Pós- Sílvio Dala

A cada dia que passa é mais difícil perceber os angolanos. É muita capacidade de criação que faz com que muitas vezes não se consegue perceber o fio. Há dias um médico acabou morto supostamente na sequência de maus-tratos sofridos durante uma abordagem por não ter usado máscara dentro do seu automóvel.

Quis o destino, o azar e a presumível impreparação de alguns agentes da Polícia Nacional que o nome de Sílvio Dala ficasse associado a este momento, correndo o risco de ser martirizado por determinados sectores cívicos e políticos.

Não se pretende com isso menosprezar as outras vítimas que perderam a vida nas mesmas circunstâncias ou até pior. O certo é que, desde ontem, há uma fase pós-Covid ditada pela partida trágica do médico do Cuanza-Norte. É a ele que será atribuído o ‘mérito’ por se ter levantado esta ‘cerca facial’ que muitos angolanos viviam isoladamente no interior das suas viaturas.

O caso Sílvio Dala foi, sim, uma situação anómala. Não tem sido regra. Mas contribuiu para que o Executivo decidisse abolir o uso do adereço no interior de carros quando se estiver sozinho. A partir de hoje, em todo o país, os automobilistas poderão circular sem a bendita máscara quando estiverem sozinhos. Mas não se pode descurar a vigilância quanto aos que estiverem acompanhados nas respectivas viaturas.

O mesmo se pode dizer dos transportes públicos. Os condutores e passageiros devem se fazer acompanhar da peça devido aos sérios riscos de contágio que podem ainda ocorrer.

Tal como se vaticinava, ontem mesmo já houve quem tivesse percebido mal a informação passada pelo ministro de Estado e Chefe da Casa Civil do Presidente da República, Adão de Almeida.

A nossa heterogeneidade permite-nos sempre produzir diversas formas de interpretação. O alívio passou a ser interpretado em determinados sectores da população como uma liberalização geral.

As imagens e vídeos postos a circular ontem, com danças e cânticos à mistura, demonstram uma população que pensa ter recebido alforria sobre a utilização de um meio que é tão-somente o mais usado em todo o mundo para a prevenção contra a doença.

A melhor forma de se honrar Sílvio Dala não é só apupar o Executivo e amaldiçoar os supostos agentes que terão estado implicados na morte do profissional de Saúde. A justiça encarregar-se-á deles. Honrá-lo é, sobretudo, fazer com que esta liberdade, provavelmente regada com sangue, sirva de incentivo para que se salvem as outras vidas que ainda dependem do uso do referido “adorno”.

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