Se a diáspora angolana fosse suficientemente valorizada

Num país onde os Sobas ainda se vestem com uniformes e quépis coloniais, onde os detentores e representantes da ancestralidade são obrigados a expressar-se na língua colonial (que não dominam) quando se encontram com representantes do Estado, a experiência da diáspora, que se confrontou com a sua africanidade e que a valoriza, pode ser útil. E num país como o nosso, onde surgem histórias abracadabrescas todos os dias; trapaça, desfalque, roubo à maneira de Al Capone, que repetidamente atinge famílias sagradas ontem e ainda hoje veneradas por alguns, a experiência inegável da diáspora pode realmente ser útil. Pois, ontem o Luanda Leaks foi provocado por uma filha da família Dos Santos, hoje é São Vicente, genro do Presidente Neto, que por sua vez veio macular este outro nome sagrado, o do homem que proclamou a nossa Independência, o que deu início ao caso agora denominado Catete Leaks. Basicamente, essas duas famílias estão por trás de um dos maiores saques de um país que o mundo já viu; dividiram-se Angola em grandes pedaços exclusivos. Cada família tinha os seus próprios monopólios e rendas mal ocultadas, um pouco como se faria com a sua própria lavra. O Luanda Leaks diz respeito à filha de um santo famoso, o Catete Leaks diz respeito a um santo menos conhecido mas santo na mesma, que também é genro do nosso primeiro presidente, o sagrado Agostinho Neto. E diz-se ainda, aqui e ali, que a formação do capital roubado nestes dois casos foi facilitada por José Eduardo dos Santos, que é o pai da senhora do Luanda Leaks e o maior dos santos que Angola tem. Bem, este país realmente tem santos estranhos!

Obviamente, não estou a afirmar que se a diáspora, que vive no Ocidente, fosse suficientemente valorizada, não teríamos histórias de crime organizado como as que acabo de mencionar. Mas digo que a sua experiência talvez pudesse ter ajudado a evitar certos erros, porque ela vive em mundos onde o rigor moral e a hipocrisia capitalista não permitem fazer o que se faz em Angola. Por exemplo, ainda que o número seja inferior ao de outros países africanos, dado que os angolanos não sabem realmente ir muito mais longe do que Portugal, um país atrasado e racista aliás, ainda se encontra na diáspora pessoas altamente qualificadas, e até peritos, internacionalmente reconhecidas em questões financeiras e bancárias. Então, se realmente se quisesse, esses profissionais poderiam aconselhar o nosso país nas suas relações com o astuto mundo financeiro ocidental. Sem dúvida, teríamos evitado as incríveis situações que continuam a manchar a imagem do nosso país no mundo. Mas evita-se trabalhar com pessoas competentes da diáspora nos “grandes negócios” que dizem respeito ao país. Primeiro, por medo de demonstrar a sua incompetência, mas sobretudo por medo de expor o voraz lado negociata que favorece o enriquecimento pessoal e que sacrifica os interesses do país. Essa cultura está tão arraigada que quando se usa uma competência indispensável de um profissional da diáspora é principalmente para esse propósito. Usa-se e explora-se essa pessoa com sutileza, até tenta-se roubar as suas relações pessoais e profissionais, criando intrigas contra ela, pouco antes de pedir-lhe que não participe mais nas reuniões decisivas que ela terá imaginado, elaborado e conduzido até aí. Em suma, quando não se precisa mais dessa pessoa, cria-se todo tipo de situação para se livrar dela e até se tenta não pagar o pouco que se lhe deve. Mas o Falcone e os seus amigos, além de serem pagos generosamente, foram sobretudo tratados com todo o respeito e participaram em todas as reuniões que organizaram e que conduziram o país onde está hoje. E por trás orgulha- se de ter despedido um angolano mais competente do que o Falcone e que teria trazido mais para o país se lho tivessem permitido. Gaba-se depois da sua amizade com o Presidente, a quem se pode dizer o que se quer, porque se tem a sua confiança e protecção, e no fim não se constrói nada honorável. E mesmo assim continua- se a orgulhar-se da sua baixeza…

É essa falta de inteligência combinada com um ego sobredimensionado que nos impede de alcançar a excelência. Mas a China tornou-se o que ela é graças à sua capacidade de trabalhar com a sua diáspora. É antes de tudo à sua experiente diáspora que se dirige em cada país para construir a sua relação com o mundo. E é por ela valorizar o seu povo que vemos chineses em praticamente todas as áreas estratégicas de todos os países importantes do mundo. A China não deixa nos corredores chineses que fizeram todo o trabalho que é tema de uma reunião, e não cria intrigas contra os seus talentos úteis. Na França, já são gerentes de banco. Na Grã-Bretanha, proprietários de grandes lojas. Nos Estados Unidos, presidentes de empresas de telecomunicações. E o que faz o nosso país? Dirige-se a “amigos”, e não necessariamente aos mais competentes e legítimos, e hoje nos encontramos com um país exangue sob a orientação desses “amigos”.

São também esses “amigos” que aconselharam o actual Presidente a se expor numa revista francesa de extrema-direita já condenada por racismo em França, o que surpreendeu a todos inclusive aos racistas! E então surpreendemo- nos por ver que em Portugal se discrimina angolanos quando o nosso próprio país não os valoriza? Se a diáspora desperta tanta desconfiança, é porque está suficientemente longe de África para ter a perspectiva necessária e está perto dela o suficiente para se preocupar genuinamente com o seu destino. Portanto, é temida pelos governantes porque tem um olhar mais exigente nas coisas. Mesmo que a diáspora não seja um todo homogéneo, é, com vontade, extremamente fácil identificar elementos que podem ser rapidamente úteis ao nosso país. Porque muitos daqueles que querem mobilizar-se em benefício de Angola são movidos por um sentimento de dever e pelo orgulho.

E alguns até teriam mais a perder nesta aventura, como o caso de Blaise Matuidi, que fui buscar e convencer quando jogava no Saint-Etienne e que queria integrar a selecção nacional! São precisamente estes que são afastados, que assustam mais porque não se deixam manipular facilmente e não entram na famosa filosofia que afirma desavergonhadamente que “em Angola ninguém vive do seu salário”. Os profissionais da diáspora geralmente operam dentro de estruturas mais rigorosas no que diz respeito à ética e profissionalismo. Então trariam aquele profissionalismo e espírito que também ajudariam a combater a cultura da corrupção. Isso viria a fortalecer os milhares de angolanos honestos do país, servidores do Estado ou não, que também querem ter um país digno desse nome. O efeito espelho impõe um questionamento de si, uma crítica e ao mesmo tempo uma necessidade de adoptar novos comportamentos.

O meu trabalho como headhunter exige que eu tenha um rastreamento actualizado de talentos globais. Pude assim aconselhar empresas multinacionais, que me confiam, talentos angolanos de alto nível, em Angola e fora, para funções de direcção geral, em particular. Alguns clientes ficaram cépticos no início, por hábito ou talvez por racismo. Mas, uma vez recrutados, esses profissionais mostram rapidamente que são mais competentes do que muitos brancos a quem reportavam até aí e os seus empregadores vêm dizer-me isso! Assim, para quebrar este tecto de vidro, o Estado, que é o maior empregador do país e que realiza projectos que exigem um olhar apaixonado por Angola, deve aprender a valorizar a sua diáspora, associandoa, sem medo, ao desenvolvimento do país. Para isso, seria sensato identificar os talentos angolanos na diáspora para o benefício do país e esse trabalho deve ser feito por uma entidade independente. Pois, quando se trata de Angola, política e egos não devem contar.

POR: Ricardo Vita

 

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