Anestesia e/ou cegueira mental… O buraco está muito mais ao fundo

Nos últimos anos, o contexto político, económico e social do país, com destaque para a crise económica e financeira, alertou-nos para uma maior necessidade de se analisar e avaliar o propósito que norteia o leme para saída do marasmo em que nos encontramos. Como sugeriu o político e escritor inglês Philip Dormer Stanhope, 4.º Conde de Chesterfield (1694-1773), “a firmeza de um propósito é um dos mais necessários elementos do carácter e um dos melhores instrumentos do sucesso. Sem ele, o génio desperdiça os seus esforços num labirinto de inconsistências”. Num estágio de completa desestruturação, onde os suportes necessários para a saída da crise estão condicionados à melhoria da Ética Pública e da melhor caracterização dos núcleos familiares, qualquer genial esforço, se não for concertado e inclusivo, gerará desperdícios de recursos. No percurso, enganam-se os que resumem a nossa “tamanha calamidade” em consequências circunscritas a aspectos macroeconómicos e/ou de ciência política.

Seria um erro de diagnóstico e de cálculo se assim fosse. A lógica de atribuição da culpa ao colono, ao “sistema”, aos modelos e, se quisermos, aos partidos é antiga e já não colhe. O problema nunca foi do “Partido”… os “Partidos sempre foram o subterfúgio para a busca de protagonismo individual desenfreado”. O problema sempre foi a existência de egos incompetentes, a ausência de escrúpulos e o pacto com a imoralidade da vez. A história do “sistema criado” é para os “bois dormirem”… e para desvio de atenção. Na verdade, tem reinado sobre nós o destacável “primum vivere, deinde philosophare” do Filósofo Inglês Thomas Hobbes, que em seu livro “O Leviatã” (1651) registou a célebre frase latina que traduzida sugere, “Primeiro viver, depois filosofar”.

Por cá, pessoas e organizações com potenciais capacidades para desenvolverem novas ideias, de realizarem projectos, de progredirem na carreira e, até, com habilidades e competências inatas para gerarem transformações sustentadas, não se conseguem realizar porque se perdem na luta pela sobrevivência . Jogadas as cartas à mesa, concluímos facilmente que, a dedicação à luta pela sobrevivência tem gerado uma crise da imoralidade sem precedente: Ignorantes com iniciativa têm sucesso; Partidários medíocres surgem e mobilizam mentalidades; Falsos e incompetentes profissionais são contratados; Maus gestores são nomeados; Fazendo mal, conquistam- se mercados; Pais irresponsáveis têm filhos e filhos irresponsáveis não se dedicam à procura pelo conhecimento. Passamos a observar os desvios de valores como um “modus vi vendi”… Acusamos e negamos quem de modo diferente se comportasse… Grande parte de nós perdeu a vergonha e o medo de errar… por acreditarmos ser natural o erro”.

As expressões “eu sou angola no”… “sempre foi assim”… “quem és tu que pensas que mudarás este país”… “a culpa não é minha”… “a corrupção não vai acabar”… “essa gente não muda”… etc… servem de estímulos aos maus comportamentos de sempre… Tanto é assim que grande parte dos que clamam por direitos não cumpre com os seus deveres… e compromete direitos de outrem. Vivemos a pura insensibilidade com o sofrimento de outrem… até os hospitais foram assaltados… isto não é partidário… é funesto… é desumano… é completa ausência de escrúpulos. Afinal o que se passa entre nós…? Que maldição é esta? Por que facilmente decidimos fazer do “egoísmo pessoal, do comodismo, da falta de generosidade e das pequenas cobardias do quotidiano” o nosso modo de vida? O gestor público pratica peculato, o pedreiro rouba o cimento, o enfermeiro rouba os medicamentos, o motorista desvia o carro do patrão, o taxista rouba ao dono do carro, a empregada doméstica desvia alimentos… que anestesia mental e/ou cegueira mental é esta? O problema não é macroeconómico, não é do Direito e da Ciência Política, da Antropologia e nem um pouco de rituais de exorcismos… o problema é com a rotura, em que assumimos contra valores e princípios basilares de convivência humana. O show de notícias sobre os desvios rocambolescos fala por si.

A estrutura política nacional, a componente antropológica da população e todos os outros aspectos periféricos que concorrem para a construção de um país bom para se viver… fazem-me acreditar que as mudanças políticas, que se resumem na troca de “peças do xadrez”…, são falíveis e quase sempre reproduzem o passado. A mudança que almejo para o meu país, exige que todos reconheçamos o passado tenebroso e participemos da construção do “país novo”… isto não é romancismo… é realidade… o exemplo do mundo é claro… sem envolvimento de todos… esqueçam… “ser arrogante ou ter discursos bonitos e pseudo intelectuais” nunca será uma solução. É com liderança firme, patriótica e com propósito que chegaremos. É com directrizes transparentes e comprometidas que os resultados chegarão. É com desempenho e produtividade que o país começará a sorrir. Dignifiquemos os 45 anos de Independência… e nós agradecemos!

POR: Josué Chilundulo

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