutu junto da opinião pública interna e externa.

As organizações afectas a estes partidos, como o CVAAR e o SARA não chocavam, tendo em conta as diferenças entre os seus líderes?

Houve um pouco no Leste durante a enchente, mas não se assistiu muito o choque entre os dois organismos. Eles privilegiavam muito atacar as comunidades de refugiados fugidos de zonas que simpatizavam com esta ou aquela organização. Como a FNLA, de facto, tinha a maioria vindo de lá, vai haver uma imigração política protagonizada por pessoas que depois se tornam grandes actores do MPLA.

Quem são estes actores?

Falo dos Miranda, o Kolokie, Chimuto, Monstro Imortal, até o Nito Alves esteve nos maquis das zonas dominadas mais pela UPA. Só mais tarde é que passa a estar sob predominância do MPLA. O MPLA era umas bolsas um pouco nos Dembos até uma ligação com Catete. Mesmo ali no Cuanza-Norte ou quase todo isolao Norte era a UPA.

O primeiro descrédito que encontramos no MPLA foi quando esta reportagem refere que chega a primeira inspecção da Organização da Unidade Africana (OUA) para ver a nossa força militar. Não tínhamos capacidade nem de mostrar 100 pessoas. Como é que vamos passar a grande dissidência dos adeptos que também vão para o MPLA? Em Nambuangongo também era levantamento da UPA, porque alberga a primeira nação ‘independente’: a República Socialista de Angola.

Como é que se desenvencilhava um jornalista naquele ambiente de luta de libertação?

Dependíamos das fontes, sobretudo de quem nos convidou. Dávamos informações, mas eles não deixam de fazer algumas constatações. Tomávamos nota, fazíamos as perguntas a Neto, mas com esta precariedade se vier a morrer, mas ele dizia que ‘já há alguns jovens que estou a preparar’.

Já se pensava numa transição caso ele morresse?

Dizer assim com este vocábulo no nosso conceito actual de uma transição…

Neto dizia que ‘são estes jovens que nos vão render’. Não se referia a alguém em particular?

Tinha consciência daquela precariedade em que estavam a viver. Tanto ele como o Holden já tinham vivido tantas tentativas de assassinato nos seus gabinetes, quer por manobras da PIDE, geralmente em cumplicidade com alguns nacionais, quer outros. O mais eficiente era a PIDE que até chegou a ocupar a sede do Governo da República de Angola no Exílio (GRAE). Holden teve que fugir em quase toda aquela zona que era do pai do Sebastião Martins, o Kassinda.

A PIDE também seguia na sombra os jornalistas?

Sim. Havia alguns diplomatas. Como sabe são diplomatas, mas alguns ligados já aos serviços no quadro de acordos entre Estados, que admitem que ele vai fazer trabalhos de polícia no meu país.

O Gigi Siona passou por isso?

Claro. Quem lê ou me lia, vê a tentativa do jogo de cintura que faz o jornalista. Pelo menos para gerir a sua figura ou imagem de imparcialidade.

E quando se dá a expulsão da República do Congo?

É a fase que nos obrigou a esta clandestinidade.

Não esmoreceu um pouco o sentimento?

Pelo contrário, porque tínhamos até as melhores fontes sobre o que se passava. Havia muitos comunicados. O velho que lá estava, principalmente o Dombele, o Luavualu, que sai mais tarde, ficamos com o Mbidi. Depois dos maquis de Cabinda, vamos fazer a reportagem que começa por Nambuangongo e todo o trajecto é delineado com os dirigentes clandestinos do MPLA.

Qual é a influência jogada pelos programas radiofónicos ‘Angola Combatente’, do MPLA, e ‘Angola Livre’, da FNLA’?

Imenso. A hora do noticiário era para seguir. Recordo-me de uma grande discussão no bairro, depois de terminado um jogo de futebol, porque ligaram logo Brazaville por causa de incidente que tinha acontecido. E o Angola Combatente dava a sua versão. A plateia do bairro andou a discutir.

Havia muita diferença entre os dois programas?

Nitidamente. Essa hostilidade reflectiu- se nas abordagens editoriais explicativas do fenómeno. Um explicava que, mais uma vez, a acção teria sido melhor se tivessem a liberdade que o outro tem de fazer. O outro dava o ponto de situação dos ataques. Mas, às vezes, já obstruíste o outro para não fazer as suas acções. O jornalista tinha muitas vezes que desvendar isso a desgosto de quem não queria.

