O homem e a besta

Um dia, voltei a encontrar num livro que li, há vários anos, uma frase de Niccolo Maquiavel, segundo a qual existiam ‘dois tipos de luta. Uma com base na lei e outra com base na força. A primeira é dos homens, a segunda das bestas, mas a primeira precisa da segunda para se complementar’.

Trata-se de uma frase de um dos maiores pensadores políticos da sua época. Um homem cujas lições são atribuídas ainda hoje estadistas, a cidadãos comuns e até àqueles que preferem se aproveitar da democracia, suas vantagens e desvantagens.

Hoje, no país, infelizmente, começa a se adivinhar uma corrente adepta da segunda tese maquiavélica, assente na besta, mesmo que não existam razões plausíveis para a sua efectivação.

Estranhamente, quase que em uníssimo, surge uma falange de adeptos, nos últimos tempos, que pensam que as mudanças em Angola só terão lugar caso se adopte uma postura de confrontação.

Os paladinos de tais mensagens dizem não confiar nas autoridades, mesmo quando alguns deles sempre fizeram parte daquilo que se apodou chamar de ‘sistema’.

Por mais que existam erros, como os que vemos agora com as mortes de cidadãos por parte da Polícia, ainda é preferível que seja a justiça a melhor via. O que se assistiu esta semana no Bairro dos Ossos, em Luanda, com populares a queimarem e a destruírem uma esquadra da Polícia Nacional, é uma tendência preocupante que se deve inverter com rapidez.

As mortes que ocorreram devem ter os seus autores punidos. As circunstâncias do desaparecimento físico do médico Sívio Dala exigem muitos e bons esclarecimentos. Há, ainda, os casos do Zango, da Huíla, Malanje e agora nos Ossos, em Luanda. Acreditamos que as autoridades também entendem a necessidade do apuramento e punição de possíveis prevaricadores. Mas não se pode esperar que a justiça feche os olhos igualmente àqueles que preferiram usar da força, das tochas e paus para destruírem um bem público.

Por mais que existam algumas ervas daninhas no interior, talvez até fruto de maus processos de selecção, integração e até mesmo de formação, é sempre preferível confiar na Polícia do que desconfiar. O inverso também pode ser aceitável se sequer ficar dependente de milícias e outros grupos supostamente organizados que já começaram a surgir nos bairros com beneplácito de responsáveis do Estado.

O estranho é que, num curto espaço de tempo, os polícias, que antes serviam com algum zelo a população, se tornaram vilões, obrigados a construírem barricadas para se protegerem destes. E , infelizmente, há quem olhe isso com bons olhos em nome de uma hipotética mudança política.

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