José Massano Júnior, o rei dos tambores ‘: Havia músicos que Perseguiam os outros músicos’

Dois tambores chamam a atenção assim que se chega à sala. Só seria um espanto se não fosse o anfitrião o próprio José Massano Júnior, o rei dos tambores. O espiritual para muitos. Hoje com 73 anos de idade, Massano Júnior nasceu num dia 10 de Novembro. Por esta razão, a celebração da independência, no dia 11 de Novembro, acaba por ser também uma extensão do festejo de mais um ano de vida. Com o 45º aniversário da independência como pano de fundo para a conversa, o músico abriu o coração e soltou a voz para abordar a sua trajectória antes de 1975, a passagem pela Frente Nacional de Libertação de Angola, a relação com Teta Lando, o regresso a Angola no âmbito da política de cleclemência, as perseguições e a vida que leva até hoje

Faz anos um dia antes da comemoração da independência. Felizmente.

Como é que vive o dia?

Tenho sempre um feriado logo após o meu aniversário. Sinto-me feliz por ter nascido a 10 de Novembro. Por isso, aproveito o feriado do dia 11, tenho a possibilidade de conviver com a minha família, os amigos e as pessoas que me são queridas.

Como foi comemorar a independência em 1975 logo após o aniversário?

Infelizmente, não estive em Luanda. Estava na província do Uíge. Não sei se devo entrar em pormenores.
Esteja à vontade… Eu não pertencia a movimentos políticos, era apenas um artista, mas criaram-me tantas situações e tive que me enquadrar. Fui acompanhar o meu amigo Teta Lando, na altura, e aí fui rotulado como um membro da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA). Daí que tive que integrar as forças militares mistas e fui transferido para a província do Uíge, onde comandei a Base Aérea do Negage.

Como foi acompanhar a proclamação da independência a partir do Uíge?

A independência foi algo ao nível nacional. Ela foi proclamada, efectivamente, em Luanda, pelo Presidente António Agostinho Neto, mas acabamos por comemorar todos, porque era uma data irreversível.

Ainda se lembra como e onde esteve?

Estive em minha casa com a família.
O militar precedeu ao músico. Como se envolveu nisso? Eu fui tocando, acompanhando os músicos políticos quase todos nas músicas revolucionárias, principalmente o Teta Landu. Daí que fui rotulado logo como membro da FNLA, porque o Teta Lando era membro deste partido.

Nunca chegou a pertencer à FNLA?

Não lhe vou dizer que não: pertenci, sim senhor. E estou aqui para assumir isso.

Nas tertúlias do Marçal, com os seus companheiros, já havia no seu interior este sentimento de que era necessário lutar, cada um no seu campo, para se conseguir a independência?

Não. Posso dizer que eu era um analfabeto político. Na altura, eu só queria saber de música e nada mais. Ao longo do tempo, com os movimentos de libertação, então fui despertando.

O que o levou a despertar?

A independência e sermos nós os angolanos a comandar o nosso país.

Como é que os portugueses tratavam os angolanos?

Tratavam-nos muito mal. Com uma certeza discriminação. Digo isso porque pertenci ao exército português. Vivi no Marçal e passamos mal muitas vezes. Havia aquelas concentrações de quando em vez, as rusgas que eram feitas ao pessoal dos bairros. Cheguei a ser identificado algumas vezes e ser concentrado aí no campo de São Paulo, que é hoje o Hospital Américo Boavida. Depois de recenseado é que nos mandavam embora. Mas, digo, foi um momento difícil para todos nós.

 

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