Como jornalista, quando é que sentiu que Angola seria independente?

Isso é o que nunca duvidei. Até achei que estava a demorar muito. Éramos favoráveis à corrente unificadora. Era real aquilo que Neto disse a Sam Luval, que me contou na altura em que eu era secretário de redacção, numa ajuda, porque o director também era muito rigoroso. Sam contou-me que Neto olhou as luzes de Kinshasa, que ele só poderia ver do outro lado, e disse: ‘Sam, se um dia eu tivesse que lutar a partir daquele lado, daria dois anos e o ngueta ia já sentir’.

Portanto, alguém que nasce no meio nacionalista não tinha a menor hesitação de que iríamos ficar independentes. É o mesmo que se passava aqui como em Brazzaville. Os belgas até fugiram mais cedo, com um pequeno movimento. Claro que a família real tinha um outro pensamento. Salazar teimou, pensava em ficar contra todas adversidades. Os apelos do Papa e toda aquela pujança que exprimiu Cônego Manuel das Neves, que Salazar mandou matar pessoalmente, mas ele era tão radical na reclamação da independência. Nunca nos passou na cabeça que o português se iria eternizar.

Ao acompanhar Alvor, sentia que era algo que iria falhar?

Sim. Na redacção dizíamos: ‘aqui (no Congo) quando os homens fizeram a independência, saíram da mesa redonda de Bruxelas, onde negociaram a independência. No dia em que chegaram a acordo, chamaram todos os músicos deles. Saem de lá todos unidos: Kasavubu, Golikango e Tshombe. Chegam a Kinshasa e começam a fazer comícios, dizendo que acabou os belgas, faltava detalhes, mas o essencial já estava resolvido. O nosso caso, depois de se ter entendido o discurso único, eles saem. Savimbi vai para o Leste, Neto para a Zâmbia, porque não voltou aqui, e Holden Roberto outra vez no Congo, ter com o homem que não lhe deixaria em liberdade para se entender melhor com o irmão.

O mesmo homem que fez fracassar o acordo de unidade, depois de ter chamado a atenção a Holden sobre um princípio que havia. Neto jogou muitíssimo bem: ‘Tu (Holden) vais ficar presidente, mas eu é que vou coordenar os militares’. Isso contam-me já os dois em directo. O Julius Nyerere tinha dito que quem comanda na política é o político. Minimizaram os militares. Foi Mobutu que lhe desperta: ‘estás esquecido que o homem andou a chorar para que abrisse as fronteiras, para poder ter acesso. Agora vai ficar o vice-presidente encarregado das questões militares? Olhe que ele não fica em Kinhasa, mas sim nos maquis. Não viste o que aconteceu a Ben-Bella com Houari Boumedienne? Ben Bella era o político de maior prestígio, mas os maquis estavam com o Boumedienne. Disse: ele vai te golpear. Os Monstros já tinham vindo para criar condições nos maquis centrais para os mwatas. Nos encontros diziam que ele não vem, está a colocar condições, até chegarmos ao momento da independência.

Havia alguma pretensão de Portugal entregar os destinos de Angola ao MPLA, como algumas pessoas dizem até hoje e o próprio Mário Soares desmente numa entrevista ainda na década de 70?

Não. Nunca concordei com esta análise. Acredito mais na sinceridade do próprio Mário Soares. Seria ingenuidade, mas é um bom político. Comprova a sua estatura política e experiência de que tinha nitidamente alguma preferência por Savimbi, mas perante esta resposta – no papel em que ele estava de negociador directo dos movimentos de libertação-, qualquer derrapagem até poderia lhe custar o posto. Ele dá aquela resposta, porque na altura tem que interpretar já na evolução no tempo e no espaço. Era já uma autorização da transição para negociar. Agora não posso deixar de prezar nele um abandono de Angola em forma caótica. O Mário Soares que todas as pessoas conhecem por ter vivido em França, conhecendo como é que as guerras civis depois se prolongam, entendo que tenha tido esta preocupação, mas naquela correlação de forças, na altura, com a corrente pró-comunista a predominar no Movimento das Forças Armadas (MFA) e mesmo no povo português, pela consciência de que os comunistas mais sofreram na repressão contra Salazar, mais do que as correntes socialistas cristãs católicas, determinou a força em que o MPLA mais jogou para encontrar aliança.

