Paideia: do caos à simplificação do conhecimento

Por: JOSUÉ CHILUNDULO

A justificação veio dos principais gestores de alguns bancos da nossa praça, segundo os próprios, há dificuldades na cedência de créditos ao sector produtivo nacional por várias razões, sendo a que se destaca: “a baixa qualidade dos projectos apresentados”. Não fosse o séc. XXI, a representação clássica da massificação do Conhecimento, do Progresso Tecnológico e de grandes descobertas inovadoras, em volta da Inteligência Artificial, ficaríamos descansados.

A verdade é que, tal fundamentação… dita numa reflexão de cariz internacional sobre “O papel da Banca no crédito à economia em tempo de crise” e, publicada em destaque, nos principais meios de comunicação social, expõe a presença de “Caos”. Sem dramas, a interpretação mais básica deste pressuposto remete-nos para uma de cariz cirúrgico, mas complexa sendo a conclusão: é urgente fazermos do CONHECIMENTO, o ponto de partida para a nossa reforma económica e social.

Quando a regra se torna na constante concepção de projectos económicos mal fundamentados, com altos riscos, baixa rentabilidade e com poucas probabilidades de exequibilidade, as instituições de formação, as incubadoras, os escritórios de consultoria e o próprio sector empresarial privado recebem uma certificação negativa.

Portanto, as consequências estão aí. As linhas de créditos disponibilizadas por instituições financeiras internacionais e nacionais, para o mercado nacional, levam tempo para serem executadas e, com isso, vamos somando prejuízos e atrasos nos diferentes programas de aceleração da produção nacional.

Com as devidas adaptações a “Teoria do Caos”, que gera atrasos nos processos de cedência de créditos compromete a capacidade da economia nacional de tirar proveito dos prováveis 2 anos de moratória, inerente ao pagamento da dívida pública, o que tornará o ambiente económico caótico e impossível de ser gerido findo período de bonança. Diferentes teorias apregoadas por filósofos, matemáticos, cineastas e não só, remetem-nos para a reflexão de que a Teoria do Caos está presente em tudo que nos cerca e é a base da imprevisibilidade de vários problemas económicos e sociais dos países.

Quando o meteorologista americano Edward Lorenz deduziu as equações do “efeito borboleta”, no início da década de 1960, testou um programa de computador que simulava o movimento de massas de ar, e pela redução de algumas casas decimais, teve resultados inesperados, de grande impacto. Para Lorenz, era como se “o bater das asas de uma borboleta no Brasil causasse, tempos depois, um tornado no Texas”.

A falta de conhecimento generalizada, manifestada na deficiente concentração de habilidades e competências técnicas e cognitivas à disposição do mercado, como que “o bater das asas de uma borboleta”, encarecem os projectos, atrasam os processos, impõe a importação de alta tecnologia produtiva e comprometem o progresso do país. Em plena era do conhecimento, em que a China está a construir uma lua artificial, o mundo discute sobre a utilização ou não dos Bitcoin (criptomoeda), sobre a realização da Rota da Seda, sobre inteligência artificial e outros avanços tecnológicos, nós, infelizmente,
discutimos sobre a baixa qualidade dos projectos dos empresários.

Admitamos, na sua abrangência, o conhecimento científico apenas começa a ser concebido quando a sociedade decide solucionar os seus problemas e sair do Caos em direcção a simplificação dos processos, o que implica a PAIDEIA, isto é, a avaliação dos resultados do processo educativo, na vida dos indivíduos, das organizações e da sociedade.

A ampliação do conceito de Paideia, presente em Sócrates, em Platão, em Aristóteles ou em Isócrates, não designa unicamente uma técnica própria para, desde cedo, preparar a criança para a vida adulta. A fi nalidade passa a ser a formação geral que dará a cada homem a sua forma humana, a temperança ou seja, que o construirá como homem e cidadão com perfeito domínio de si, aliando sabedoria e acção avisada.

Para o alcance de tal ideal, as Universidades e os Institutos são chamados a serem agentes-chave no ecossistema do empreendedorismo. Cabe a eles a criação de startups, aceleradoras, espaços de coworking, grupos de investidoresanjo, núcleos de pesquisa e todas as organizações ligadas ao empreendedorismo. Essa conexão gera efeitos positivos tanto para as Instituições de Ensino Superior (IES), recebendo apoio, desenvolvendo os alunos e instigando a inovação, quanto para o ecossistema, que se beneficia do conhecimento gerado e da mão-de-obra qualificada.

O Conhecimento impõe-se como uma obrigação da qual a sociedade não pode fugir. Para Platão, a saída do caos implica a existência de “…toda a verdadeira educação ou Paideia, que enche o homem do desejo e da ânsia de se tornar um cidadão perfeito, e o ensina a mandar e a obedecer, sobre o fundamento da justiça “ (PLATÃO, Leis, 643). Vivemos um mar de incertezas. É uma sina com a qual somos obrigados a conviver, dadas as nossas circunstâncias complexas e históricas. Em todo o caso, o CONHECIMENTO está à nossa disposição.

A Teoria do Caos dá-nos a capacidade crítica e permite-nos questionar algumas das nossas hipóteses desafiando-nos para novas directrizes e para soluções dos nossos problemas. É importante simplificar, a exemplo do que exige a pandemia da Covid-19. Apesar da sua magnitude, pode ser controlada pelo simples gesto de lavar as mãos e o uso de máscara. Pensar reformar a nossa economia com subsistemas complexos, que ignoram os limites das percepções da massa crítica existente, mais do que adiar resultados, aprofunda o caos.

A Teoria do Caos ensina-nos a crer “que o certo não é resistir às incertezas da vida, mas antes, é de aproveitar as possibilidades que elas nos propiciam. Todavia, os sistemas caóticos e não-lineares – como a natureza, a sociedade e a vida de cada indivíduo – transcendem qualquer tentativa de previsão, manipulação e controlo”. Sem criatividade, disciplina e resiliência, com aproveitamento altruísta das experiências dos outros… passados 45 anos de Independência, continuaremos a perpetuar erros. O País é nosso… e nós agradecemos!

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