O dilema da Royal Academy: vender obra de Michelangelo ou despedir 150 pessoas

O dilema da Royal Academy: vender obra de Michelangelo ou despedir 150 pessoas

‘Uma das mais belas obras de arte que existem” pode ser colocada à venda esta semana. Trata-se de uma obra-prima de Michelangelo, conhecida como Taddei Tondo, que pertence à Royal Academy (RA) de Inglaterra. A escultura em mármore com 515 anos foi doada à galeria de Londres, em 1829, após a morte da sua proprietária, Lady Margaret Beaumont. A ideia era que servisse de inspiração para os alunos da academia artística, mas agora pode ser a salvação da instituição.

A Royal Academy viu a pandemia afectar as suas finanças, ao ponto de ponderar medidas drásticas para salvar a mais famosa escola de arte britânica. Uma dessas medidas passa por despedir 150 trabalhadores. Uma medida que desagrada a um grupo de académicos, que sugerem a venda do Taddei Tondo em alternativa. O valor exacto da escultura não é conhecido. No entanto, em 2017 o Art Newspaper sugeriu que valeria mais de 100 milhões de euros se fosse vendida.

Taddei Tondo é o apelido para a obra inacabada – intitulada “A Virgem e o Menino com o Menino São João” – que foi encomendada por um comerciante de tecidos chamado Taddeo Taddei. O termo renascentista tondo refere-se à sua forma circular e acredita-se que a obra tenha sido esculpida no início do século XVI, durante a primeira estada de Michelangelo em Florença. “A venda do Tondo já foi discutida.

Vale muito e pode salvar empregos e tirar a Royal Academy da confusão financeira em que se meteu”, disse um desses anónimos académicos ao “Observer”, confirmando que o assunto tem dividido opiniões na administração da escola de artes. Declarações que levaram um porta-voz a garantir que a instituição “não tem intenção de vender” nenhuma obra do seu acervo: “Temos o privilégio e a responsabilidade de ser guardiães de obras de arte extraordinárias.

É nosso dever cuidar do nosso acervo permanente, para que as gerações actuais e futuras possam desfrutar dele.” O assunto vai novamente a discussão esta semana, mas, segundo a imprensa inglesa, a presidente da Royal Academy, Rebecca Salter, está “horrorizada” com a ideia de vender algo tão famoso. E espera pela ajuda prometida pelo governo britânico para minimizar a situação. Isto, apesar de, segundo o Guardian, na semana passada, a RA ter comunicado uma redução dos custos anuais em oito milhões de libras (8,7 milhões de euros).

O que implica despedir metade dos seus funcionários, cerca de 150 pessoas. “A decisão de agarrar-se a um pedaço de mármore que poderia tornar a AR financeiramente segura nos próximos anos é moralmente errada”, segundo o artista britânico John Constable, que um dia se referiu à obra de Michelangelo como “uma das mais belas obras de arte que existem”.

A pandemia já afectou academias e galerias de arte de Londres: a Tate planeia despedir 313 pessoas, por exemplo. O assunto está a despoletar uma discussão pública entre a comunidade artística da Grã-Betranha, que se questiona se os museus e instituições culturais deviam usar os activos (obras de arte) para obter estabilidade financeira?

Fonte: Diário de Notícias