O MPLA estava preparado para determinar a independência sozinho?

Eu acho que não. Fizemos porque no dia 11 de Novembro tínhamos que estar. Mas sei das manobras que ele fez posteriormente para abrir aos outros. Daí que estou convicto de que, se Neto fosse vivo, 92 tivesse chegado mais cedo.

‘Savimbi não se tornaria um autêntico democrata na gestão do poder’

Como é que se dá o regresso a Angola?

Eu volto por Brazzaville. Espero a posição do partido e da direcção. Dizem que Kafuxi vai regressar mais cedo e que o programa em francês deveria continuar. E o Siona tem que ficar ainda na sede do Angola Combatente. Passo a funcionar lá e a redigir um boletim de informação para as missões diplomáticas que estavam lá. Não tínhamos desbloqueado ainda o maquis de Cabinda. Estava lá o Margoso. Depois recebi a missão de ir para lá. Fomos a Brazzaville e saímos no mesmo dia. Agostinho Neto assinou a nossa guia de marcha para voltarmos no mesmo dia. Eu, o José Eduardo dos Santos, Diandengue, Mankenda Ambroise. O Dos Santos veio com alguns jornalistas estrangeiros até Cabinda. Nós ficamos, trabalhamos um pouco no Departamento de Informação e Propaganda (DIP) de Cabinda e depois aqui no DIP do MPLA em Luanda.

Como é que foi recebido o grupo proveniente do Congo?

Foi acompanhado entusiasticamente as peripécias da recepção à independência. O nosso programa voltou a ser novamente seguido. Inclusive, os quadros que pretendiam regressar já não tinham muito receio. Pronto, havia um enquadramento necessário, cada um de acordo com as suas características.

Foram recebidos como a diáspora portuguesa?

Não, foi diferente. O nosso regresso foi mais político e aquele foi massivo. Chego depois de uma vivência de uns dias na sede da UNTA que foi atacada pela FNLA, no Departamento de Organização e Mobilização (DOM), naquela acção que levou à morte Nelito Soares no Bairro Popular e uma fase aguerrida correspondente à guerrilha urbana que decretou os camaradas da direcção militar. Dormíamos em casas móveis com os camaradas Nlanvu e Kiala. Fomos obedecendo a uma plano em que tínhamos que esperar por um emissário a noite que nos indicava o lugar em que iríamos passar a noite. Isso era feito dentro da estratégia da guerrilha urbana face à hostilidade prevalecente da FNLA e também do saudosista português. Não demora muito e começam a distribuir as casas disponibilizadas pelos portugueses. E recebo a casa da Vila Alice.

Passados 45 anos, faria tudo e novo?

Sim e não.

O que faria?

O envolvimento pela independência sim, regionalismo também. Mas o envolvimento partidário já não.

Quais são as razões?

Impede o distanciamento suficiente e sereno dos actores. Neste momento posso avaliar com alguma probidade Holden Roberto. Um homem, parente e detestado depois. Neto foi idolatrado e hoje em dia tenho que ter em conta as versões de quem se aproximou dele e não deixam de ser realidade.

E sobre Jonas Savimbi?

Quando sai do partido já poderia analisar todos os dirigentes. Posso avaliar a contribuição de Savimbi para que houvesse democracia no país, mas embora sem o propósito de ele vir a partilhar mesmo como um autêntico democrata. Pelo menos tinha a noção do que significava democracia a partir da formação.

Não era um autêntico democrata?

Não se tornaria um autêntico democrata na gestão do poder pela forte personalidade que ele tinha. A entourage não teria a generosidade individual que iria permitir dizer, por exemplo, que agora é democracia e fazer a alternância do poder. Iria cair também no culto da personalidade. Há sempre uma astúcia aí com os bajuladores de todo o estilo que encontras para justificar que se prolongue um pouco o mandato. É como o Ouatarra, que passou pela Sorbornne, e conhece o que é democracia. Mas quando o poder chega, acabas de democrata para ditador. Agora, na actividade histórica, a oposição violenta que ele fez nos obrigou até a rever uma constituição. Rever a constituir é rever o compromisso com uma outra ordem.

Como é que o país está hoje?

Mal. Objectivamente mal. Fracasso generalizado. O custo de vida está pior.

E o MPLA?

Está mal, assim como o país. Num artigo que escrevo evoco a agradável indicação da nossa invulgar jornalista ao chegar ao topo da idosa OMA.

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